Meus Caros Estudos, 2010

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★★★

Doce mundo da prostituição, funciona no mundo moderno como uma escapatória de uma vida cercada de fracassos. Uma das profissões mais antigas permanece, até os dias de hoje, como um dos maiores tabus que existem. Estranho é notar que nos vendemos diariamente, inclusive com o próprio sexo. No cinema há inúmeros filmes que abordam a questão, parece haver algum tipo de fascínio por tentar desmistificar esse mundo inviolável, infelizmente são poucos os diretores que conseguem expressar algo que realmente seja relevante.

“Mes Chères Études” acompanha a vida da Laura, uma estudante de 19 anos que passa por dificuldades financeiras, principalmente em relação à universidade. Ela não está conseguindo sustentar os seus estudos e tem problemas com o seu atual relacionamento. Navegando pela internet atrás de emprego, se depara com a oportunidade de se encontrar com um desconhecido por dinheiro, é então que a protagonista adentra cada vez mais nesse mundo perigoso, no qual trará graves consequências para ela, principalmente pela sua inexperiência.

Quem interpreta a Laura é a atriz Belga Déborah François, ela é famosa por trabalhar com os irmãos Dardenne em “A Criança”, de 2005, esse que é o seu primeiro trabalho no cinema. Se em 2005 ela já provava sua capacidade fazendo uma mãe inconseqüente, em “Meus Caros Estudos” nos apresenta uma performance muito mais madura, mesmo que sua personagem seja tão perdida quanto. Comparo esse filme com “Jovem e Bela” do François Ozon, não só pelo tema ser igual, a protagonista jovem, como também pelos equívocos.

Emmanuelle Bercot, como diretora, é um talento a ser seguido, mas ainda não se revela como um grande destaque, sem dúvida fez coisas muito interessantes mas se perde no desenvolvimento. Talvez seja fruto da pouca idade. “Meus Caros Estudos” necessita de um pouco mais de ritmo, a protagonista se encontra cercada de dívidas – aliás, é uma ideia interessante as inserções que tem ao longo do filme dos números que a assolam – e a saída que encontra, no caso a prostituição, é um veículo para explorar infinitos temas, afinal a pouca idade só acarreta ainda mais problemas a ela.

O ritmo, que cito acima, não é no sentido de correria, sou um ávido fã dos filmes franceses justamente por serem silenciosos, porém a realidade, tão querida nesse cinema espetacular, dá lugar a uma série de fantasias aqui. A protagonista Laura não tem ajuda de ninguém para entrar nesse mundo catastrófico, como o próprio filme coloca, e mesmo assim ela nunca sofre uma grave conseqüência a ponto de perceber o quanto a vida é dura. Há dois ou três momentos que contrapõe essa afirmação, o primeiro quando um cliente solitário a penetra com enorme violência, outro com um senhor propõe algumas fantasias sexuais sadomasoquista. Mas são irrelevante quando temos esse mesmo senhor citado, que foi justamente o seu primeiro cliente, a tratando com enorme respeito e carinho no início.

Em outras palavras, esse mundo da venda do corpo, no filme, não é mostrado de uma forma “suja” o suficiente. A protagonista ignorante, pela idade e solidão, não encontra perigos de verdade. Parece haver uma série de eventos que a tranqüilizam, mesmo com os repetidos erros.

Para piorar a situação, tem a inserção de um namorado cafetão, ele tolera até certo ponto dividir sua mulher com outros homens, mas depois desiste. Seria engraçado se não fosse vergonhoso. O mesmo conheceu a protagonista e sabe quem ela é e o que faz, portanto essa quebra da narrativa que, imagino, deveria ser mais um elemento triste, se torna apenas mais um ponto bobo.

Enfim, “Meus Caros Estudos” é muito interessante na sua ideia e, infelizmente, fracassa em um desenvolvimento pouco corajoso e indeciso. A querida diretora Emmanuelle Bercot faz, aqui, o seu pior trabalho.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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