Eu e Você, 2012

eu-e-voce

★★★★★

Bernardo Bertolucci dava indícios de que não voltaria a dirigir novamente, depois de um estrondoso sucesso, filmes como “O Último Imperador” e “Último Tango em Paris” parecem ser os mais aceitos pelo grande público. Por ora destaco a capacidade única do diretor em brincar com a sexualidade do homem, em prol a uma análise profunda sobre o seu desenvolvimento, enquanto inserido em uma sociedade.

Em “Os Sonhadores”, de 2003, ele provocava com o sexo, belezas puras e estonteantes de atores como Michael Pitt e Eva Green, mas usava esse delicioso artifício para compor todo um pensamento que ia de encontro com uma crítica social, unindo com diversos outros elementos, como por exemplo a metalinguagem, ao resgatar com propriedade o próprio cinema para estruturar as personalidades de suas personagens.

“Eu e Você”, que é o mais recente trabalho do diretor, baseado no romance homônimo de Niccolo Ammaniti, também é eficaz enquanto obra provocante. Bem mais singelo do que o destacado acima, ele se torna especial exatamente por esse motivo. As metáforas visuais são bem mais contidas, indo em direção ao que os personagens estão passando naquele momento. Se em “Os Sonhadores” a nudez era uma metáfora, aqui o amor e família são pontos chaves a serem desconstruídos.

Lorenzo ( Jacopo Olmi Antinori ) tem 14 anos, prestes a fazer uma viagem com a escola, ele decide no último momento em não entregar o dinheiro para a professora e fazer compras. Compra comida o suficiente para sete dias, o seu objetivo é o seguinte: se trancar no porão do seu apartamento, viver ali isoladamente, enquanto mente para sua mãe que está na viagem com a escola. Esse plano dá certo até que sua meio-irmã aparece, usuária de drogas, ela está procurando um refúgio, ou seria uma companhia?

Eu sou uma pessoa existencialista, não entendo e nunca entendi muito bem o meu propósito. Até ai tudo bem, o problema é quando você faz dessa ausência de respostas um motivo para nunca estar completo. Nada proposital, eu garanto. Por muito tempo não sabia como lidar com a obrigação de me sentir perdido constantemente, por diversas vezes me encontrei querendo estar sozinho, seguindo caminhos diferentes daqueles que a rotina grita em nossos ouvidos, mentindo para pessoas que amo, enfim, tudo motivado exatamente pela frustração de não haver um objetivo concreto, ou pelo menos não conseguir senti-lo.

Observando sobre esse aspecto, eu senti que o filme era um retrato da minha vida. Mesmo que com algumas diferenças gritantes, a sensação de precisar estar trancado foi muito semelhante na minha vida.

Lorenzo mente para ficar só, pois sabe que se não fosse para a viagem, haveria discussões, no mesmo tempo que se decidisse ir, estaria solitário do mesmo jeito. Visto que desde o começo do filme o garoto aparenta estar extremamente desconectado com os demais colegas. Temos então um personagem aparentemente sem propósito, nem mesmo sua decisão é fruto de uma maturidade. É derivado da irresponsabilidade? Talvez. Apesar de considerar muito precitado um julgamento, pois a reação que ele teve é necessária para uma auto descoberta, onde o isolamento desabrochará como uma oportunidade para um feliz e enigmático reencontro, não com uma irmã, mas com um espelho.

Se no primeiro ato temos o personagem lidando com os seus conflitos, se ajustando a sua nova fase, mesmo que ela tenha um tempo limitado para existir, na segunda somos arrebatados para um drama ainda mais profundo, não desvalorizando a primeira, pois ambas caminham de mãos dadas, mas é inevitável a comparação. Quando a Olivia aparece, há um confronto entre a ilusão e realidade. Se o filme fala sobre a necessidade do ser de criar muros em volta de si mesmo, a partir de então temos uma personagem  voyeur, que espia com uma elegância impar em cima do muro do Lorenzo, que protege o seu coração com o máximo de dedicação possível.

Os dois estão em busca de isolamento, para disfarçar uma fuga, e no caso dela é muito mais assimilável, pois está tentando sair das drogas para, enfim, viver uma vida ainda mais distante – a mesma afirma diversas vezes que deseja morar no campo. A droga, aqui, é uma metáfora, representa a vivência, o entender do meio. Enquanto o menino recusa suas oportunidades sem nem ao menos tentar, conhecendo assim pouco do mundo, Olivia é uma diplomada do vento, já viveu o suficiente para entender como as coisas são.

Percebam como a todo momento, ela age como se tentasse definir o seu irmão, é quase uma consulta. Isso ficará ainda mais ilustrado a seguir, quando ela revela que fazia trabalhos fotográficos, explica um dos ensaios e usa a seguinte explicação:

Eu sou um muro. Basicamente sou eu que me torno um muro. Eu entro no papel de parede dentro do gesso […] Praticamente eu queria me desmaterializar, você e eu se não tivéssemos mais um ponto de vista seriamos iguais, certo? Isto é, sem um ponto de vista deixaríamos de estar um contra o outro e aceitaríamos a realidade como ela é, sem julgá-la. […] Foi a droga que me deixou negativa, antes eu conseguia estar dentro dos muros.

Percebe-se, por esse diálogo, junto com a boa interpretação da atriz – há de ser destacado o trabalho da Tea Falco, bem como ressaltar a curiosidade de que ela, na vida real, também se interessa muito por fotografia – que a personagem é uma exímia observadora da vida, uma devoradora de existências, ela parece no início do filme extremamente vazia, mas era simplesmente influência da droga, quanto mais vai ficando limpa, mais percebemos a sua capacidade intelectual e, mais do que isso, sua sensibilidade. Aliado a isso, estranhamente, temos o fato de que mesmo com toda maturidade e personalidade, a mesma esteja perdida, dependendo de um outro alguém para analisar, como se precisasse do mundo para se inspirar e, assim, respirar por mais um dia.

É de uma importância tão grande, de um carinho confortável, que independente da qualidade da fotografia, que deixa a desejar em alguns momentos, nos prendemos aos pontos positivos, como metáforas visuais, ligando o personagem Lorenzo com as formigas ou até mesmo o tatu que, dentro de sua gaiola, anda em um movimento que se assemelha ao simbolo do infinito, no mesmo tempo o garoto também, em um momento de tédio, faz a mesma coisa. Ele está em um porão fechado, com somente uma janela, sozinho e sem nada para fazer, o movimento do infinito representa a interminável sensação do garoto de estar daquela maneira, mesmo que supostamente livre. O local “porão” é só um detalhe, pois tudo é um porão para ele.

O espaço sujo e apertado é, afinal, um reflexo dos dois, que são diferentes, mas exatamente iguais, se não fosse pelo ponto de vista, ou seja, experiência. Ele bebe calmante para aliviar a sensação de aprisionamento e ela para passar a dor. Os dois, de fato, são escravos da ausência de amor, crias do abandono.

Não poderia terminar de outra forma, que não destacando a cena mais importante – pessoalmente uma das mais bonitas que eu já vi a vida – onde Olivia começa a interpretar a música Ragazzo Solo, Ragazza Sola do David Bowie, olhando profundamente para o seu irmão e esse a aplaudindo, aliás, a música é tão linda e encaixa tão bem, que parece que a história foi desenvolvida a partir dela.

Minha mente decolou,
um pensamento
apenas um
Eu caminho enquanto a cidade dorme
Os olhos dela na noite
faróis brancos na noite
uma voz que fala comigo
quem será?
Diga, garoto solitário para onde vai?
por que tanta dor?
você perdeu, sem dúvida, um grande amor
mas de amores a cidade está lotada
não, garota solitária
desta vez você está errada
não perdi apenas um grande amor
ontem à noite eu perdi tudo com ela

Reparem que no exato momento que começa o trecho “Diga, garoto solitário para onde vai?”, ela puxa o seu irmão e o abraça, logo em seguida em “você perdeu, sem dúvida, um grande amor” ele, até então contido, abraça sua irmã com toda força possível. Como se quisesse dizer “sim, você entendeu tudo, mesmo que eu mesmo não entenda”.

(Visited 6 times, 1 visits today)

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

More Posts - Website

Follow Me:
TwitterFacebookGoogle PlusFlickrYouTube

Textos relacionados
  • Gustavo Brinner

    Texto perfeito.

    • Emerson Teixeira Lima

      Muito obrigado Gustavo!
      Abraço,