Madre Joana dos Anjos, 1961

MadreJoana.Kawalerowicz.1961.CD1.avi_snapshot_51.44_[2015.11.02_14.21.20]

★★★★★

Quem conhece o filme “The Devils” de 1971, dirigido pelo ousado Ken Russell, já está familiarizado com a história das freiras que foram possuídas por demônios em pleno século XVII, despertando o interesse de pesquisadores anos depois, quando começaram a utilizar esse caso como forma de ilustrar os males da inquisição e como a religião oprimiu toda uma geração de pessoas.

“The Devils” é baseado no livro de não ficção “Os Demônios de Loudun”, filosófico/histórico, o autor se propõe em relatar alguns eventos desse período, que aconteceram em Loudun, uma pequena cidade da França. O filme é, portanto, extremamente impactante enquanto reflexão sobre as atitudes um tanto quanto manipuladoras da igreja, por outro lado, a possessão é abordado de forma completamente diferente do que conhecemos hoje. As freiras nuas, blasfemando contra imagens sagradas, a insanidade demonstrada é aterrorizante e serviu, sem sombra de dúvidas, como inspiração para, dois anos depois, ser realizado o grande clássico “O Exorcista”. A partir de então surgiu o sub-gênero “exorcismo“, que é trabalhado até a exaustão atualmente.

O que poucos sabem é que, na verdade, dez anos antes do “The Devils” existiu um outro filme ambientado, igualmente, no século XVII e que, consecutivamente, também utiliza o caso real como base para refletir sobre a maldade: Madre Joana dos Anjos, de 1961.

MadreJoana.Kawalerowicz.1961.CD1.avi_snapshot_06.01_[2015.11.02_14.18.19]

Esse é tido como o primeiro filme, na história do cinema, a retratar uma possessão demoníaca. Aliás, uma não, várias, afinal, algumas freiras em um convento são possuídas por inúmeros demônios diferentes.

Acompanhamos um padre que chega na pequena cidade para auxiliar nas séries de exorcismos que estão acontecendo no convento. A cidade é mostrada de forma que se extraia o maior isolamento possível, envolto de uma fotografia preto e branco, tudo é extremamente bem encaixado, cada plano, cada detalhe constrói a mesma ideia geral: o demônio está presente.

Vale ressaltar, antes de mais nada, que o demônio é tratado, muito além do que a própria igreja acredita, como uma energia. É incrível constatar que o primeiro filme que aborda a possessão demoníaca na história do cinema use esse elemento como pano de fundo para uma discussão filosófica sobre o que seria, de fato, a maldade. A narrativa é muito próxima aos filmes do Bergman, a mesma angústia se encontra aqui.

O trabalho do diretor Jerzy Kawalerowicz é sublime, fazendo um dos melhores filmes poloneses de todos os tempos, não à toa ganhou o prêmio do juri no festival de Cannes de 1961, mas é importante lembrar que essa ideia não seria tão bem desenvolvida se os atores não estivessem em perfeita sincronia com a inteligência em compor as cenas. Destaque para a atriz Lucyna Winnicka que faz a madre Joana. Uma perfeição de atuação, entregue e ousada. Ela demonstra uma possessão demoníaca apenas com as expressões e físico, não há maquiagem, e é tão ameaçador como em qualquer filme de terror.

MadreJoana.Kawalerowicz.1961.CD1.avi_snapshot_21.31_[2015.11.02_14.19.15]

O filme começa com o padre que chega na cidade e percorreremos, à partir de então, um caminho perverso, profundo e filosófico. Um pequeno bar, no qual o protagonista se prepará até seguir rumo ao convento, já deixa claro o que acontecerá em seguida: existe medo no olhar dos moradores. Não necessariamente há uma explicação para tamanha comunhão de desespero. Mas todos estão visivelmente incomodados, pensativos, como se estivessem tentando descobrir o que é o demônio e por qual motivo ele está ali.

No mesmo tempo que constantemente, nos excelentes diálogos, o espectador é direcionado para o entendimento do demônio como algo identificável, algo que mora em todos nós. Algo que mora na própria religião. Afinal, fica claro uma singela – na narrativa, pois o impacto é monstruoso – crítica a opressão sobre as mulheres, de todas formas, inclusive, sexual.

Um momento que reforça o questionamento sobre o demônio, é quando é dito que ele é o pai da mentira, traz ou lida com perfeição com a falsidade. Uma personagem rapidamente se indaga: O que é falsidade? O que é verdade?

Dado o contexto, é perfeitamente claro que o demônio não é propagado como algo abominável. Se ele é pai da maldade, não importa, o que importa é, antes, entender o que é, de fato, a falsidade. Só é possível afirmar quando se entende, por isso o filme representa em seus diversos devaneios uma cumplicidade com o conhecimento, ainda mais, o desprendimento da própria ignorância que mora na fé.

O padre caminhando até o convento, metaforicamente, demonstra um homem tentando encontrar o seu sepulcro. Reparem que em um momento, em uma conversa com um sujeito, podemos ver ao fundo duas crianças brincando com um adulto, algo como um gorila, um animal irracional, que, por vezes, beira a total racionalidade. Poderia ser mais um simples elemento, mas não é. Assim como em diversas cenas o diretor faz questão de reforçar a sua principal intenção, desmistificando as sensações até, de fato, sermos apresentado ao palco do horror: convento.

Quando o padre entra no convento, ultrapassando o portão que é aberto por uma freira, é um rito de passagem. Inacreditável, novamente, a consciência técnica do diretor ao apresentar esse processo com uma câmera subjetiva: Se a pequena cidade está repleta de olhos amedrontados pelo desconhecido; Se acompanhamos o padre… nessa exata cena temos a oportunidade de ser o padre. Ser o visitante, ser a busca por respostas, ser o primeiro a adentrar naquela prisão de valores.

As freiras são prisioneiras. Claro que não estou generalizando. Mas, lembrando, o filme se passa no século XVII, um momento onde a religião exercia um papel muito mais autoritário – quer dizer, abertamente. Pois o autoritarismo sempre existirá -, ou seja, essas mulheres estão acomodadas com as suas respectivas posições de prisioneiras, o que veremos a seguir é apenas mais uma manifestação de aprisionamento: onde o “demônio” aprisionará as freiras em seus próprios corpos. Mas, agora te pergunto leitor: a religião não faz exatamente a mesma coisa? Oprimindo a mulher, proibindo o sexo? Enfim, evidentemente eles estão seguindo a palavra e, como possíveis “mensageiros de Deus na terra” precisam fazer certos sacrifícios, mas, em uma condição unicamente mundana/humana, eles são vítimas de suas próprias escolhas, precisam usar vossas existências para um único objetivo, transformando o corpo em um veículo e, com isso, em comparação com os outros, se transformando em prisioneiro do próprio corpo/existência.

MadreJoana.Kawalerowicz.1961.CD1.avi_snapshot_44.08_[2015.11.02_14.20.02]

No primeiro encontro entre o padre e a Madre Joana, há um diálogo muito interessante:

– Estávamos esperando pela sua ajuda.
– Nossas preces conjuntas nos ajudarão.
– Por meses somos atormentadas por grandes misérias. Os padres que estão conosco, não tem poder sobre eles.
– Eu tentarei libertar você do seu demônio.
– Oito deles: Behemoth, Balaam, Isacaaron, Gresil, Aman, Asmodeus, Leviathan e Cauda do Cão.

Os nomes e todo o ritual de exorcismo, claro, partem da crença cristã. Influências bíblicas etc. O fato de uma pessoa acreditar em Deus, consiste automaticamente que ela acredite, também, no Diabo. É preciso haver esses opostos.

Então a leitura filosófica é movida por aqueles que conseguirem, durante o filme, ser imparciais quanto ao ritual. Não se trata de uma obra de terror, isso fica claro desde o início – apesar de que a ambientação e a construção técnica seja mais eficiente em causar a tensão do que muitas coisas de terror que temos atualmente no cinema – e o Diabo é a força do incalculável, bem como o ritual é o desprendimento.

No diálogo acima, a madre deixa claro que os padres que já estavam fazendo o ritual não exerciam poder sobre os demônios, ou seja, sobre as freiras. A religião fora abalada, antes de mais nada, e os demônios são o caos. Esse caos é disfarçado e ocultado com a própria crença. O padre ainda complementa, em uma sábia e oportuna resposta – para contextualizar o desenvolvimento filosófico – que “tentará libertar a madre do seu demônio”. Tentará enclausurar freira dentro da sua própria necessidade insana em sentir o novo.

O demônio atinge o ápice do seu significado ao percorrer a história do homem, e se estabelecer como o desejo inalcançável, diante as circunstâncias. É o viver, o transformar, o ser. O medo não é construído em base aquela figura mística com chifres, mas sim ao processo de mudança.

– O diabo está lá e aqui também. O mundo é assim.
– O que você sabe sobre o mundo?

O padre não é herói, muito menos sabe o que vai acontecer. Ele é cheio de falhas e também teme o antagonista, em seus ombros carrega uma cruz constantemente, se mostrando sempre atônito. A atuação do excelente Mieczyslaw Voit é magnífico, transmite com uma precisão intocável todos esses conflitos. Destaque para uma cena, extremamente significativa, onde ele está “conversando” com o Diabo, prevendo o embate que virá a seguir e, curiosamente, ele está em frente ao seu próprio reflexo no espelho. Como se o embate fosse contra ele próprio.

– E se o Diabo entrar em mim?
– Ele não se importa com gente como nós.

Se hoje em dia estão cada vez mais produzindo filmes sobre exorcismos e demônios, poderiam, ao menos, buscar referências nesses filmes que trazem consigo uma profundidade enorme.

“Madre Joana dos Anjos” é a prova que para criar o terror é preciso se ater aos detalhes. E, para discutir algo tão profundo que, em algum momento, envolve-se com a religião, é preciso ter coragem e seriedade. Desde a fotografia, direção, trilha, atuação, tudo está possuído pelo mal. A sensação é que o Diabo está possuindo o espectador ao assistir essa obra-prima. E isso é crucial, pois para acreditar que ele possa existir, é preciso senti-lo e, independente da crença de quem assiste, o filme nos prova que o mal é muito mais do que algo que possamos definir ou simplificar, sendo assim, o demônio ainda permanece uma incógnita e, enquanto existir o homem, ele será sempre algo a ser compreendido.

(Visited 144 times, 12 visits today)

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Textos relacionados