Teus Olhos Meus, 2011

teus olhos meus

★★★★

“Respira Emerson…. respira Emerson… calma.” – Meu pensamento durante todo o filme.

Um dia cheguei em casa revoltado, no meio de uma discussão falei “eu vou embora, vou morar na rua”, minha irmã na época com uns 8 anos, começa a chorar. Algum tempo depois, conversando sobre esse dia, eu pergunto o motivo do seu desespero, ela me responde “porque eu sabia que era verdade”.

Eu tenho uma relação intima com a rua e eu tinha uma relação complicada com o lar. Talvez exista uma ânsia dentro de cada um, a minha era uma sem respostas, nada me satisfazia. Hoje me sinto mais um animal enjaulado do que uma pessoa que superou suas necessidades. Hoje, com vinte anos, aprendi que o equilíbrio é muito importante e que existem outras formas de fazer as coisas.

Tenho vinte anos. Curiosamente, Gil tem 20 anos. Curiosamente, Gil é órfão, eu não. Mas inexplicavelmente me sentia assim. Curiosamente, Gil vai para as ruas e percebe que isso não é exatamente o que esperava. Até o seu violão é roubado, o que mais podemos esperar do mundo então? Esse lugar hostil, repleto de enigmas. Espera, será possível que o mesmo mundo que me apunhalou pelas costas, pode um dia desses, eventualmente, apresentar o meu amor? Será possível que no mesmo instante que estou brigando com a minha família em casa, haja crianças sorrindo na rua? Onde mora, onde se encontra as respostas?

 Eu tive a experiência de assistir “Teus Olhos Meus” sem saber nada sobre, sem ter lido nada. Me deparei com algo muito pessoal, muito intimo da minha personalidade, coisas que vivi, sentimentos presos na garganta. Se não fosse o suficiente, o diretor Caio Sóh trabalha a música, que tanto amo e, mesmo sem ser músico, tanto me fez companhia em momentos que estava perdido, sozinho.

“Se eu pudesse fazer um aviãozinho de papel com a minha vida e tudo que vivi até aqui e jogar para longe”

“Teus Olhos Meus”, essa frase representa a mais elevada possibilidade de encontro. Há uma fusão, um mundaréu de pensamentos que nos fazem questionar a importância de procurar direito. Por quanto tempo eu andei pelas calçadas, pensando, tentando encontrar motivos nos lugares errados, agindo da forma errada? Olha onde parei. No lugar mais improvável.

Não sabia, sinceramente, que o filme se tratava de uma relação homossexual e, eu que tanto trabalho essa questão, fiquei surpreso e feliz, pois no mesmo tempo que agride os mais conservadores, leva ao extremo a ideia de que você pode e deve se encontrar e, por muitas vezes, isso só acontecerá nos lugares menos óbvios possíveis.

Talvez a vida seja feita de uma simbiose com um outro, talvez a solidão só esteja presente até o momento que o seu coração esteja confortável. Talvez o confortável não seja apenas o cômodo. Talvez seja preciso perder tudo para, enfim, aproveitar o todo.

Talvez o homem seja preconceituoso demais, talvez o homem tenha crenças demais ou, simplesmente, ele aja conforme seus impulsos mais primitivos: se proteger. Afinal, o mundo – leia-se homem – não está aberto a outras formas de amor, não recebe bem a mudança, confunde isso com desvalorização, com baixaria. Será o homem cabível de julgamento?

“Teus Olhos Meus” não é um primor técnico – nem deveria -, não é um filme muito conhecido, mas faz parte daquelas raridades que primam pelo amor. Independente da forma.

É tanta reflexão, tanta verdade, que nos confunde ao tentar mensurar a grandiosidade dos seus ensinamentos. As atuações leves, naturais e, inacreditavelmente, densas dos protagonistas Gil e Otávio – interpretados por Emilio Dantas e Remo Rocha respectivamente – dão ao longa uma propriedade tamanha no que diz respeito a palavra. As frases filosóficas, existenciais ganham uma nova forma quando dito de forma tão singular.

“Vou fazer uma coisa que eu deveria fazer todos os dias[…] Tô com medo de voltar a ser quem eu sou”

Gil e Otávio trocam bastante, como forma de elogio, a palavra “especial”. Principalmente o Gil que faz isso na inocência, sem saber, de fato, a importância dela para uma pessoa com o emocional abalado como Otávio. No mesmo tempo que quando Otávio diz “seja genuíno”, parece prever o que está se passando com o seu mais recente amigo.

Gil é capaz de “engolir a parte mais triste da vida”, ele consome o meio, ele traduz a intensidade do jovem, ele, por fim, acaba representando a opção. Não havendo limite na sexualidade, pois ela é frágil perante o sentimento.

“- Como é que eu faço para te achar? 
– Isso é uma coisa que eu também tô querendo saber”

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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