Ela Vai, 2013 ( Elle s’en va )

07

★★★★

Emmanuelle Bercot vem se destacando bastante em festivais mundo afora, principalmente em Cannes, esse ano ( 2015 ) o seu filme “La tête haute” foi escolhido para abrir o festival, o que causou uma certa discussão, pois geralmente a abertura é feita com um filme mais popular. Se não bastasse, ela está envolvida diretamente com outra super diretora chamada Maïwenn, juntas escreveram o roteiro de “Polissia” que inclusive ganhou o prêmio do Juri, Bercot ainda particia como atriz desse excelente filme. Elas voltaram a trabalhar juntas com “Mon roi” que também esteve em Cannes 2015. Coloco essa informação pois acho relevante prestar atenção nessas novas diretoras francesas, que vêm se destacando a cada novo trabalho.

“Ela Vai” é um road movie que acompanha a vida da Bettie, interpretada pela eterna musa Catherine Deneuve, que após saber que seu amante está lhe traindo desiste do seu dia de trabalho e parte para uma viagem sem rumo. Durante a viagem ela recebe uma ligação da sua filha, pedindo para pegar o seu neto e cuidar dele por uns dias, até o avô paterno do menino vir buscá-lo.

Existe alguns filmes de road movie da terceira idade, como “Confissões de Schmidt” e “Nebraska”, aqui temos uma nova abordagem, porém não foge do óbvio. O que acaba não tirando os méritos, pois é divertido acompanhar a indiferença da personagem principal que, tempos atrás, foi miss bretanha e poderia ter sido Miss França se não fosse um acidente de carro. Ou seja, ela sofreu perdas que interromperam o seu sonho de modelo, assim supomos, fica evidente que a sua imagem, fisicamente falando, é deveras importante para a narrativa,  não a toa a escolha da atriz, Catherine Deneuve é símbolo de beleza nas décadas de 60 e 70, mesmo que hoje em dia mantenha uma cara invejável, as rugas e a barriguinha apareceram, ou seja, o tempo chega para todo mundo. A personagem principal tem problema com o tempo, não que ela tente ser jovem, só há uma certa dificuldade em aceitar que o que não foi, não será. Ela não conseguiu seguir sua carreira de modelo, vemos ela trabalhando em um restaurante, em contraponto com sua casa onde se vê obrigada a cuidar da mãe debilitada, há muito movimento e correria, ela é uma espécie de chefe geral, tem que pensar várias coisas ao mesmo tempo, inclusive a própria administração.

Quando ela descobre que está sendo traída é como se, finalmente, tivesse chegado um momento de se dar ao luxo de ir indo, não fica muito claro, pois é de se imaginar que ela já teve diversos casos, mas não precisa ter, pois parte de uma impulsão natural de um ser humano cansado das amarras da rotina. Ela pega o seu carro, cigarro, e percorre as estradas aparentemente sem rumo e ouso dizer que nos vinte minutos iniciais não existe um objetivo mesmo, o que pode incomodar alguns. Mas depois se estabelece o vínculo familiar e o interesse se normaliza. Vale ressaltar que, no momento que personagem tem um surto e sai do nada no meio do trabalho e parte então para a sua aventura solitária, está tocando a música “This Love Affair” do Rufus Wainwright que faz jus a confusão da personagem, em trechos como: “Não sei o que estou fazendo, não sei o que estou dizendo”, “Não posso dizer que estou à caça, não que eu não goste” ou “Não posso dizer que esteja dançando valsa, não que eu não goste. Preferiria dançar valsa com você”, enfim, pessoalmente não acredito que essa atitude parta em base a outro alguém, então o “você” que a música fala poderia muito bem ser ela mesma, que está inteiramente acostumada a pensar nos problemas e não pensa nela, até mesmo sua relação complicada com a filha entra em jogo, pois acaba se afastando do que realmente a faria feliz.

Os minutos iniciais, como disse acima, são justamente a parte mais fraca do filme, que se sustenta em simbolismos fracos relacionados, acreditem, com o cigarro, em um momento ela pede cigarro para um velhinho, este o convida para sua casa e enquanto ele prepara um cigarro para ela afirma diante duas mãos trêmulas que com o tempo os dedos não são a mesma coisa. Na cena seguinte, em um bar, um jovem tenta conquistá-la e acaba a levando para cama. O divertido é que ela por ter seus sessenta anos a cada cantada que recebe morre de dar risada, mas acaba cedendo, por estar bêbada. Outra curiosidade é que no dia seguinte ele visivelmente “apaixonado” por ela fala “você deveria ser linda quando jovem”, não tem como segurar a risada, no mesmo tempo que é profundo.

O relacionamento dela com o neto é um tanto irritante, mas aos poucos vai ficando mais agradável, mesmo que as melhores cenas não o envolvam diretamente como, por exemplo, ela tirando foto com suas amigas de outras épocas, todas bonitas e elegantes, dos tempos de Miss, a fotografia está sendo tirada da mesma posição que uma feita há anos, ou seja, temos ainda essa brincadeira com a lembrança, a personagem acaba desmaiando, simbolizando a sua fraqueza diante o passado.

“Ela Vai” não apresenta nada novo, mas certamente se torna interessante por conta da Catherine Deneuve que desenvolve sua personagem com uma classe irreparável, mesmo diante a um declínio emocional. A sua falta de delicadeza é preenchida com um carisma natural da atriz que tanto aprendemos a amar enquanto moça e, hoje, é uma senhora extremamente linda, afinal, algumas coisas não mudam.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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