A Gangue, 2015

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★★★★★

Eu sou uma contradição ambulante, no mesmo tempo que sou adorador de música, quase um dependente químico da mesma, eu me emociono com o poder do silêncio. É muito importante falar, e eu adoro, por sinal, porém de nada adianta falar quando não se sabe ouvir e, ainda mais, não adianta buscar um equilíbrio nessa questão, se não foi aprendido a ouvir a si mesmo, o vazio, a paz. Há momentos, sozinhos, que nos deparamos com uma belíssima oportunidade de nos sentir, quem nunca falou consigo mesmo? Eu às vezes me pego discutindo comigo mesmo, literalmente. É válido ressaltar que o silêncio tem um poder catártico. Aproximando nosso interior e concentrando nossas atenções a pessoas que “deveria” ser a mais querida desse mundo: nós mesmos. Aliás, a concentração é tão fraca no quesito realidade quanto um conto de fadas, pois o mundo está uma correria, ninguém tem tempo para contemplar o vazio de não consumir.

O cinema existe, pois o silêncio existiu. O cinema mudo, bem no seu início, foi uma das grandes revoluções do século XIX, transformando a vida do homem que, sem saber ainda, poderia ver o seu reflexo em situações cotidianas e/ou irreais e hilárias, vulgo Charles Chaplin. No mesmo tempo que o cinema mudo representava uma limitação técnica – bem, não havia formas de ter, naquela época, a fala – representou, também, a possibilidades do mundo conhecer a sétima arte. Ora, imagina o trabalhão para legendar todos os filmes ou, pior, dublar, era inteiramente impossível, portanto a narrativa física possibilitou ao espectador do mundo inteiro acompanhar aquelas pessoas de modo que fosse entendida por completo, a história ou piadas eram passadas através da linguagem corporal.

O cinema se torna falado e com pessoas como Woody Allen, por exemplo, se torna tagarela. Eu amo aqueles com muitos diálogos, mas em nome da contradição eu também sou um cara feliz quando me deparo com aquelas obras da Europa que tem como artifício principal o silêncio. Bem, em 2014, as pessoas acostumadas com o padrão “filme pipoca”, com explicações a cada minuto, eis que surge na Ucrânia um filme chamado “A Gangue” que, posso aqui afirmar, revoluciona a linguagem, mesmo quando todos achavam impossível tal fato acontecer.

“A Gangue” ou “Plemya” acompanha um jovem rapaz, mudo, que vai para uma escola de mudos. Ele acaba adentrando no mundo de gangues, cometendo roubos, auxiliando na prostituição de duas garotas etc. Aliás, ele acaba se envolvendo emocionalmente – e fisicamente – com uma delas e então suas ações começam a contrariar os líderes da sua gangue, onde ele havia conquistado seu espaço e, além do mais, sua reputação. Vale lembrar ou alertar que o filme não tem um diálogo falado sequer, a não ser por sinais, ou seja, libras, todos os atores são, de fato, mudos, o espectador acompanha dois universos diferentes: do mundo com o mudo, no dia a dia já causa um estranhamento, pois nem todo mundo conhecem a sua linguagem; E, mais interessante, do mudo com o mundo que evidentemente tem suas diferenças dos demais, ou pelo menos é sujeito a esse sentimento.

Quem me acompanha sabe que aprecio/pesquiso filmes que falam sobre jovens, isso se torna ainda mais atraente quando a figura caricata dessa espécie explosiva é transformada pelo país que vive, então filmes Suecos são diferentes dos Franceses, Espanhóis dos Brasileiros e assim por diante, claro que qualquer tema se enquadra nessa questão, mas minhas pesquisas sobre o jovem, utilizando o cinema como grande impulsionador, me mostram que cada país possui o seu jovem diferente. Isso é muito interessante, pois é o primeiro Ucraniano que assisto. Deu para perceber que a violência é muito utilizada, reflexo das barbaridades que a Ucrânia está passando. Na sinopse acima, eu utilizei o termo “reputação”. Essa palavra é exaltada pelos jovens, que buscam o seu lugar ao sol, uma maneira de se enquadrar em alguns padrões, sejam eles bons ou ruins, nosso protagonista, por exemplo, começa apresentando-se como tímido e meio deslocado, porém ele vai remando com a maré, se misturando as ações outrora impensáveis. Esse submundo, do qual inclui-se a prostituição e, consecutivamente, o aborto, é envolto de muitas facilidades, atraente, eu diria, mas as consequências?

Esse assunto não é raro no cinema, no próprio Francês “Respire”, há uma relação com a entrega desenfreada, mas o modo que é colocado em cena, se revela como um grande salto, como abordei bastante, o silêncio é uma poderosa ferramenta – seja na nossa vida ou no audiovisual – mas também pode ser uma arma contra. Em mãos erradas, o filme poderia se tornar extremamente cansativo, tanto por ser em linguagens de sinais como por não ter legenda – ou seja, nós não sabemos mesmo o que eles estão dizendo… ops… sim, dizendo – mas o ótimo diretor Miroslav Slaboshpitsky é muito seguro na direção, apresentando opções eficazes quando ao posicionamento de câmera, sempre distante dos personagens, ângulos abertos, com poucos cortes. Se você, meu caro amiguinho, acha que “Birdman” ou “Boyhood” mudaram alguma coisa no cinema, espere até ver “A Gangue” que, além de trabalhar bem com o choque, apresenta um vislumbre visual e direção primorosa.

Falando do Miroslav Slaboshpitsky, um grande artista nascido em 1974, ele tem alguns curtas no currículo, eu tive a oportunidade de assistir um de 2010 chamado “Glukhota” ou “Surdez”, que ele igualmente brinca com essa linguagem. Foi bem recebido no festival de Berlim, por exemplo. Para minha felicidade, tinha assistido há algum tempo e, só depois de ver “A Gangue”, fui saber que era o mesmo diretor, é muito bom quando essas coisas acontecem, sinto-me próximo do trabalho de alguém que admiro e sei que o cara tem muito talento e, claro, muito o que mostrar, só pela ousadia merece todos os méritos. É válido dizer que ele não sabe a linguagem de sinais, então dependeu de um interprete durante todas as filmagens, imagino o trabalho disso!

O filme vai fazendo o espectador se acostumar com a ausência de algo tão comum para nós, quanto à conversa. Ele habitua-nos a uma escola silenciosa, por exemplo, algo que chega a ser um absurdo, e ele habitua-nos tanto, até mesmo com os detalhes, que vamos ficando boquiabertos quando começa a tomar um rumo grotesco, quanto ao choque. Ao estilo Gaspar Noé – para quem conhece seus filmes, irá certamente lembrar dele no final do filme – a dor é sentida de forma tão visceral que, no mesmo tempo que vamos ficando petrificados, vamos nos tornando um pouco mais mudos a cada segundo. Começa a fazer parte de nós a incapacidade de se expressar verbalmente, ou melhor, não queremos isso, basta contemplar.

Há um uso quase que abusivo do azul claro, ou azul bebê, durante muitos momentos do filme, incluindo os mais relevantes, como o famoso corredor, cuja funcionalidade representa quase que a essência do mal, para a gangue de delinquentes, passando para a cena de sexo, entre o protagonista e a menina, inclusive acabou virando o pôster do filme e, por final, o aborto da mesma garota, a parede é azul claro também. A analogia que eu fiz é: Oceano, mar, pureza. Parece algo infantil, algo que me remete a mãe, aliás, cadê a família desses jovens? Cadê a mãe do menino ou menina? Enfim, o fato da parede ser azul, significa que eles estão submersos no oceano das novas experiências e do acomodado. As profundezas do oceano, por sinal, não se propaga som. O útero da mãe tem água, talvez eles estejam no útero da maldade e libertinagem que, como dito, trará consequências. Um verdadeiro ensaio sobre reputação, banhado em um oceano de silêncio.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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