Possessão demoníaca no cinema

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O cinema de terror nos anos 60

Os anos 60 foram, sem dúvida, um dos mais importantes para a história do cinema de terror, isso porque antes era produzido muitos filmes onde o medo era traduzido em forma de monstros. Filmes da Universal e Hammer eram feitos aos montes, e nomes como Frankenstein, Drácula, O Fantasma da Ópera etc, eram os grandes chamariz.

É então na década de 60 que começamos a ter, efetivamente, diretores trabalhando o sobrenatural mas, claro, sem deixar nossos queridos monstros de lado. O sobrenatural atingia níveis que refletiam a própria situação da sociedade – leia-se espíritos, fantasmas, possessões, terror psicológico e os famosos filmes de exorcismos ou que envolviam, de modo mais literal e cotidiano, o demônio.

O grande clássico Psicose ( 1960 ) dirigido pelo mestre Alfred Hitchcock, trazia consigo uma série de inovações. Como a “introdução do terror psicológico”, inversão do papel da protagonista, tratamento interessante do vilão etc.

Não que anos antes não existisse filmes diferentes ou que os já citados filmes da Universal e Hammer fossem ruins e vazios, muito pelo contrário. Todos sabem – ou deveriam saber – que diversas criaturas partiram do medo real do homem com as bombas nucleares, por exemplo. O que quero dizer é que a sociedade precisava de uma abordagem diferente no gênero terror, esse que é o gênero que mais extrai características da realidade e, por consequência, atinge uma dificuldade inacreditável para se trabalhar, afinal, despertar o medo não é algo fácil de se fazer.

A produção cinematográfica no mundo inteiro estava em plena transformação, pessoalmente, acredito que os anos 60 e 70 foram os melhores para os filmes de terror por conta da diversidade de temas e relevância dos trabalhos para a arte do cinema. Inglaterra, Japão, México, Itália, enfim, todos esses países produziram obras na década de 60 que destacam muito bem toda essa reflexão como Onibaba ( 1964 ), Kwaidan ( 1964 ), Yabu no naka no kuroneko ( 1968 ) e Jigoku ( 1960 ) no Japão, Hasta el Viento Tiene Miedo ( 1968 ) no México etc.

Possessão demoníaca no cinema

Como um fragmento dos diversos temas que seriam trabalhados com maior propriedade nos anos 60, tem um em específico que perdura até a atualidade – de forma trágica na maioria das vezes, é verdade – que é os filmes de possessão demoníaca ou de exorcismos.

Exorcismo é uma prática feita para expulsar entidades malignas de alguém ou algo, na verdade esse ritual é muito antigo e quase todas religiões tem uma ligação com essa palavra, de formas diferentes e necessidades diferentes, o fato é que o exorcismo está muito presente, mesmo que oculto, nas mais diversas crenças.

O primeiro filme que aborda a questão, de forma literal, é um polonês chamado “Madre Joana dos Anjos” de 1961, inclusive tem uma crítica aqui no site sobre ele ( clique aqui ). Dirigido pelo Jerzy Kawalerowicz, esse filme tem uma atmosfera incrivelmente obscura, aborda a possessão de forma psicológica e muito, mas muito filosófica. Deixa qualquer fã de Begman maluco!

Outros filmes que posso citar aqui é “The Devils” ( 1971 ) dirigido pelo Ken Russell e que se baseia no mesmo fato real de “Madre Joana dos Anjos” – uma onda de possessões em diversas freiras em uma cidade pequena – porém é muito mais gráfico, transgressor, subversivo e, para alguns, doentio. Se trata de uma obra imprescindível para quem gosta de cinema.

E, claro, o maior e mais conhecido filme de exorcismos de todos os tempos: “O Exorcista” ( 1973 ). Apesar do clássico dirigido pelo William Friedkin ser extremamente poderoso visualmente, os artifícios mecânicos, bem como a atmosfera traz o cinema de terror à um patamar inédito. O incrível é constatar que mesmo se tratando de um filme que aborda o sobrenatural, ainda há lacunas para a dúvida. Seria esse mundo desconhecido realmente real ou tudo não é somente problemas psicológicos?

Se você, caro leitor, fica incomodado com os diversos filmes de exorcismos atuais e se incomoda com o fato de que muitos copiam descaradamente o clássico de 1973, saiba que o mesmo também copiou muito os já citados “The Devils”, “Madre Joana dos Anjos“, “Il Demonio” e, eu citaria também, um filme chamado “Incubus” 1966.

No caso do filme Italiano “Il Demonio” (1963 ), dirigido pelo Brunello Rondi, dizem que a Warner até chegou a vetar a exibição do filme em terras norte americanas por conta de temer a notícia de que o clássico se “inspirou” para realizar algumas cenas. Por exemplo, você sabia que aquela cena em que Regan desce as escadas invertida, parecendo uma aranha, foi retirada desse filme italiano? Não? Então compare:

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“Il Demonio”, mais do que um filme de exorcismo, é uma obra que analisa de forma minuciosa o papel feminino, envolta de muita opressão por parte da igreja, ignorância e o próprio homem. Recomendo a leitura da minha crítica ( clique aqui para ler )

Além da já citada cena que o clássico de 73 copiou, há ainda alguns pontos semelhantes como enquadramentos, um momento específico onde acontece a primeira “manifestação demoníaca”, algumas mensagens sexuais e a ousadia em trabalha-las direta ou indiretamente e, dentre outras coisas, a personagem feminina. Afinal, vocês já repararam que a grande maioria de filmes de possessão é uma mulher que recebe a entidade e não um homem?

Agora, voltando bem rápido ao “O Exorcista”, se você gosta de conferir coisas novas e interessantes, bem como engraçadas, sugiro duas versões que surgiram no ano seguinte que copiaram na cara dura o filme. Uma é italiana: “L’Anticristo” ( 1974 ) e o outro pertence ao movimento blaxploitation, norte americano mesmo, chamado “Abby” ( 1974 ). Claro, esse segundo é para amantes de filmes B e querem dar uma boa risada.

Bem, seguindo os anos, chegando aos atuais, poucos que trabalham o tema da possessão demoníaca me atraem. Muitos ignoram o fato de que é preciso trabalhar a dúvida, criar expectativa, ter respeito pelo tema e simplesmente utilizam os exorcismos como ferramentas para chamar a atenção e criar um medo embalado como “produto para reunião de amigos no cinema”.

Destaco obras como “O Exorcismo de Emily Rose” ( 2005 ) – que se desenvolve como um filme de tribunal, isso é muito interessante, assim como o caso real que foi inspirado. Eu já escrevi sobre ele ( clique aqui para ler ) – “Invocação do Mal” ( 2013 ) esse é um bom exemplo de filme que cria a expectativa e transforma a entidade maligna em uma força onipresente, antes mesmo do momento da possessão.

Enfim, poderia citar outros, mas minha proposta nesse artigo é apresentar os clássicos para quem não conhece. Espero que gostem e que procurem os citados, qualquer coisa é só me chamar. Aliás, deixem nos comentários outros bons filmes de exorcismo, recentes ou não. Abraço e tenham medo!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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