Paixão Inocente, 2014

paixões inocentes

★★★★★

A tradução desse querido filme do Drake Doremus pode ter algum sentido, afinal, é justamente essa sensação que temos ao longo. Porém, o título original traduz com perfeição a narrativa intimista do longa “Breathe In”, ou seja, “inspire” e se viajarmos nessa palavra, figurativamente pode ser atribuída ao ato de controle, equilíbrio, bem como na nossa língua portuguesa existe um outro significado que seria o de “orientação”. Existe uma importância em colocar algumas dessas palavras chaves, pois, a obra apesar de entregar um produto que seja fácil para o grande público, tem a ousadia de ser profundo, inclusive sendo extremamente particular da realidade.

Uma família decide abrigar uma estudante estrangeira de intercâmbio, mas a presença da garota começa a despertar no pai da família ( Guy Pearce ) uma postura crítica diante a sua própria vida, como músico, ele não sente apoio algum da família e está cansado de sonhar sozinho, enquanto isso, a bela Sophie ( Felicity Jones ) representa a jovialidade, nova oportunidade e, principalmente, há uma conexão com a música, visto que ela é pianista.

A cena inicial nos apresenta a família tirando fotos, é perceptível o tom azulado da fotografia, trazendo um aspecto melancólico para aqueles personagens que estão sorrindo, criando máscaras diante a câmera fotográfica. Se não bastasse, em menos de cinco minutos já se estabelece outra preocupação com pequenos detalhes simbólicos, pois vemos a família – que está do lado de fora da casa – através da janela, dentro da casa deles. Como se o espectador fosse, de fato, o morador e aquelas pessoas não tivessem lugar no mundo. Há tanta distância que nem ao menos são proprietários do seu próprio lar.

Essa cena inicial em questão finaliza, com um olhar profundo do Keith Reynolds ( Pearce ) para Megan ( Amy Ryan ), sua mulher. Quando questionado o porquê, responde com certa despreocupação “estou olhando além de você”. Essa afirmação já deixa claro que existe entre eles a maldição do tempo, do desgaste. O que é altamente normal em um casamento – leia-se união – principalmente quando não há força de vontade em nenhum dos lados para reinventar a própria relação.

É complicado essa questão pois as vezes tentar alguma mudança sozinha(o) pode acabar te fazendo se sentir ainda mais solitário e esquecido e, enquanto existe uma relação, talvez a pior dor seja exatamente essa: existir alguém e ir percebendo que não se trata da mesma pessoa de antes.

Keith Reynolds é professor de música, o que literalmente se torna um trabalho entediante, já que ele está acostumado com o palco, apresentações, problemas com a banda, esse último vinculado com a sua adolescência. Existe um passado libertador e, mesmo que o filme não explore, cabe a quem assiste preencher o quanto essa fase pode ter significado para ele como ser humano e, misturado com a impulsividade, o quanto que a responsabilidade de ter uma família pode ter causado um dano na sua concepção de liberdade.

Tiramos essa conclusão com o seu inevitável desconforto em dar aulas, mesmo tentando brincar, ser diferente, ele soa sempre preocupado por não estar afim de educar ou transmitir algo através da voz. Parece que existe um artista que não confia nas suas palavras e não vê nelas uma real utilidade. É um verdadeiro peixe fora da água, até o designer de produção deixa isso claro, principalmente se observarmos a casa, perfeitamente alinhada e, no seu quarto de trabalho, onde ensaia para um teste, parece que aquele lugar o suga, transformando-o em um fantoche que, se não fosse pela música, diríamos que se trata de uma pessoa sem personalidade alguma.

Sophie por outro lado é perdida em meio a tanto tempo perdido, ela soa – forçadamente – como um lobo solitário, sem lugar no mundo, representa, literalmente, as diversas oportunidades que o mundo apresenta. Não é de se questionar que a escolha da linda Felicity Jones é perfeita, ela é tão carismática e perfeita que preenche qualquer lacuna de tentação, inocência e, com o inquestionável talento, dá a sua personagem um outro lado, da maturidade, da inteligência, não à toa o título do filme faz analogia à uma cena onde a menina controla a ansiedade do seu anfitrião. “inspire… expire”

Uma relação ambígua e incerta com a música dá à esses dois personagens o ingrediente final para uma paixão silenciosa, inclusive na cena em que Sophie senta para tocar piano e se mostra uma exímia musicista corrobora com a sensação de ameaça por parte do seu professor,  Keith. E são diversas cenas que representam a conexão entre eles, mesmo que contrarie tudo aquilo que todos consideram normal. Mas, lembrando, anormal é não amar.

Os olhares, os toques, as conversas, tudo realizado de forma singular, obrigando o elemento “puro” a ter a sua vez. Uma verdadeira inversão de valores e, acima de tudo, uma oportunidade brilhante de recomeço, tudo seria extremamente perfeito se, o filme, tentasse seguir os padrões de Hollywood mas, para a (in)felicidade de alguns, não acontece nada além do real e, como sabemos, cabe ao homem se inspirar com as diversas curvas que a estrada da vida oferece.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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