Garotas, 2014

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★★★★

Lembro que quando assisti “Lírios D’Água”, de 2007, fiquei bem indiferente. Não achei bom ou ruim, simplesmente muito parecido com o clássico e dono de um lugar especial no meu coração chamado “Amigas de Colégio” do Lukas Moodysson e, portanto, vi com uma postura ignorantemente distante.

Alguns anos depois eu me deparei com um filme chamado “Tomboy”, de 2011. Procurei o diretor e me surpreendi comigo mesmo, como não dei atenção para a grande Céline Sciamma?
Esse carinho todo, essa carta de amor ao jovem me conquistou de vez, eu simplesmente me tornei fã do trabalho dessa moça que, brilhantemente, investiga a situação da inocência e, por consequência, descoberta.

“Garotas” lançado em 2014, mas com estréia no Brasil em 2015, é diferente dos outros trabalhos da curta carreira, até então, da querida Sciamma. Como já é de se imaginar, extremamente maduro em comparação ao primeiro citado, “Lírios D’Água”.

Conta a história de uma menina chamada Marieme, de 16 anos, negra, sua vida é cercada de regras, o medo está sempre presente, assim como a repreensão. É claro desde o começo que ela precisa seguir um padrão de comportamento, como se estivesse em uma gaiola o tempo todo. A sua vivência nas ruas é a – e tão somente – observação, onde constata, inclusive, que vive em um mundo onde os meninos ditam as regras. Ela conhece algumas garotas, se enturma, se encontra, se descobre. Então o filme parte para uma investigação sobre essa nova necessidade: adaptação aos códigos da rua e violência.

A diretora explora a incomunicabilidade da criança, principalmente quando relacionado ao processo de entender a si mesmo, com essa proposta ela joga na cara que esteremos sempre sozinhos nessa situação. Evidentemente, nos dois primeiros filmes ela usa a sexualidade para a proposta principal, já em “Garotas” existem outros aspectos importantes, demonstrando grande flexibilidade por parte da diretora, na própria direção, com decisões interessantes, enquadramentos, nuances, como no roteiro, visto que a própria também assume essa função.

A cor azul, assim como em “A Gangue“, também de 2015, está muito presente, por exemplo no vestido “novo” da protagonista, o seu quarto, enfim, remetendo-nos diretamente tanto a melancolia vivida por ela como a sua personalidade calma, que prefere contemplar as diversas situações em que é exposta ao longo dos 112 minutos de filme.

É a primeira vez que a Céline Sciamma trabalha com protagonistas negros, já se cria uma inevitável – infelizmente – distancia com o mundo, pois é notável que Marieme se sente diminuta em todos os aspectos, inclusive o racial. Aliás, a atriz estreante e lindíssima Karidja Touré faz aqui um trabalho muito bom, seguro e que encaixa perfeitamente na trama.

Duas palavras chaves para desvendar esse filme são “atitude” e “desprendimento”, a amizade também é abordado com maestria, pois surge com uma celeridade incrível, e permanece até um ponto crucial de mudança na personagem, mesmo que as influências tenham sido devastadoras para compor o seu olhar.

Em dado momento, a garota para e pensa o rumo que a sua decisão a levará. Decisão essa de se desamarrar, “o importante não é necessariamente ser livre, mas se sentir livre”, inclusive uma cena que demonstra isso com perfeição é quando sua amiga pede para repetir a frase “faço o que quero”, duas vezes. No mesmo tempo que é inspirador uma menina enfrentando o seu próprio medo, nunca temos uma esperança, parece que ela está fadada ao fracasso.

É justamente por esse fator que ela questiona, primeiramente, as amizades. Mas de uma forma hiper realista, bem diferente do início, a fragilidade dá lugar a um coração cansado de se iludir. A mesma afirma o que estava claro o tempo todo ““vocês não estão indo à lugar nenhum”, e existe alguém, nesse mundo, que está indo para algum lugar?

Essas reflexões, como mencionado, são todas moldadas com muita preocupação e maturidade, uma realização muito especial. A cena que as garotas cantam a música “Diamonds” da Rihanna é fantástica. Lembrando que a Rihanna é inspiração para muita gente, no mundo inteiro, que vê na cantora uma negra que conquistou um sucesso e reputação, mediante a força de vontade.

Brilhe intensamente como um diamante
Encontre a luz no belo mar
Eu escolho ser feliz
Você e eu, você e eu
Nós somos como os diamantes no céu

Você é uma estrela cadente, eu vejo
Uma visão de êxtase
Quando você me segura, sinto-me viva
Nós somos como os diamantes no céu
Eu logo soube que nos tornaríamos um só

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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