Kurt Cobain: Montage of Heck, 2015

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★★★★★

É difícil escrever sobre um documentário biográfico, como esse, pois o gosto de cada um pelo artista ou personalidade que está sendo retratado interfere bastante no que diz respeito ao cinema. Na verdade, não podemos esquecer de quem somos fãs e do motivo de gostamos de determinada pessoa. Mas também temos que ser abertos o suficiente para reconhecer belas trajetórias que nem ao menos conhecíamos.

Quando é o caso de artistas, seja música, cinema, entre outros, é um pouco diferente, pois a ansiedade fala alto. Eu estava querendo assistir esse documentário desde que soube da sua exibição em Sundance, nesse ano mesmo (2015), primeiro porque sou um grande admirador do Kurt, segundo pelo diretor, Brett Morgen que é, para quem não sabe, o realizador daquele documentário indicado ao Oscar, excelente, chamado “On the Ropes” que humaniza três figuras do boxe, esse que é um esporte que eu desconheço e não me interesso.

Temos um diretor que sabe humanizar os relatos/histórias avordando uma figura icônica, o que poderia dar errado? Bem, só vai desgostar de alguma forma, aqueles que não se interessam nem um pouco em conhecer mais sobre a vida desse ser humano, digamos, triste, que foi Kurt Cobain. Dado essa introdução, peço licença e me dedico, agora, exclusivamente a falar sobre esse homem.

Não sou como eles
Mas posso fingir
O sol se pôs
Mas tenho uma luz
O dia acabou
Mas estou me divertindo
Acho que sou Idiota
Talvez apenas feliz

Kurt Donald Cobain é um símbolo para uma transição muito estranha que ocorria nos anos 90. O mundo passou e passa por diversas transformações ao longo da história, é só sentar do lado dos nossos avós e eles nos contam infindáveis histórias de um tempo cheio de trabalho e pouco tempo para pensar na vida. Esses momentos não permitiam ao indivíduo uma auto-experimentação. Veja as drogas, por exemplo, em uma vida simples parece que há algum tempo atrás elas nem existiam, pois mesmo que louco você teria que arcar com as responsabilidades. A sociedade precisava caminhar em direção a algo, seja trabalho, família, amizades, bebidas, guerras, etc.

Os anos 70 foram importante para a massificação do sentido contrário do “em frente”. O homem se dava ao luxo de, por vezes, parar e pensar em si mesmo. Bem, como podemos imaginar, as guerras acabaram, as cidades já estavam construídas, as famílias não tão mais conservadoras. E o jovem? O jovem dessa geração, ainda que influenciado, mesmo que indiretamente, por diversos movimentos como o punk e hippie, teve filhos. Esses filhos sentiam na pele, desde crianças, a influência da liberdade, o conservadorismo, tão presente tempos atrás, se desfazia aos poucos, até porque os pais, que outrora foram filhos, não queriam ser a mesma coisa que aqueles, supostos, seres caretas, que foram os seus pais.

O casamento passou a ser visto de uma forma diferente, o amor, a adoção, ter filhos, os filhos… tudo estava diferente. O que o jovem poderia pensar, senão, na sua própria tristeza? Os jovens dos anos 90 adiante, não generalizando, sentiram na pele a dor de não fazer nada, não ter grandes problemas para pensar, para ocupar a cabeça. A falta de carinho da família, como visto no documentário, já se revelava um grande motivo para ser o que era legal: rebelde. Não quero dizer aqui que isso é errado, ou que as gerações anteriores foram melhores, muito pelo contrário, eu me enquadro nesse perfil de tristeza-melancolia-rebeldia-fracasso e, por isso, coloco do fundo do coração que o que Kurt Cobain representa para essa geração não é pouca coisa.

Eu conheci o Nirvana com mais ou menos 12 anos, minha vida já estava uma catástrofe para ouvir coisas do tipo, o grunge era coisa de menina para mim. Mas quando retornei meus olhares para essas músicas, percebi que simplesmente eu era uma consequência delas. O processo de identificação foi imediato.

Minha fonte interna favorita
Eu vou beijar suas feridas abertas
Aprecio sua preocupação
Você vai feder e queimar.
Me estupre,
Me estupre, meu amigo
Me estupre, me estupre novamente

As pessoas fingem que não são tristes, que o mundo não é uma doença. Mas será que todos simplesmente não colocamos uma máscara para ocultar? E se a essência de tudo está no vazio, se as relações só existirem para fracassarmos, para sermos superados e não escolhidos? Bem, parece coisa de idiota para você? Ok, mas o jovem hoje de 13 anos, como eu um dia já fui, está ouvindo coisas que a manipulam de tal forma, a acreditar que por ela ser “novinha” é merecedora de aplausos, recebendo, assim, falsos sorrisos, por ser uma pessoa doente e ignorante. O que Kurt fez foi ser o exemplo de alguém “foda-se”, não importa quem lhe escuta, contanto que buscasse respostas dentro do seu próprio sofrimento.

Eu  não sou a favor de suicídios, nem nada do tipo, mas acredito fielmente que o ser humano não é forte quando sorri diante das mentiras, mas sim quando consegue sorrir mesmo diante as duras verdades. Kurt não era uma pessoa triste, era uma pessoa sem motivos para existir, senão, inspirar, como todos nós. Mas para ele isso não era o suficiente.

Quando perguntado, por uma repórter, se não achava que seus fãs tinham curiosidade para o entender, através das suas músicas, ele responde com desdém que espera, mesmo, que eles tentem se entender através delas, que eles interpretem. Parece óbvio vindo de um artista, mas o grupo Nirvana cantava para, digamos, crianças.

Esse é um outro motivo de preconceitos, as crianças gostam de Nirvana. Será que as meninas que andam com a camisa da banda, sabe ao menos o que ela significou? Aliás, é preciso saber?

Eu não sou tão cercado de preconceitos, ou pelo menos tento não ser, e adoro o fato dos jovens descobrirem constantemente Nirvana, até hoje eles permanecem como o hino de uma geração fracassada, fracassada por preferir o mesmo. Kurt foi tudo, menos o mesmo, ele ao menos fez sexo.

Eu sou pior no que faço de melhor
E por essa dádiva eu me sinto abençoado
Nosso pequeno grupo sempre foi
E sempre será até o fim

Os pontos cruciais do documentário são as animações, que exprimem com os traços e fotografia, a atmosfera da mente do vocalista, refazendo-o, recontando-o, não com sua imagem e ações verdadeiras, pois essas hoje estão em um caixão. Aliás, não considero e nunca considerei Kurt como um gênio, muito pelo contrário, ele passa longe, mas a identificação é tamanha que, sim, algumas de suas músicas são geniais, pois eu sou genial, ou deveríamos todos ser.

Os momentos finais do Cobain com Courtney, em uma vida extremamente destrutiva, se torna incomodo, senti-me invadindo a privacidade de um casal, por outro lado me peguei imaginando uma série de outros casais na história da música como Sid e Nancy, quando a relação se torna um vício ou uma ponte para o vício. Engraçado é que o filme, Sid e Nancy(1986) protagonizado pelo Gary Oldman e Chloe Webb tem como atriz secundária a própria Courtney, inclusive ela estava cotada para interpretar a Nancy.

Me perguntaram uma vez, como foi que Kurt Cobain faleceu, de imediato, sem parar pra pensar, respondi: Sufocado com a sua própria popularidade. O curioso é ouvir a sua própria mãe, no documentário, falando que disse para ele, após ouvir o álbum Nevermind, que o mesmo não aguentaria o que viria a seguir. Quem aguenta, afinal?

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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