Tangerina, 2015

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★★★★★

O diretor Sean Baker dirigiu em 2012 o pequeno grande filme “Starlet” que, basicamente, acompanha uma menina e uma relação nada provável que se estabelece entre ela e uma senhora de 80 anos de idade.

O engraçado é que por mais que eu tenha gostado do filme, apenas a intenção de “mergulhar” na relação fora do comum entre uma pessoa querendo descobrir o mundo e uma senhora solitária que tem muito a oferecer, que realmente me chamou a atenção. Quando eu assisti, há uns 2 anos, jamais classificaria o diretor como ousado ou um grande nome para o futuro. Vejam só que ironia! Assistindo o seu mais recente filme foram exatamente essas certezas que eu tive.

“Tangerina” tem como proposta algo aparentemente simples: acompanhar a vida de duas meninas, transexuais, pelo mundo da prostituição. Como podemos imaginar, esse mundo suburbano traz consigo uma série de outros elementos que irão compor essa história como, por exemplo, violência, preconceito, amizade, falsidade etc.

 O trabalho de direção é muito eficiente pois consegue transmitir uma sensação de rebeldia, desprendimento e atitude, demonstrando com perfeição a alma do cinema independente. Filmado inteiramente com apenas 3 Iphones – o que não é algo inédito no cinema – os movimentos de câmera que acompanha a protagonista, geralmente enquanto ela perambula pelas ruas de Los Angeles, dá a sensação de mergulho na personagem, nas suas necessidades, bem como no seu olhar sobre as ruas.

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Mesmo que o diretor se utilize da tecnologia para a filmagem, o seu trabalho é tão eficiente e maduro, as decisões são tão oportunas, que logo nas cenas iniciais concluímos que o filme, de forma alguma, é amador. Muito pelo contrário.

O fato de ser utilizado celulares para a realização, não apenas diz respeito ao orçamento, como também dá a possibilidade de uma maior liberdade de criação, uma flexibilidade e intensidade que, no caso do filme em questão, se torna muito necessário. Com o ótimo resultado em grandes festivais como Sundance, por exemplo, essa decisão impacta diretamente na forma de se fazer filmes. Hoje com o crescimento da tecnologia, a evolução da qualidade, se tornou muito fácil produzir um conteúdo. Isso de forma alguma é algo ruim, pois dá voz à pessoas talentosas para produzirem a sua arte da forma mais acessível possível.

O celular pode ser uma ferramenta crucial no cinema, principalmente independente, pois é algo que a maioria possui. Então partir do pressuposto, em uma narrativa, que a realidade está sendo captada da forma mais amadora e visceral é possível, e, dependendo da forma como será trabalhada, poderá ser desenvolvidas outras grandes obras como “Tangerina”; Que consiga se sobressair a qualquer dúvida em relação a qualidade de filmagem.

Sean Baker, um diretor de 44 anos – com muita vontade e sensibilidade – conheceu duas pessoas em um evento LGBT: Kiki Kitana Rodriguez e Mya Taylor. Ambas não tinham nenhuma experiência como atrizes e desenvolvem as suas personagens de forma extremamente visceral. Existe uma liberdade ali, uma intenção de tornar as ruas em um grande palco e, assim, fazer as atrizes brilharem. Eu não hesitaria em afirmar que ambas as atuações poderiam ser reconhecidas em premiações grandes, caso não existisse tanto conservadorismo e preconceito no mundo.

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Logo no início já percebemos uma preocupação enorme em ser natural, o que poderia acabar resultando no equívoco da artificialidade, porém, se mantem com elegância no objetivo, a naturalidade se torna o maior mérito dessa obra. Talvez os conflitos apresentados sugiram algo vazio nas cenas iniciais, porém demonstra com perfeição a realidade dessas pessoas, que se utilizam da rua como uma forma de sobrevivência e aceitação.

A amizade está muito presente, assim como a comédia. É incrível a capacidade dos envolvidos em apresentar um tema tão profundo, de forma tão despretensiosa e que se relacione tão bem com o humor. Mais interessante ainda é notar que há uma inteligência na mescla do drama em momentos pontuais, homenageando essas personagens que conseguem ser tão fortes a ponto de sorrir mesmo em meio as lágrimas internas que existem quase que constantemente. Os conflitos, que pareciam vazios, vão dando lugar ao entendimento e respeito para com aquela forma de vida.

O uso da música, de uma forma geral, é muito boa, em dado momento temos um clássico de Beethoven e a personagem parece estar acorrentada pela vida, pelas pessoas, como se fosse invisível, e, de repente, diante a um movimento simples, começa a tocar um hip hop. Em outra cena, uma das melhores do filme, Alexandra ( Mya Taylor ) apresenta a canção “Toyland” em uma boate, extremamente linda, extremamente talentosa, porém, não consegue atrair tantos olhares, tantas admirações; Depois em uma discussão sabemos que ela teve que pagar para cantar na boate, ou seja, precisava se mostrar. No entanto, o sorriso no rosto ao convidar suas amigas e clientes para a sua apresentação, dá lugar a decepção da realidade: ela é uma pessoa que vive a margem da sociedade.

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O fato da história ou conflito acontecer na véspera de natal, só reforça o quanto faz falta um lar. No mesmo tempo que diante a fotografia alaranjada, os detalhes vermelhos e a própria postura das protagonistas, sugerem que aquele sistema se torna uma grande família imperfeita, por mais errôneo que possa parecer aos olhares exteriores.

Desde as prostitutas até os pais de famílias que procuram os seus serviços eventualmente. Aliás, o termo “família” é algo muito questionável durante o filme, talvez de forma implícita, assim como a amizade. Parece que todas precisam ser amigas, precisam estar conectadas, uma relação amorosa não é o suficiente, o sexo, por sua vez, não é prazeroso.

“Los Angeles é uma mentira embalada em um papel bonito”

Outro foco do longa é os taxistas armênios, além deles serem um dos clientes das prostitutas no filme, servem como uma fuga para o espectador. As cenas inseridas com pessoas, por vezes, aleatórias, conversando sobre o cotidiano é uma quebra, uma forma de direcionar rapidamente o olhar para o outro lado e, assim, percebemos que lá ocorre algo tão monótono ou complexo quanto. Enfim, tudo é a vida.

Se o começo do filme é de uma intensidade tamanha, no final temos um equilíbrio. Tecnicamente tudo vai se tornando mais calmo, um verdadeiro contraste a uma série de confusões que vínhamos acompanhando. Temos uma densidade que traz uma reflexão sobre todo o processo: percebemos o quão importante é tentar entender os motivos do outro e ultrapassar nossos próprios preconceitos sobre um mundo do qual não pertencemos mas que permanecemos vizinhos. Afinal, existe centenas de coisas absurdas acontecendo nas ruas nesse exato momento.

A cena final é extremamente carinhosa, onde o espectador se conforta junto com as duas amigas, e passa a ter certeza que, apesar das discussões, a amizade que existe ali é verdadeira e confortará ambos corações em momento de desespero – pelo menos naquele instante é de suma importância ter alguém para dividir a peruca.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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