Eu Matei Minha Mãe, 2009

Eu matei a minha mae

★★★★★

Xavier Dolan esteve desde muito cedo ligado ao cinema. Parece ter conseguido, anos depois, unir as experiências da atuação com o olhar curioso, afim de desmistificar o papel do diretor em uma obra, ou melhor, o papel de um criador.

Com vinte anos, ele dirigiu o seu primeiro filme. Se não bastasse, Eu Matei Minha Mãe foi aplaudido longos minutos em Cannes. O jovem diretor conseguiu transformar a sua ansiedade em arte, levando as ultimas consequências o fator identificação: jovens do mundo inteiro se identificam com o tema abordado pela obra, sua alma indie e as fortes influências de videoclipes.

Pretendendo navegar por entre uma relação conturbada de um filho – interpretado pelo próprio Xavier – com sua mãe – Anne Dorval em uma performance estarrecedora – o desenvolvimento atinge muitos outros fragmentos familiares do homem moderno como opção sexual, busca pelo inalcançável e, principalmente, amor.  A relação entre filho e mãe desencadeia uma série de reflexões sobre os mais diversos temas, que são propostos de maneira sutil e inteligente.

Vivemos em um mundo que diminui a importância da criança, muito por conta de uma inevitável insegurança; Isso cria uma distância, muitos adultos acabam ignorando as crianças, de forma a proibi-las de dizer o que pensam sobre o mundo e as futilidades que o cercam. O mesmo acontece, infelizmente, com o jovem.

O homem adulto tem a mania de achar que sua juventude é melhor do que a atual, mesmo que não compreenda o que é a atualidade. O processo de empatia surge como uma piada para os desavisados, as relações familiares partem de uma necessidade de estabelecer regras esquecendo, consecutivamente, do carinho.

Xavier Dolan, em Eu Matei Minha Mãe se transforma em uma ferramenta para alcançar algo proibido: a voz. O título faz referência a um sentimento muito pessoal e complexo, podemos matar uma pessoa sem ao menos encostar os dedos nela. O pior tipo de morte é morrer existindo, fruto de uma existência vã ou uma relação extremamente degradante – no filme temos justamente o segundo caso.

Hubert, o jovem protagonista, se mostra insurrecto constantemente, principalmente quando direcionado a sua mãe. No entanto, em um dos diversos momentos onde faz suas confissões perante uma câmera, ele parece compreender a realidade que precisa da figura materna tanto quanto a odeia. Ainda mais, o ódio aqui assume uma definição ambígua, podendo desviar-se com facilidade pelos caminhos da adoração: ele ama a independência da mãe na mesma proporção que odeia a sua falta de preparo em cuidar e ter carinho por ele, no mesmo momento que se identifica com essas falhas, pois também não consegue ser um filho exemplar.

As “falhas” dos personagens são analisados de forma pertinente, o diretor faz questão de expor isso freneticamente, por esse mesmo motivo pode soar forçado para muitos, mas pelo fato de se tratar de um jovem realizador, o personagem que vemos na obra é o alter ego do seu criador, podemos traduzir como uma metalinguagem o próprio processo criativo, visto que se trata de um jovem querendo desabafar para o mundo tudo aquilo que tem a dizer, mesmo que o “tudo” seja muito grande para ser feito depressa.

Um fator crucial para o entendimento do filme, na sua essência, é analisar a composição dos cenários, bem como a iluminação. Pautando-se em uma fotografia aparentemente comum, visivelmente temos as curvas dramáticas dos personagens sendo retratadas através de um destaque na iluminação dos cenários – quando Hubert está na casa do seu namorado, no quarto, a iluminação da casa é extremamente clara, ressaltando a pureza e limpeza existente na relação do seu namorado e amigo com a mãe extremamente liberal. Um verdadeiro contraste se comparado as diversas cenas em que Hubert está sentado na cozinha com sua mãe, onde o cenário teima engolir ambos personagens, principalmente com a ajuda da iluminação vermelha e o posicionamento alto da câmera, que destaca a pequenice da mãe e filho, bem como o afeto inexistente ali.

A importância do cenário e objetos ganha uma nova proporção quando nos deparamos com diversas inserções ao longo de imagens aparentemente desconectadas da história. Logo no começo temos, por exemplo, imagens de miniaturas de borboletas – borboletas, como todos sabem, significam a transformação – essas borboletas, veremos a seguir, são enfeites na parede do quarto da Chantale ( mãe ), portanto, metaforicamente ela guarda a transformação do filho na parede pois não consegue lidar diretamente com o seu desenvolvimento e independência.

A casa e sua decoração representa a alma da mãe, sua personalidade e expectativas, por isso Hubert nunca parece estar a vontade naquele local. No entanto, é curioso notar, em determinada cena, que o garoto passa a ajudar a cuidar da limpeza, da arrumação da casa e, imediatamente, a iluminação – voltemos a ela – se torna mais clara, ou seja, o filho ao cuidar da casa e dos objetos, está cuidando da própria mãe.

Outro elemento que compõe as cenas iniciais e se estende durante quase todo o filme, é os planos detalhes. Olhar, dedos, xícaras, enfim, aproximam o espectador da rotina. Há ainda uma preocupação em posicionar os personagens sempre em lugares desproporcionais no quadro, ora no canto esquerdo, ora em baixo, poucas vezes eles estão centralizados.

Paradoxo é tentar entender a angústia de não ser aceito. Hubert é um ser em formação, cheio de falhas e passando por momentos difíceis e confusos, de forma minimalista a sua relação homoafetiva vai sendo trabalhada, junto com a sua insegurança em confiar na mãe, porém a mesma não parece agir de forma a extrair tal iniciativa do filho. Essa barreira vai moldando formas obscuras e a raiva vai dando lugar à rebeldia. Um jovem genuinamente ansioso, à espera de uma oportunidade para fugir.

E, quando o menino/criança, entra no ônibus para voltar ao seu lugar nenhum, a estabilidade dá lugar ao desequilíbrio, sendo mostrado através da câmera que treme constantemente enquanto, ao fundo, temos a cidade desfocada. O mundo particular de um jovem inocente a espera de crescer e, principalmente, ser aceito.

“Você é um peixe de águas profundas, cego e luminoso. Nada em águas turbulentas, com a raiva da era moderna, mas com a frágil poesia de um outro tempo.”

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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  • Jaime Neto

    Esse filme é muito bom… Assisti ele no NetFlix com uma porrada de outros GLBT. É muito legal, retrata bem acho que a maioria das relações entre mãe e filhos homossexuais! 😘

    • Emerson Teixeira Lima

      Concordo, é um excelente drama, traz discussões pertinentes sobre o jovem. Volte sempre Jaime 🙂

  • Samuel Henrique

    Muito boa sua análise, captou muito bem a mensagem que o filme queria transmitir. O filme é ótimo, cenas, atores, detalhes… tudo lindo!

    • Emerson Teixeira Lima

      Obrigado Samuel, volte mais vezes! 🙂