Cavalos e Homens, 2013

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★★★★

A julgar pelo pôster percebemos que “Cavalos e Homens” não é um filme normal. E foi justamente esse motivo que me despertou a curiosidade, dois cavalos cruzando e, inesperadamente, um homem em cima da égua. Olhando a imagem, simplesmente, passaram diversas coisas pela minha cabeça, diversas interpretações e cheguei a conclusão de que se o filme assumisse metade da ousadia do pôster, com todos os seus simbolismos, já valeria a pena assistir. Além do mais, é de imaginar que a cena da imagem em questão seja tão boa quanto.

Me parece curioso começar escrevendo sobre um filme pelo seu pôster, uma ferramenta muito útil para chamar a atenção. A primeira coisa que reparei é que o homem está em cima da égua, justamente a qual será penetrada. A vulnerabilidade dele, portanto, é ser, com o seu animal, a atração. Não estou aqui devaneando – aliás, esse texto será apenas uma série de reflexões, por vezes, desconectada – e colocando o macho como o manipulador, bem, pelo menos não literalmente, mas o homem está no meio do cruzamento, ele faz parte disso.

Explicando resumidamente a história, mas não fazendo disso uma necessidade, até porque a obra se preocupa muito pouco com explicações, iremos acompanhar a vida de um grupo de pessoas em um campo da Islândia através dos olhos dos cavalos que ali habitam. Na verdade essa questão não é explícita, há uma troca de valores, somente os cavalos aparecem como triunfais e belos, enquanto o ser humano é um ser vazio. Enfim, não esperem um filme normal, pois essa é uma palavra com uma relevância nula, em um projeto que evidentemente usa um simbólico animal como forma de crítica aos animais que teimam em se propagar donos do mundo.

Apesar de não cavalgar e não ter cavalo, esse belo animal, em especial, sempre me despertou muita paixão, desde criança. Poderia colocar aqui também que minha peça favorita no xadrez é justamente o cavalo. Eu até tentaria explicar com minhas próprias palavras o motivo de tanto fascínio, mas ai me pego ouvindo o disco “Cavalo” do Rodrigo Amarante e entendo tudo. Amarante, explicando o porquê do nome do disco, estrutura o pensamento de que para se ter uma cavalgada perfeita, é preciso existir uma harmonia, quase uma simbiose, entre o cavalo e o cavalheiro. No mesmo tempo que tem essa ideia da nobreza, o cavalo é um prisioneiro, aliás, no xadrez ele faz parte das peças nobres. É aquele que dá o movimento, que defronta e se supera, pula as outras peças.

Se voltarmos ao questionamento sobre o pôster, veremos que entre dois cavalos, um preto e outro branco, existe um homem. Possesso de raiva por não ter o controle, por não domar. Mas será que ali existe uma conexão, compaixão e, acima de tudo, respeito? Os admiradores de cavalos possivelmente concordariam comigo que, em uma perfeita cavalgada, não existe manipulação, é mais uma questão de acompanhamento.

Dito isso, “Cavalos e Homens”, filme da Islândia dirigido pelo Benedikt Erlingsson que é mais conhecido pelos seus trabalhos como ator, é o melhor filme de cavalos que eu já vi e fatalmente estou incluindo a animação “Spirit: O Corcel Indomável” nessa seleta lista. O fato é que os realizadores conseguiram, com propriedade, inverter os papeis, o filme é tão estranho que o clima sugere a pergunta: “e se os cavalos trocassem de lugar com os humanos?”, o irracional que toma conta de todas as cenas, parte do ser humano, pois os cavalos soam sempre como observadores, vítimas de uma ignorância sem fim e/ou interesses. Ilustrando essa proposta relativamente ambiciosa, temos uma fotografia graciosa – porém muito beneficiada pela paisagem da Islândia, que é sublime – e um bom uso dos sons. Parece que estamos adentrando em um novo ser distante, nos tornando…cavalos(?) É uma ironia tão grande que desde o início me fez pensar o quanto estava certo em enxergar a figura do cavalo, pessoalmente, como algo que beira o místico.

Logo na cena inicial temos um detalhe de uma égua, branca, elegante ao extremo, através do seus olhos enxergamos o seu domador, ou o cavalheiro. Já fica claro o que virá a seguir, afinal, a próxima cena é justamente a tão aguardada por aqueles que, como eu, foram fisgados pelo pôster. O cavalheiro – aqui o chamarei assim – anda com a sua égua enquanto desperta curiosidade por onde passa, as pessoas até utilizam seus binóculos para acompanhar de perto o seu trajeto, claro, por causa do belíssimo animal branco. Em dado momento ele vai sair com ela e um cavalo, preto, igualmente formidável, que estava preso se solta e vai atrás da égua para cruzar. O cavalheiro permanece em cima, como se fosse ele que estivesse sendo penetrado, inclusive o simbolismo fica claro, pois o tempo todo temos a ideia de que tanto os animais quanto os homens são a mesma coisa. Os três estão ali, um triângulo amoroso, onde a graça da natureza se sobressai entre a tentativa desenfreada de manipulação e exibição.

Mantendo a tradição de em nenhum momento ser óbvio, destaco a cena em que um velhinho parte com seus dois cavalos e um arame acaba arrebentando e batendo nos seus olhos, restando-lhe ser guiado pelos cavalos, em um ato de devoção máxima, apesar da personagem jamais esboçar alguma reação.

A cavalgada perfeita é quando você encontra no animal o seu oposto, o seu. O homem tem mania de se considerar o centro de tudo, de fato o é, mas não com exclusividade. Aqui temos uma profunda reflexão filosófica e psicológica, pois não é nada fácil aceitar que o humano é um simples coadjuvante da vida, pelo menos os mais egocêntricos poderão se incomodar um pouco. O filme peca pelo mesmo motivo que é bom, o desenvolvimento. Se por um lado é ousado em nunca se explicar, em não ter uma linha cronológica e enredo aceitável, esse é o real motivo de cair, em muitos momentos, na monotonia. A mensagem consegue ser passada nos vinte minutos iniciais, depois é preenchido com espaços superficiais que repetem a mesma analogia. No entanto, a cena mais impactante se encontra no final, quando um personagem está sozinho no meio da neve com o seu cavalo e, para se aquecer, corta a barriga do animal e se abriga lá dentro, voltando à barriga de sua mãe ou até mesmo renunciando a obrigação de ser homem e se refugiando no seu espelho, no seu ídolo. O animal racional se torna irracional e, por vezes, o contrário.

Cabe ressaltar que antes dos créditos finais temos um aviso que nenhum animal foi ferido durante a gravação e que toda a produção são – assim como é de se imaginar – adoradores de cavalos. Só existe carinho nessa obra imperdível, claro, com pitadas sublimes de humor negro.

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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