O Pequeno Príncipe – a infância que se esvai

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O mundo existe aproximadamente 4.7 bilhões de anos. O ser humano existe aproximadamente 200.000 anos. Você tem quantos anos? Eu, nesse momento que escrevo, tenho 20 anos.

Eu sou o pó do homem. O homem é pó do mundo e o mundo, por sua vez, é o pó da vida. Somos todos lindos e cheirosos pó do pó do pó. Mas espera ai, antes de ficar irritado comigo, caro (des)conhecido, pense na areia da praia. Nessa areia existe vários grãos, imagina se todos os grãos se sentissem horríveis por serem apenas mais um em meio a tantos? Imagina se todos se demitissem de suas funções e fossem embora para longe?

Você costuma ler livros? Sabe aquela frase que ama? Essa frase existe em meio a outras inúmeras palavras, frases, páginas… mas pra você ela faz a diferença não faz? Bem, então chegamos a um ponto crucial.

Todos nós fomos crianças. E, infelizmente, me parece que hoje tem muita criança sendo adulto e muito adulto sendo criança.  Pessoalmente não gosto de dizer para um garoto que a sua infância é pior que a minha, até porque eu estaria mentindo. Claro que há diferenças, há exceções, mas eu jamais entenderia as crianças de hoje pois cresci, hoje sou adulto, tenho barba, afundei na realidade.

Mesmo que eu diga que tento manter a minha criança viva, mesmo que diga que vivo sorrindo pelos cantos e tentando fazer os outros sorrirem comigo, mesmo que seja do tipo louco e sem vergonha, eu sou um adulto rabugento. Eu acho que você se desprende da infância quando passa a ter vergonha de se mostrar, quando a imaginação não aparece como antes pois você está muito ocupado resolvendo coisas de adultos.

Você é criança ou adulto? Veja isso:

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O que você vê?

O ser humano é o único animal capaz de sorrir. Os outros podem até reagir a uma cócegas ou algo do tipo, mas sorrir, isso não. Pesquisas dizem – poxa, dados e estatísticas são coisas de gente que cresceu, não é mesmo? – que a criança é capaz de sorrir dentro da barriga da mãe. Ou seja, o neném aprende com o mundo externo, se você dançar na frente dele, ele vai querer imitar, mas o sorriso… isso ele já sabe muito bem como fazer.

Agora eu te pergunto: o sorriso da criança é diferente do sorriso do adulto?

O mundo é tão grande, as vezes me dói o coração saber que não terei tempo para ver tudo o que queria. Tem tanta gente no mundo, tanta história, tantos planetas, e eu aqui, nesse mundo pequeno, preso na minha própria insanidade. Eu, minha flor, e as estrelas.

Quando eu era criança, queria ser adulto. Poder ser independente, comprar minhas coisas, fazer o que quisesse. Ai quando me tornei adulto, queria ser criança, porque percebi que ser livre é, consecutivamente, estar preso, pois tinha que comprar coisas; percebi também que fazer o que quisesse me traria graves consequências.

Todo ser é um mundo a ser descoberto. Esse mundo tem sua cor, seus personagens e o seu próprio tempo. Deve ser por isso que é tão difícil compartilhar a sua vida com alguém, tem muitos conflitos, nem sempre vocês doam o mesmo tamanho de espaço, uns mais outros menos e, quando percebem, ficam apertadinhos no mundo do outro.

Acho que os adultos tem dificuldade de aceitar que as pessoas não são propriedades. Classificam e, por isso, passam a acreditar que tem direitos sobre. Ninguém enxerga as pessoas como pessoas. Tem que ter diferença, homem ou mulher, gordo ou magro, triste ou sorrindo, criança ou adulto. Será que não poderíamos ser um só?

Quando era criança achava que a vida seria para sempre, que o amor nunca escaparia de mim, que pessoas importantes não partiam e que, de forma alguma, eu ficaria triste. Quando me tornei adulto, percebi que os anos se passavam. Quando menos esperava o amor deu um pulinho por entre meus dedos. Pessoas importantes se tornaram irrelevantes. Percebi que, aos poucos, me transformava em tristeza e a alegria ficava cada vez mais quietinha, sentada em um banquinho lá na rua que cresci.

Depois que cresci um pouco – metade homem, como dizem – me veio a pergunta: “tá, o que faço agora?”. A minha amiguinha se desenvolveu, como eu, acredito, e me apaixonei por ela. O ser humano dava lugar a mulher. A verdade dava lugar ao interesse.

Percebi que era preciso me produzir. Quando criança tinha um par de tênis, agora tinha dois. Quando era criança não passava perfume, agora dependo dele. Quando era criança não penteava o cabelo, agora sou dependente do gel. Quando criança não tinha vergonha de conversar com meninas, agora tenho vergonha de tudo.

“Se consegues julgar a si próprio, és um grande sábio”

  • O livro O Pequeno Príncipe me ensinou que o nome B-612, na realidade, não importa. Essa definição foi feita para alimentar as expectativas dos adultos.
  • Me ensinou que a vaidade nos faz ouvir apenas aquilo que queremos, privando-nos de todo o resto.
  • Me ensinou que o homem tenta esquecer suas vergonhas da forma mais irracional possível
  • Me ensinou que um rei serve para reinar súditos, mas se ele existe sozinho, reina a si próprio e, por vezes, o contrário
  • Me fez ter certeza de que prefiro ser um preguiçoso do que um contador de estrelas
  • me ensinou que existem muitos geógrafos nesse mundo, mas muito poucos exploradores

Me ensinou que para ser o melhor, basta ser sincero. E mesmo que esse mundo doente faça me sentir carente, aprendi que devo continuar sendo um sonhador. Pois as estrelas estão no céu, é fácil possuí-las, mas contemplá-las é um trabalho muito mais delicado e necessita de um carinho que hoje, como um adulto que sou, só consigo acessar se me aproximar do que um dia já fui.

O mundo é tão grande que nunca me encontrarei com a cobra, mas pude me reconhecer na frase “entre os homens a gente também se sente só”. Nunca encontrarei com a raposa, mas me identifiquei com as suas reflexões. Talvez nunca me encontrarei com você, leitor, mas aposto que você se identificou com alguma coisa que escrevi.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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  • Marco Aurélio

    parabéns pelo texto e direcionamento para propor a argumentação da obra pautado no que ela te fez ser diferente depois de assisti-la.

    • Emerson Teixeira Lima

      Muito obrigado!

  • Elson

    Cara me vi muito no que você escreveu, parabéns pelo texto! E, aliás, a animação é ótima, em algumas passagens não consegui me conter e me peguei chorando!

    • Emerson Teixeira Lima

      Tudo bem Elson? Muito obrigado! Realmente, gostei bastante da animação, porém, ao meu ver, no final se perde um pouco. O redirecionamento de alguns personagens me frustou profundamente, no entanto foi incrivelmente emocionante a história da garota intercalando com o príncipe, quase como se nós estivéssemos nos vendo ali. 😀

      Valeu e volte mais vezes!

  • Ana Paula Cardoso

    Muito bom! Como sempre. Um escritor maravilhoso e uma pessoa extraordinária. Meu adulto rabugento favorito! 👏👏👏

    • Emerson Teixeira Lima

      Obrigado Ana! Escritor Maravilhoso? Uau. ^__^

  • Whinder Marcos Leite.

    Oi, embora está seja a obra mais conhecida dele, eu realmente recomendo “A Terra dos Homens”, uma lição de humildade e esperança.

    Antoine é cheio de frases, conhece está:

    “Viver é nascer lentamente, não seria demasiado injusto se viessemos ao mundo almas completas?”

    “Cada pessoa que passa em nossa vida passa sózinha, mais não vai só.
    Leva um pouco de nós mesmos, deixa um pouco de si mesma.
    Há as que levaram muito, mais não há as que não deixaram nada.
    Essa é a maior obra de nossas vidas, e uma prova evidente de que duas almas não se encontram por acaso.”

    Gostei do seu blog.
    Pretendo visitá-lo mais, e comentar mais frequentemente.
    Continue apaixonado pelo cinema, quem ganhamos somos nós.
    Até.

    • Emerson Teixeira Lima

      Peguei a dica do livro, não sabia da existência dele, muito obrigado.

      Obrigado pelo comentário e carinho, você sempre será bem vindo e a sua participação será muito importante para a gente meu caro!
      Eu continuarei eternamente apaixonado pela arte que me salvou, cinema sou eu/eu sou cinema e só por ler essa sua última frase quem ganhou fui eu, afinal, descubro cada vez mais que meu amor por cinema não é em vão.
      Abraço Whinder Marcos!

  • Diego Alcantara de Almeida

    Você realmente faz jus ao mundo a ser descoberto. Sempre que venho aqui tenho uma nova visão sobre as coisas e sobre eu mesmo. Obrigado por sua disposição em se doar através de seus textos.

  • Juci Pauda

    Concordo com você e com o Pequeno Príncipe. Para ser melhor basta ser sincero.

    Beijos.
    Jucimara