Expresso do Amanhã, 2013

expresso do amanha

★★★★

Por ser um apreciador do cinema sul-coreano, fiquei extremamente feliz com a oportunidade de assistir “Expresso do Amanhã” no cinema. Já havia escutado comentários sobre ele e, mesmo assim, sem nenhum motivo aparente, acabei não tendo muita curiosidade. Pelo menos valeu a pena esperar dois anos e conferir na tela grande.

Bong Joon-ho é um dos melhores cineastas do mundo, muito jovem, ele demonstra uma maturidade incrível para lidar com diversos temas, consegue caminhar com tranquilidade pelo drama até chegar na tensão, como visto em “Memórias de um Assassino” e “Mother”. Agora ele faz um filme para o grande público, acertando bastante, principalmente se comparado com outros diretores do circuito alternativos que pecam em não transportar toda a sua capacidade para as realizações maiores.

O mais recente filme de Joon-ho começa explicando que um experimento dá errado e o homem se vê em meio a uma nova era do gelo. A pouca população que ainda resta está a bordo de um trem que foi planejado por um homem chamado Wilford ( Ed Harris ), lá dentro a desigualdade é presente, pois as pessoas são divididas por classes. A classe inferior, liderados por Curtis ( Chris Evans ), estão prestes a mover uma grande revolta e, por consequência, o espectador entenderá a situação e o contraste com os demais vagões do trem que representam, em resumo, o status.

A metáfora está presente desde a primeira cena, ou melhor, desde a sinopse. Fica claro que cada vagão representa uma classe social, porém, podemos ainda estender o seu significado para a própria história da humanidade. A classe inferior, a qual somos apresentados primeiros e, através deles, descobriremos as demais, representa tanto os operários quanto a primitividade ou a irracionalidade existente no mundo. Traduzindo, os primeiros homens da terra, ainda descobrindo as ferramentas para, enfim, encontrar a sua evolução.

Através da estratégia e observação dos seus personagens, o filme bem no início já os constrói de forma perfeita, criando, por exemplo, em Curtis o perfeito “futuro líder”, aquele que deve passar por cima da impulsividade para ser o guia dos mais ignorantes. É a representação do despertar, em qualquer âmbito, o homem necessita da exploração para entender o meio e a si próprio.

Evidentemente, o líder necessita de ajuda e, por esse motivo, Gilliam, interpretado pelo John Hurt, faz o típico sábio, aquele que mesmo inserido na inferioridade, se mostra extremamente ciente sobre a sua situação. Bem como, em seguida, para abrir as portas e entrar nos próximos vagões, eles precisam de um especialista. Entra em cena Namgoong Minsu ( Song Kang-ho ) e Yona ( Ko Ah-sung ), ambos atores excelentes, Song Kang, inclusive, ao lado de Min-Sik, é meu ator preferido da Coréia do Sul. A cada porta que Namgoong ele ganha drogas, esse personagem representa a ultrapassagem, a coragem para enfrentar o que vem adiante. Ele dá as chaves, ele encontra o momento certo. É válido ressaltar, inclusive, que além do humor negro, o surrealismo está presente, em doses pequenas, como por exemplo a personagem Yona que pode enxergar através da porta/tempo, traduzindo com perfeição o sentido de precaução do homem.

Essas metáforas, podem ser reduzidas, como escrevi acima, apenas em classes sociais, transformando o filme em uma necessidade nos cursos de sociologia, porém, imagino que há outras discussões filosóficas a fazer, principalmente no que diz respeito a etapas. As cenas de lutas são frenéticas, cortes rápidos, algumas ausências sonoras, como se fosse uma vírgula para o espectador dar forma a esse turbilhão de significados que somos apresentados.

Em nenhum momento se torna pedinte, inclusive, a interpretação acontece de forma orgânica, imagino que era justamente a intenção, pois ter o Chris Evans no pôster leva o grande público a crer que se trata de mais um filme de ação, tradicional e do mesmo, o que de forma alguma traduz a realidade. O maior mérito do filme é não ser comum, acaba por tirar quem assiste da zona de conforto.

Em um momento crucial, quando os rebeldes chegam em uma sala de aula, há uma crítica feroz a, inicialmente, deixar as sujeiras escondidas embaixo do pano e, posteriormente, a atitude da professora que da aulas para o seus alunos como se quisesse alcançar uma espécie de alienação em prol a exaltação de um ser que os garotos desconhecem. Pregando, inclusive, a indiferença com o restante, algo bem real e recorrente na sociedade, desde o princípio.

Parece que cada personagem é um monumento, explorado em todos os detalhes para desenvolver mensagens importantes, dentre elas, a importância da igualdade e esperança. Uma verdadeira seleção artificial, onde o poder cria um meio sustentável de cegar o homem até mesmo sobre a situação real do mundo. Em dada cena um dos personagens pede para que os rebeldes se limpem, com água, tirando o sangue do corpo, isso poucos minutos antes de seguir para uma nova etapa, adentrando então em um universo elegante e falso, onde existe desespero em perder até mesmo uma simples bebida.

Aliás, durante toda a projeção eu imaginei Wilford como Deus e, como consequência, o objetivo dos homens. Como se ele representasse o estágio final da batalha por um lugar no mundo. Aqueles homens que conseguirem concluir todas as missões, tem direito de sentar ao lado de Deus e questionar o real objetivo do sistema, que pode ser tanto entendido como injusto como necessário.

O que me frustou um pouco – nada comparado com a grandiosidade do longa – foi no final as longas explicações do antagonista, chegando ao cúmulo de soltar “o trem é a vida, as pessoas são a humanidade”, algo que desde o começo estava muito claro, além disso os efeitos especiais nas cenas externas são bem fracas, algumas delas poderiam ser ocultadas, inclusive seria um artifício interessante, afinal o que realmente interessa é a vida/trem.

Por fim, é um excelente filme para refletir alguns temas importantes, desenvolvido de forma inteligente e que, mesmo se rendendo há alguns clichês, se torna único por conta de alguns elementos e preocupação com os detalhes, seja visual – como o contraste entre os cinzas no primeiro vagão e as cores vibrantes nos últimos – ou narrativa, pois existem várias discussões maravilhosas ao longo.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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