The High Wall, 1964

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É curioso notar que alguns simples elementos podem ser cruciais para o entendimento de determinada obra de arte. No caso de “The High Wall” – um bom representante do movimento Nová Vlna, a Nouvelle vague da antiga Tchecoslováquia – temos a parede como protagonista ou vilã de uma pequena e sútil história de amor e auto-conhecimento.

The High Wall” não foi lançado no Estados Unidos, tampouco no Brasil. A sua tradução, inclusive, deve ter sido feita por algum fã ou curador de mostra. O significado no original – dei-me o trabalho de traduzir – assume exatamente a mesma coisa do inglês. “Vysoká zed” significa algo como “O Muro Alto”.

Dirigido pelo excelente Karel Kachyna que possui uma grande experiência em trabalhar com filmes onde o protagonista é uma criança e, ainda mais, o faz de forma singular e sensível ao extremo. O seu primeiro trabalho “Garoto-Estilingue” é um dos melhores filmes de guerra da história do cinema, pois se desenvolve inteiramente sob os olhares de uma criança tomada pelo espírito da coragem, o diretor consegue analisar a dicotomia entre a inocência e a realidade.

No segundo trabalho, “The High Wall“, Karel Kachyna parece querer sair urgentemente da crítica a guerra e filmagens no campo para investigar uma personagem sufocada pelo mundo urbano. Deixa isso bem claro logo na primeira cena, onde temos imagens da cidade na qual se desenvolverá a história da pequena Jitka, uma menina de 11 anos, e o seu amor por um homem que está se recuperando de um problema na coluna chamado Mladík.

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É válido ressaltar que a palavra “amor” nunca é dita, no entanto, há uma série de elementos que confirmam essa ideia ao espectador, a primeira delas é a música que abre o filme e percorre bons momentos da história: Für Elise do Beethoven.

Todos sabem que essa composição foi escrita pelo Beethoven para sua amada, mesmo que não haja fatos nessa história, todas as hipóteses giram em torno da mesma coisa, se trata de um amor não correspondido.

Depois, em um prólogo, temos a seguinte frase:

Ainda nos lembramos de nosso muro alto, talvez ainda nos lembramos a primeira vez que subimos nele, cheios de curiosidade. A tristeza que descobrimos foi devastadora para nós. Mais tarde, perguntamo-nos como esquecer a tristeza.

Essa mensagem está no plural – “lembramos”, “nosso”, “descobrimos” etc – peguei-me imaginando de imediato se tratar da menina e do rapaz, como uma bela história que está presente nas lembranças dos dois. Contudo, o muro assume diversos significados nessa obra, uma delas é o momento exato onde a criança se desperta para a vida adulta, se apaixonando. Portanto, esse plural assume, também, uma importância no que diz respeito a universalidade de tais lembranças e acontecimentos, ora, todos nós tivemos os nossos primeiros amores e, por consequência, aprendemos a subir os muros altos que nos aprisionavam no medo e vergonha.

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Logo após o prólogo somos apresentados a protagonista, Jitka, uma adorável menina de onze anos que aproveita sua vida pulando telhados e fazendo pequenas bagunças – na narrativa, não deixa de ser uma forma de ressaltar sua inocência e imaturidade -, existe uma imaturidade ali que é oposta a maturidade apresentada pela garota ao encontrar com Mladík e ajudá-lo a se recuperar. Ele está em um hospital, sofreu um acidente que afetou sua coluna, a incapacidade de caminhar está muito presente, assim como justamente essa fragilidade desperta um instinto materno na menina que, rapidamente, o espectador percebe que está apaixonada.

Não pense, caro leitor, que não há reciprocidade. Mesmo com a evidente polêmica, há alguns indícios que entre os dois nasce, sim, um desejo. É curioso lembrar que estamos falando de um filme de 1964, e só foi possível tal liberdade criativa justamente pelo Nová Vlna, onde jovens estudantes de cinema ganharam o aval total do governo na época para criar livremente.

Voltemos ao desejo. Tudo o que está no filme acontece de forma subliminar e sutil. O desejo é representado desde enquadramentos até outros pequenos detalhes como a maça. No primeiro encontro que vemos dos dois – sabemos ao longo que ambos já haviam se encontrado antes – a menina tem três maças, que trouxe de casa. Ela come uma e joga pelo muro duas para o Mladík. Ele incapacitado fisicamente não consegue pegar de imediato.

A maça, simbolicamente, mesmo com as diversas mudanças ao longo da história e diversas culturas, sempre esteve atrelado ao desejo, proibição e erro. Na literatura, em “Branca de Neve…” é usada para enfeitiçar, teve que ser colhida por Hércules no seu 11° trabalho, isso sem contar a famosa história de Adão e Eva.

Jitka só tem onze anos, é evidente que o diretor trabalha a inocência ao seu favor, sua pretensão é desenvolver a “história de uma flor desabrochando”. Mas é inegável que há uma mensagem oculta, bem realizada, por sinal. Até porque momentos depois que o rapaz consegue pegar as maças, a menina pede para ele tentar caminhar e depois de 9 passos, quando sua perna está bem fraca, o que dá forças para ele continuar é ver as duas maças que Jitka acabará de lhe entregar.

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Ou seja, a menina assume uma importância gigantesca para a sua recuperação. No mesmo tempo que a sua limitação física é metafórica, pois existe uma limitação em amar. Ainda mais, o caminhar parece sempre estar direcionado a menina. Ela o incentiva a caminhar, depois ela o apoia e rouba muletas para ele. Destaco também que a protagonista sempre se encontra com ele e permanece em cima do muro – não pode passar o proibido/obstáculo – ela só ultrapassa essa barreira, se aproximando, quando ele dá os primeiros passos. Ele mesmo afirma, feliz ao conseguir: ““Então dançarei com você”.

A limitação física do Mladík é o desencontro inevitável entre um adulto e uma criança. Aliás, a entrega física do ator Vít Olmer é admirável, passando veracidade em cada dor que sente ao tentar se superar. Do outro lado, como Jitka, a graciosidade que a atriz Radka Dulíková emprega na sua personagem só aumenta ainda mais o nível de qualidade da obra.

The High Wall” não pretende apoiar ou abominar essa relação confusa. É sensível em diversos momentos – principalmente ao analisar a inocência da primeira paixão – e sutilmente agressivo em outros. O diretor Karel Kachyna consegue, assim como a música Für Elise do Beethoven, realizar uma obra fantástica, refletindo de forma linda sobre o processo de amadurecimento.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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