The Lobster, 2015

The Lobster

★★★★

“Cadáver adiado que procria”

O que, de fato, é o homem? A solidão parece um sofrimento, no mesmo tempo que é uma obrigação de viver. O ser tem essa dívida com as imposições “encontrar alguém legal para ficar”, no entanto, por muitas vezes, essa necessidade rege sua existência de forma ditatorial. Levando o individuo as últimas consequências, se entregando à alguém apenas para se livrar da maldição de estar só.

Em Ratos e Homens, de John Steinbeck, uma das frases mais célebres do livro faz referência a uma necessidade quase insana do homem em se manter acompanhado, caso contrário, pode se entregar facilmente à loucura. No livro a questão tem um significado mais abrangente, é preciso estar acompanhado de pessoas, independente das séries de classificações que teimamos fazer como amigos, namorado, amante etc.

De onde vem, então, essa necessidade contraditória de entregar-se ao outro, navegar por entre a despedida da sua liberdade para ser posse ou possuir alguém? Claro, estou aqui sendo extremista, boas relações acontecem o tempo todo, assim com o seu prazo de validade cada vez fica mais evidente. O grande problema não é o relacionamento em si, mas o quanto enfeitamos essa ideia primordial de se dividir, seja fisicamente ou emocionalmente.

Abraçando a espera

O pôster de The Lobster, filme dirigido pelo grego Yorgos Lanthimos, é incrível, nos revela um personagem abraçando uma imagem apagada. Alguém que não está ali, evidente apenas pela sua própria ausência. E o filme fala exatamente sobre isso, dos diversos abraços que damos diariamente na “espera”, acariciamos o espaço entre uma relação e outra, beijamos as diversas oportunidades desperdiçadas e, por fim, brincamos de Deus ao imaginar o quanto pessoas aleatórias nas ruas poderiam nos fazer sorrir.

Há diversas regras: Precisamos nos relacionar, precisamos transar, precisamos multiplicar e precisamos urgentemente morrer para aliviar o alto índice de população.

The Lobster parece ser desenhado com maturidade por um diretor jovem, Yorgos Lanthimos saiu de uma obra prima da tensão chamada “Dente Canino” e parou em um raríssimo trabalho – bem feito – de humor negro, onde a comédia e drama estão em perfeita sincronia.

O filme se passa em um futuro ( ou seria presente? ) onde as pessoas estão proibidas de estarem só, sem relacionamento amoroso. Solteiros até viúvos, todos são submetidos a uma “prisão” em um hotel, onde terão 45 dias para encontrarem alguém e se, por ventura, isso não acontecer, serão transformados em algum animal. Detalhe: esse animal deverá ser escolhido pela pessoa que não conseguiu um amor.

Lagosta

A tradução do título é “lagosta”, isso porque acompanhamos David ( Colin Farrell ) em sua estadia no hotel e ele revela, em um questionário inicial, que quer ser transformado em uma lagosta se não conseguir arrumar uma namorada.

Os motivos:

  • Vivem mais de cem anos
  • Tem sangue azul
  • Continuam férteis durante toda a vida
  • Ele gosta bastante do mar

Colin Farrell, um verdadeiro galã, prova o seu talento mais uma vez ao apresentar um personagem fora de forma e fora de qualquer sintonia com as circunstâncias que se encontra.

Na primeira parte o filme se atém em apresentar o hotel e a maneira mecânica que o ser humano passou a tratar o relacionamento. Desde conhecer alguém até a divulgação da união. Não se sabe o motivo da necessidade de estar acompanhado, a não ser claro, a imposição da sociedade. É uma analise em base ao humor e estranhamento, de toda a questão que mencionei na introdução dessa crítica.

Momentos como os exemplos de o porquê uma vida de solitário é ruim são deveras engraçado e, no mesmo tempo, crítico. Abordando com perfeição a nossa falta de argumento quando o assunto é união. E, se não bastasse, ao entender as regras, percebemos que aqueles que conseguem um par – se livram de virar animais – vão para um outro quarto e, se o relacionamento não der certo, eles colocarão um terceiro personagem nessa história: um filho. Não é exatamente isso que acontece? Essa atitude de preencher a distância com a criação, estreitar os laços através de um amor/preocupação em comum?

A fotografia é essencial na criação de uma fábula, bem como os tons de azul dão uma ajuda na melancolia que parece acompanhar os personagens durante todo o tempo. Com uma abordagem interessantíssima, navegamos por entre a realidade disfarçada de surrealidade.

A criatividade aparece e acena aos amantes da arte audiovisual, nessa obra que sabe usar o estranho a seu favor e fazer do inexplicável a sua ferramenta principal para chamar a atenção. A verdade é que a opressão existirá em qualquer lugar e o homem, por sua vez, sempre precisará estar caçando um par, pelo menos assim pensam os que banalizam o destino.

“Um dia ele percebeu que é muito mais difícil fingir que você tem sentimentos quando não tem do que fingir que não tem sentimentos quando os tem”.

(Visited 31 times, 2 visits today)

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Textos relacionados