Amélie – Refúgio em um Mundo Inventado

“Quando o dedo aponta o céu, o idiota olha para o dedo”…

amelie

Tarde chuvosa. Casal de jovens inebriados pela possibilidade da fuga. Depositando um no outro toda a confiança que lhes é cabível. Não conhecem os sentimentos, não conhecem o desejo, tampouco enxergam em seus próprios reflexos a ousadia da liberdade. Eles fazem amor pela primeira vez.

E do amor, todos nós surgimos. Diferentes orgasmos, diferentes momentos e iniciativas. Mas sempre começa com o olhar, parte para o encontro e permanece na entrega. Existem pessoas que já conhecemos e transmitem os mesmos sentimentos mas são, tão somente, distantes pelo tempo. Nós viemos de um mesmo começo e vamos nos libertando/desprendendo para o outro fim.

Quantas outras possibilidades existem, senão, imaginar? Quanta omissão quando se deveria apenas amar. “Amar-se” seria uma benção, mas o “amar-te” toma conta de nós. Quantos (re)encontros acontecem e quantas despedidas são necessárias. Quantas responsabilidades e quantas delas deveriam ser prioridades? Quantas vezes fizemos sorrir e quantas vezes nos deixaram chorar. Só quem amou conhece a dor que é sonhar.

Sonhar é ou deveria ser obrigação da existência. Desviamo-nos desse caminho para enfrentar uma realidade sem graça. Onde a busca se tornou vã, acomodando os não-sonhadores e transformando o “mesmo” em preciosidade ilusória.

Uma mosca capaz de bater as asas 14.670 vezes por minuto pousa em uma rua, no mesmo tempo que um senhor apaga o endereço do amigo que acaba de falecer. O endereço, que pode ser traduzido como o seu abrigo no mundo, já não é mais necessário. Portanto, devo perguntar-lhe: Porque o homem sente necessidade de se fixar? Fixar em um local, emprego, em um ou vários corações?

No mesmo instante que Eugéne Colére apaga a existência do amigo – mas consegue apagar do seu coração tão facilmente? – um super espermatozoide de Raphael Poulain conhece o óvulo da senhora Poulain. A existência é um ciclo, dá oportunidade para infinitos heróis fazerem a diferença em um mar transbordando de igualdade. Vem ao mundo uma menina chamada Amélie Poulain.

 Jean-Pierre Jeunet colecionou memórias desde 1974 para realizar “Le Fabuleux Destin D’Amélie Poulain” e nos créditos iniciais já deixa claro que a protagonista seria uma das maiores figuras da história do cinema mundial, quiça, da arte. Uma menina, com ar de inocência e segurança intimidadora, realiza inúmeras atividades que exploram e mostram com exaustão toda a sua criatividade. A paleta de cores, sempre vibrantes e com tendências ao verde e vermelho, dá um tom onírico a apresentação da personagem, que por sua vez é inundada pela vida. A vida que é necessária sonhar pois Amélie é uma criança que não recebe carinho.

“Amélie tem seis anos, como todas as meninas gostaria que o seu pai a abraçasse às vezes, mas eles só tem contato físico durante o exame clínico mensal. A menina, radiante por essa intimidade excepcional não pode impedir o coração de acelerar. O pai, assim, crê que ela é vítima de uma anomalia cardíaca…”. 

Que exame cardíaco é esse? Quão figurativo se torna os batimentos do coração da menina com a aproximação de seu pai? Por sua anomalia, oriunda da indiferença do pai em relação a solidão de sua filha, Amélie é obrigada a estudar em casa, ausentar-se do mundo e desconhecer o processo de crescimento. Nesse meio caótico, ela consegue percorrer o passar do tempo, mantem intacto sua ousadia e continua sonhando, mesmo que o crescimento transforme essa pequena-grande atitude em algo abominável.

Com uma câmera fotográfica Amélie brinca de criar. Transforma as nuvens, os momentos, até que alguém lhe diz que essa pequena atitude tem grande impacto na realidade e, por consequência, provoca desastres. A menina, inocentemente, credita a si mesmo a responsabilidade de todos os males do mundo, como se tudo e todos existissem em prol a ela. Engraçado como vamos adquirindo, com o tempo, a sabedoria de que nossa presença nem sempre é crucial para o andamento das coisas. Somos mais um, nem por isso comum.

Amélie cresce e foge. Ela se ausenta da necessidade do comodismo e busca nos pequenos detalhes uma resposta. Ela olha com um binóculo pela janela o homem de vidro, um senhor com problemas nos ossos/coração que, por motivos pessoais/medo, se proíbe de sentir a vida e se limita/imita a desenhar os seus sentimentos. Um deles, por sinal, se trata de menina, diferente de todas as outras, que segura um copo de água na mão. Ela está presente, rodeada de pessoas, mas parece saltar da tela, como se gritasse por ajuda, implorando por atenção. Ela representa um lado trágico da felicidade, o outro lado de todas as coisas, o sonho dentro do caos e a esperança em plena guerra. Ela representa Amélie.

Homem de vidro: Ela prefere imaginar uma relação com alguém ausente do que criar laços com aqueles que estão presentes.
Amelie: Pelo contrário. Talvez faça de tudo para arrumar a vida dos outros.
Homem de vidro: E ela? E as suas desordens? Quem vai pôr em ordem?

O homem de vidro, sábio e ignorante na mesma proporção, busca compreender sua criação no mesmo tempo que, assim como o pai de Amélie, não dá atenção aos detalhes. Ele não percebe que Amélie segura um copo de água no exato momento que ele tenta entender a “menina diferente do quadro que segura um copo”, ele nem ao menos percebe que se trata do diretor do filme. Como uma metalinguagem, podemos traduzir o filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” como uma obra prima, um quadro que o homem de vidro guarda em sua parede. O vidro do homem é o diretor Jeunet e todos artistas que criam seus personagens e doam pedaços deles mesmos para suas criações.

O homem de vidro é, ao mesmo tempo, o sábio e o aprendiz, afinal, ele é a Amélie sem a iniciativa de fazer aquilo que quer. Amélie não é apenas uma única mulher, ela é um conceito. Existe em muitos de nós.

Além de todos os personagens do filme terem um destaque e importância gigantesca para a compreensão da obra, muitos deles representam um espaço ou ausência da protagonista. Amélie pensa tanto nos outros que esquece dela mesma, portanto, temos uma personagem secundária que é hipocondríaca. Ela pensa e prevê uma série de infecções, mas se entrega facilmente ao “vírus do amor”. Seria isso um erro? O erro encontra-se justamente na previsão, pois tudo é tão incoerente que se torna impossível aferir.

Sempre estamos fazendo os mesmos movimentos, seguindo os mesmos passos e acordando nos mesmos horários. O tempo se dá permissão de ser depressa e, quando percebemos, nem ao menos nos damos conta do porquê. Como Dominique Bretodeau: ele teve uma vida, brincou, se divertiu e sorriu. Escondeu todo um momento em uma caixa e somente ela restou do passado. No passado, aqui imagino, se sentiu invencível, inconfundível, exclusivo e imortal, contraste com o que se tornou. Amélie revive em um desconhecido o prazer de se conhecer novamente. Ela transforma o mundo e faz os cegos enxergarem exatamente o que vê, mesmo que a própria luz de realidade queime os seus olhos diante a sua fraqueza.

A força e fraqueza de Amélie parte exatamente da mesma coisa, assim como o ser nasce do amor. Amélie é diferente de todos os outros e tão igual ao processo de amar. Se torna enigmática, abstrusa, irrefutável e tão… incerta. Não há certezas no amor.

Cabe a você e eu questionar: Amélie opera a favor do outro ou dela mesma? Não seria a sua ingerência um pouco gananciosa? Amélie é uma caixa vazia, preenchendo-se com as experiências que enfrenta, um mundo surreal que traduz exatamente a sua personalidade.

Amélie Poulain é a moça com o como de água nas mãos, em meio a crise se destaca como uma agente da modificação. Contornando as dificuldades e a realidade com muita cor, muito vermelho, muita arte. Teima, mesmo que como um processo de contradição, demonstrar sua força através do registro. Transformando o inimaginável em amigo íntimo, aliás, tudo se torna tão íntimo.

Como os melhores e maiores impressionistas, Jean-Pierre Jeunet descreve minha vida e de muitos, faz-me sentir feliz somente pela oportunidade de sentir o vento. Me sinto distante de tudo e tão próximo, tão rico e pobre, relembro todas as coisas que vivi e que poderia ter vivido. A loucura é um bom dia para se experimentar. Um dia, dentre vários, que se perderão, como um grão de areia que se sente invisível e pouco valorizado por ser só mais um.

Nesse momento penso em tudo, no porquê escrevo, no porquê vim, estou e para onde vou. Não consigo parar de imaginar o amor e o quanto por ele já sofri, sem nem ao menos entendê-lo. O amor não se sente feliz em ter o seu nome pronunciado em vão. O amor deve ser uma criança triste olhando pela janela de casa a rua que, tomada pela água da chuva que cai, proíbe todas as outras crianças de brincarem na rua.

O amor esta em meu coração, esperando pelo inesperado de dizer coisas sérias brincando, dormir no abraço mais gostoso e seguro do mundo e dizer tudo aquilo que preciso. Pena que o mundo não é mais um bom lugar para os sonhadores. Contudo, eu não sou feito completamente de vidro e aguento os baques da vida.

No mesmo tempo que um ser caminha só pela rua e pensa em por um fim nos seus problemas, uma menina nasce do outro lado do mundo. O seu primeiro choro soa como sinfonia nos ouvidos do seu pai que, sendo desprezado pela sua família, jura a si mesmo que será o maior pai de todos.

Na mesma noite, um menino intrinsecamente romântico tenta fingir não ter sentimentos. Mal sabe ele que no próximo dia encontrará uma menina que lhe amará tanto, ao ponto de se esquecer dela mesma.

E, na madrugada, enquanto todos dormem, Emerson Teixeira escreve ao som de “Comptine d’Un Autre Été” tudo o que precisava sobre “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”. Minutos antes ele caminhou até a janela e sentiu uma leve brisa em seu rosto, enquanto observava com atenção o silêncio e ficou feliz por estarem todos bem. 

“Estranho o destino dessa jovem mulher, privada dela mesma, porém, tão sensível ao charme das coisas simples da vida…”

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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