Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer, 2015

Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer ( Cronologia do Acaso )

★★★★

“Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”, premiado em Sundance, caminha em direção oposta a outros filmes feitos para jovens – muitas vezes baseados em livros: ele traz personagens bem identificáveis e naturais.

Apesar de ter gostado de “A Culpa é das Estrelas”, é impossível não perceber que a comunicação que se estabelece entre o casal é de uma maturidade tamanha, isso nem seria absurdo, o problema é quando existe uma relação quase perfeita, no que diz respeito a atitudes e a própria palavra. É tão bem encaixado, tão bem desenvolvido, existe tanta esperança no outro e o outro, por sua vez, nunca decepciona. São exibidos os melhores momentos, as melhores referências, os melhores questionamentos e as melhores escolhas. Parece ser a vitrine do relacionamento “popular” ou “descolado”.

De forma alguma é ruim, muito pelo contrário, é possível os jovens se identificarem, ou até melhor, podem buscar a melhor versão deles mesmos através dos personagens que adquiriram uma intelectualidade e maturidade por estarem a beira da morte. Mas ainda assim me parece forçado. O mesmo acontece com “Crepúsculo”, “Cidade de Papel” etc.

Quando afirmo que “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer” caminha em direção oposta a essa questão, é possível, dada a explicação, entender como uma real forma de se identificar de forma orgânica com os personagens e não somente tentar desesperadamente ser ou sentir aquilo que os amados bonitinhos são ou sentem. O filme dirigido por Alfonso Gomez-Rejon, que dirige também American Horror Story e Glee, ou seja, entende as expectativas do jovem, começa com a brincadeira do clichê logo em seu título: Me and Earl and the Dying Girl. 

A tradução para o português, ao que parece, resolveu trocar o nome do amigo do protagonista “Earl” por “você”. É uma diferença pequena, nem se compara com outras catástrofes em termos de traduções, mas ainda assim é motivo para refletir. O relacionamento que se estabelece é pano de fundo, um mero detalhe, para evolução de um ser humano e, coincidentemente, esse ser é um jovem. Portanto, existe três elementos chaves para a composição desse rito de passagem: Greg, um jovem que não sabe o que fazer da vida. Earl, seu amigo e extremamente importante para o não isolamento total do protagonista. E, por fim, Rachel, que é uma menina que tem leucemia, que está morrendo e que vai, diferentemente de outros filmes já citados, contribuir com o crescimento de Greg através da própria situação, pessimismo e distância, tudo isso através de uma amizade.

É tão natural ao ponto de nunca tentar deixar a dúvida se existirá um futuro namoro, claro que os mais otimistas pensarão isso, mas o ponto positivo é trabalhar o amor de forma mais abrangente, afinal, a importância de uma pessoa para uma outra nem sempre é traduzida em beijo na boca, abraço e relacionamento em que todos ficam felizes e bem no final. O aprendizado parte justamente do contrário, das experiências, independente da relação que se cria.

Parece, hoje, que temos uma necessidade em achar crucial o relacionamento amoroso. E afirmar em todos os cantos que só assim seremos felizes para sempre. Mas espera! Será mesmo que uma pessoa no final da vida, temendo a morte e pessimista quanto a possibilidade de uma salvação, teria tempo para conhecer um príncipe encantado e se apaixonar? Pode ser, pode acontecer, mas e o outro lado?

estranho na escola Sempre nas escadas ( algo a alcançar )

Somos apresentados ao protagonista como um jovem comum. Na escola ele é mais um, o talento do diretor em lidar com o clichê, mais uma vez, é muito eficiente, visto que explora certas técnicas para dizer o “de sempre”, porém, sem precisar de muita explicação. Nas imagens acima, por exemplo, vemos Greg caminhando pelo corredor da sua escola em um plongée e, na primeira vez que encontra Rachel, é apresentado a menina em um contra-plongée, mesmo que a moça represente uma iminente fragilidade, se revela ao espectador como uma figura bem mais segura e confiante que o protagonista e é justamente esse ponto que deverá ser trabalhado ao longo dos 105 minutos de projeção.

Uma das coisas que eu sempre perguntei era como ficariam minhas coisas se eu morresse hoje. Não que eu seja uma pessoa materialista – quem não é um pouco hoje em dia? – mas existem certos objetos que estão atrelados a nossas lembranças mais impactantes, um diário, uma caixinha de cartas, enfim, são diversos elementos materiais que ajudam na composição da nossa história. Sendo assim, me peguei fascinado com a exploração do quarto que existe em “Eu, Você e a Garota Que Vai Morrer”. O relacionamento dos personagens/desenvolvimento acontece, basicamente, no quarto da menina, as pelúcias e os seus inúmeros travesseiros representam a sua personalidade, um tanto quanto atenue.

quarto

Greg definitivamente não sabe lidar com a morte, definitivamente não sabe lidar com as pessoas – inclusive chega a teorizar sobre tudo, inclusive as “gostosas”, mostrando mais uma vez a sua vulnerável personalidade – sua amizade com Earl parece ser estruturado a partir da sorte e, principalmente, do cinema. Repleto de citações cinematográficas, afinal, ambos são “cineastas” amadores, esses trabalhos ao longo chegam a acrescentar a trama e, ainda por cima, criar um alívio cômico pois, mesmo que não pareça, estamos falando de um filme profundo.

Me.and.Earl.and.the.Dying.Girl.2015.720p.BluRay.x264.YIFY.mp4_snapshot_00.57.52_[2015.10.18_17.28.38]

No final temos a conclusão da subversão do clichê em relação aos filmes de jovens, com a reflexão: “ela ia dizer aquelas coisas que só aprendemos no final da vida “, no entanto, nessa obra, dentro de suas limitações, ousada, eles simplesmente sentem o silêncio juntos, como verdadeiros amigos onde, em uma simbiose, entendem que nenhuma palavra que seja pronunciada aliviará a dor de estar prestes a morrer. E, para você que pensa que esse último parágrafo contém spoiler, te provoco perguntando: será possível uma pessoa morrer enquanto vive dia após dia?

A única coisa que afirmo, para finalizar, é: na minha morte, eu adoraria estar assistindo um filme.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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