The Assassin, 2015

The.Assassin.2015

★★★★★

Quando criança, adorava assistir os famosos filmes Wuxia. Esse subgênero está diretamente ligado a cultura chinesa, tendo sido desenvolvido e alcançado o seu auge nos anos 60 e 70.

Espero um dia poder escrever sobre esses filmes tão fascinantes que trabalham com exaustão as lutas e a figura do herói, sempre com elementos de fantasia. Já surgiram muitos clássicos, uma prova disso é que muitos diretores asiáticos atuais homenageiam esses trabalhos revivendo o wuxia, algo parecido com o que acontece com o western no Estados Unidos.

Todo o trabalho do diretor Hou Hsiao-hsien se desenvolve lentamente, de forma a contemplar cada detalhe e, consecutivamente, o silêncio. Depois de nomes como Wong Kar-Wai, Ang Lee e Zhang Yimou, chegou a vez de Hou Hsiao trabalhar o wuxia e, confesso, ele consegue realizar um trabalho primoroso, inclusive ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes.

Ao lado da sua musa, a belíssima Shu Qi que começou os seus trabalhos em pequenos filmes softcore até atingir o auge da performance em filmes como “Millennium Mambo”, Hsiao preenche com maestria as lacunas da sua obra com uma poesia visual inacreditável. A fotografia, os cenários, o figurino, enfim, tudo é tão encantador que é impossível não gostar, apesar do ritmo bem frágil, que, por muitas vezes, cansa e tira a atenção.

The.Assassin.2015

O posicionamento de câmera começa introduzindo o espectador na ideia da contemplação, o movimento das árvores, os olhares, até mesmo a violência é doce, acontecendo – durante todo o filme – de forma extremamente sutil.

A história é básica, explicada em doses homeopáticas – apesar de que veremos a seguir que tanto os personagens como suas respectivas histórias não são tão importantes como as suas reações, ou seja, o presente – Nie Yinniang é uma garota que fora, ainda criança, raptada e treinada por uma freira para ser uma assassina. Depois de falhar em uma das missões, a moça precisa voltar ao seu passado e enfrentar um grande amor, do qual o presente teima em sussurrar nos seus ouvidos que se trata de um inimigo.

 A apresentação de “A Assassina” não revela muito, curioso é notar que é em preto e branco que temos o primeiro contato com esse mundo ou período, afinal o filme se passa na China, no século IX. Aliás, tanto o monocromático quanto as cores vibrantes e mescladas, são trabalhadas de forma a contar um pouco da personalidade dos personagens, que se distanciam por diversas vezes do espectador por conta da ausência de diálogos ou narrações. A fotografia em preto e branco, do começo, ressalta a psicologia da protagonista, diante a iminente necessidade de matar, contrastando com, primeiramente, uma mulher brincando com um bebê e, depois, com as cores extremamente fortes e hipnotizantes, seja do cenário ou figurinos.

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Frases como “Você tem dominado a espada, mas precisa resolver o coração” é repetida muitas vezes, de variadas formas. Se trata apenas e brilhantemente, de uma mulher lutando contra os seus instintos, buscando o seu lugar. A sua figura, sempre vestindo roupas pretas – contudo, destaco que em determinado momento onde Yinniang desaba emocionalmente, ela está envolta de vermelho – se transforma rapidamente em algo intimidador, mesmo que ela seja a que menos tenha diálogo. É difícil se identificar com os personagens, não são trabalhados com a linearidade que estamos acostumados, é preciso se esforçar para encontrar no vazio uma explicação: engraçado é constatar que a resposta da personagem é o próprio vazio, visto que o seu caminhar, o seu combate, a sua reflexão, mesmo que silenciosa, remete-nos a ideia de um ser sem alma, que se um outro alguém tocar se perderá em uma imensidão de escuridão.

A câmera é usada de forma inteligente ao extremo, primeiro porque seus movimentos traduzem algumas frases que nunca são ditas, até por esse motivo a filmagem estática está muito presente, aliás, se não bastasse a coreografia das lutas ou uma cena de dança, que é maravilhosa, ainda temos em diversos momentos uma decisão, no mínimo, audaciosa: os personagens param em cena como se fosse pinturas de um quadro. Parece que o diretor, por vezes, se torna um John Constable e faz do audiovisual o seu “Estudo das nuvens“.

As filmagens longas, os diálogos que se repetem, a delicadeza misturada com uma pitada de monotonia, todos esses elementos aproximam a obra da verdade, mesmo que esteja inserida em um visual quase surrealista. Destaco a busca pela verdade, tecnicamente, com os movimentos de câmera que, muitas vezes, passa por entre tecidos e acompanha os personagens de forma embaçada, representando o olhar da protagonista sobre uma realidade que nunca sentiu: a família, o amor, o carinho, o toque, etc.

Seria Yinniang uma vilã? Seria sua mestre uma vilã? É complicado determinar essa função em um filme que caminha em direção oposta. Elas são, nós somos, todos vítimas da vida. Apesar de condições, Yinniang consegue estar a beira da reflexão sobre sua real importância, nem que para essa indecisão ela precise caminhar por entre o caos, é uma heroína clássica, a representação do “homem sem nome” dos filmes de faroeste, ou melhor, me corrijo, nada de homem, o que importa em “The Assassin” é a mulher, mulher sem nome, sem rosto, mas com muito sentimento e amor no coração, mesmo que não seja capaz de tocar ou sentir essa capacidade escondida.

O período histórico é visto e sentido pelo espectador através de pequenos elementos do cenário, como se tudo que está em tela quisesse dizer algo. Criando assim uma mise-en-scène poderosa.

A grande síntese da obra acontece quando uma das personagens diz: “suas habilidades são incomparáveis, mas sua mente é refém dos sentimentos humanos.” É evidente a manipulação, a maldade em tentar arrancar os sentimentos mas eles são inerentes ao ser. Pensando bem, todos nós, assim como Yinniang, ficamos mais vulneráveis ao amar, mas talvez esse seja o risco pelo qual acordamos todos os dias.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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