The Cave of the Yellow Dog , 2005

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Byambasuren Davaa, cineasta Mongol, teve o seu documentário “Camelos Também Choram” indicado ao Oscar em 2004. Apresentando a partir dai uma sensibilidade sem fim para registrar o cotidiano dos nômades na Mongólia. Mais do que isso, inclusive, a sensação que ela transmite é universal, pois o seu olhar desbrava o homem e sua família como poucos no cinema atualmente.

Parte de algo simples, um conflito quase inexistente, senão, existir. Aliás, qual conflito seria maior que esse? Há um choque de realidade. Estamos cada vez mais afundados em meio ao consumismo, a posse se tornou sinônimo de sucesso e cada dia que passa nos tornamos mais egoístas. Me emociona o fato de existir artistas como Byambasuren Davaa que conseguem nos lembrar da nossa essência simples e orgânica, muito diferente daquela que nos pregam como verdade.

As obras da diretora me fazem revisitar o meu interior, a minha verdade, que se esconde em muitas camadas de mentiras. Mentiras essas fabricadas exclusivamente para afirmar positivamente com a cabeça quando alguém me pergunta: “você está bem?”.

Não, não estou bem. O mundo não está bem. O homem se utiliza de guerras, violência e discriminação para convencer os ignorantes que essa é a postura correta para se proclamar como o dono da verdade. Mas que verdade é essa? Que o Deus dele é maior que o Deus da sua vizinha? Onde se encontra o amor? O que se tornou o lar? Como deixaremos o mundo para as nossas crianças?

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“Todos morrem, mas ninguém está morto totalmente”

“The Cave of the Yellow Dog” ou “A Caverna do Cachorro Amarelo” fala sobre tudo isso que mencionei. Sem dizer uma única palavra do que escrevi. Silencioso e contemplativo, talvez essa seja a chave para, assim, encontrarmos uma possibilidade real de catarse.

A estrutura não poderia ser mais linda: a diretora filma uma família de nômades, incluindo um cachorrinho que uma das crianças leva para “casa”, e sua vida simples nas montanhas. Com trabalhos quase que constantes, de modo a construir uma ideia de luta pela sobrevivência. Essa família é real, se trata de não-atores, ou seja, a diretora faz uma espécie de documentário, misturado com ficção para, enfim, observar essas pessoas que fogem de qualquer hipótese de modernidade.

O significado de casa é muito relativo. Ultimamente tenho pensado muito no quanto precisamos nos sentir inabalável. O quanto a nossa casa representa um templo sagrado onde, jamais, poderia ter a segurança rompida.

A nossa profissão, por consequência, é fruto de uma obrigação imposta pela vida. Mas como seria se pudéssemos fazer aquilo que partisse unicamente do impulso, da irresponsabilidade – ou responsabilidade – de, apenas, viver para sentir?

– Estire sua mão, como eu. Agora tente morder a palma de sua mão 
– Não posso.
– Não pode? Tente outra vez. Mesmo que pareça muito perto, esta muito longe para morder. Não pode ter tudo o que vê

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Com uma fotografia tão linda e delicada, somos os “outros” que observam com atenção algo que poderia ser bem mais identificável se não fosse pela nossa obrigatoriedade em nos perdemos em meio a prédios e a pressa.

As crianças – duas meninas e um menino – são tratados desde cedo com extrema importância, tendo mais responsabilidade que muitos adultos, aprisionados dentro das tarefas, porém, fazendo dos seus momentos livres uma grande oportunidade de experimentar a natureza. A casa que nunca permanece no mesmo lugar, representa o homem e o seu verdadeiro lar: tudo.

De onde vem essa necessidade de criar raízes? Um vínculo com um pedaço de terra. Somos pobres e cômodos.

Há muito tempo viveu nesta terra uma família muito rica, eles tinham uma linda filha. Um dia a filha adoeceu. Não havia remédio que a ajudasse, então o pai decidiu pedir conselho à um sábio. O sábio disse:

– O seu cachorro amarelo está com raiva. Despache-o!

O pai perguntou:

– Por que? Protege a nós e ao rebanho.

– Isso é o que eu tenho a dizer e o que você precisa saber.

O pai não podia matar o cachorro amarelo mas tinha que fazer algo pelo bem da sua filha. Então escondeu o cachorro em uma caverna onde era impossível escapar. Levava comida para ele diariamente, porém, um dia ele havia ido.

Mas a garota melhorou muito. A razão era: a garota estava apaixonada por um jovem e sem o cachorro o casal poderia se encontrar sem serem incomodados.

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A ideia de ciclo é apresentada de forma sutil, entre os espaços de silêncio, temos diálogos que reforçam o quanto a vida humana é um milagre. Tão milagre quanto um grão de arroz se equilibrar na ponta de uma agulha.

Essa preocupação em se manter leve, as frases soam como ondas do mar, a reflexão se mantém profunda e distante ao mesmo tempo. A caverna do cachorro amarelo somos nós, os alheios a essa condição de vida. Prisioneiros do próprio homem e, por isso, tudo permanece envolta de uma postura e entendimento mecânico: família, trabalho, relações, sentimentos, enfim, tudo apenas é, nada é reflexo das nossas atitudes e, se por uma eventualidade passa a ser, já é tarde demais.

Assim como o ser pode ser considerado um milagre, a arte que ele produz também. A sua complexa busca pela imortalidade se dissipa com a criação. Conhecemos aquilo que estamos olhando, leia-se, sentir. O mundo é muito grande, há muitas situações e muitas condições. O documentário é a salvação daqueles que amam, amam a vida e o fato de que existe faíscas de verdade à todo instante e o instante, em alguns casos, pode se tornar uma eternidade.

“The Cave of the Yellow Dog” pode ser classificado por alguns como “parado”, outros podem afirmar que “não acontece nada”. Mas como sabemos a vida é deliciosa e merece ser degustada com calma, equilíbrio e respeito, tudo acontece na vida e nesse documentário entre os espaços, entre as vírgulas, é um exercício de eco. Gritamos e acreditamos estar sozinhos, enquanto o próprio retorno das nossas vozes nos fazem nos sentirmos menos solitários. Apesar de ser uma simples ilusão, eu prefiro ser iludido do que me deparar dia após dia com a realidade.

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E assim minha casa vai sendo desmontada. Minha arte se tornando tímida. Minha escrita vai diminuindo sua intensidade. O que para alguns é crítica, para outros é simples desabafo. Mas nada importa, senão, se construir.

E, assim, vou indo, esperando sempre pelo inesperado.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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