Palo Alto, 2013

★★★★★

Personagens frágeis são completamente identificáveis, pois, se não bastasse à vida cotidiana que é repleta de dúvidas, todos nós já passamos/passaremos por uma fase delicada chamada: adolescência. Esse elemento que compõe personalidades é, hoje em dia, tratado de forma banal, colocamos o jovem moderno como um vazio e sem grandes influências, o que, no meu ponto de vista, além de soar absurdamente nostálgico, prejudica bastante a vida do indivíduo que, na sua nobre inocência, se considera o dono do mundo.  A grande pergunta é: Quem olha para os jovens, então?

“Palo Alto” trata do tema com propriedade e, aqui, tento atribuir isso a influência da família Coppola, afinal o filme é o trabalho de estréia da Gia Coppola que é neta do grande Francis Ford Coppola e sobrinha da Sofia Coppola. Se pegarmos o trabalho da Sofia, veremos que a mesma tem obsessão pelo jovem, analisando cada ponto do seu vazio existencial que, sendo redundante, existe por que é preciso existir, é preciso se entender. Pessoalmente amo o trabalho da Sofia. Agora, se voltarmos ao Francis, perceberemos que o jovem sempre esteve presente no seu trabalho, poderia aqui viajar bastante e citar até mesmo o “Poderoso Chefão” de 1972, cujo protagonista Michael (Al Pacino) se vê diante de uma inesperada mudança de jornada, se desprendendo dos seus interesse para, enfim, assumir uma responsabilidade familiar. Agora, se você não viajou tanto comigo, destaco um dos seus trabalhos exclusivos sobre essa fase da vida, um tanto impulsiva e temperamental: “Vidas Sem Rumo” de 1983. Enfim, é interessante dar esse contexto pois está no sangue dessa família de artistas essa questão, falando da Gia Coppola, e as primeiras impressões sobre ela após o seu primeiro trabalho, podemos considerá-la um talento a ser explorado, sem dúvida, porém toda a parte técnica do filme, incluindo fotografia, enquadramentos, roteiro e etc, estão muito parecidos com a Sofia, o que eu pessoalmente acho interessante mas é algo a ser trabalhado, para aos poucos se desprender dessa influência direta.

“Palo Alto” se concentra em três personagens, basicamente, April (Emma Roberts), Teddy (Jack Kilmer, filho do Val Kilmer – atenção, esse menino é um talento! ) e Fred (Nat Wolff). Os dois últimos são amigos e essa amizade é muito destrutiva, principalmente para o Teddy que, sempre se mostra como um ser independente e enigmático. Fred é um maluco total, trata mal as mulheres, é impulsivo e aparentemente sofreu um abuso do seu pai. April é uma jovem linda, porém invisível, que se vê dividida entre um caso “proibido” com o seu professor de esporte Mr. B (James Franco) e Teddy.

Parece simples e o filme usa a simplicidade como um artifício interessante, visto que se desenvolve lentamente, com pequenos nuances, sem cenas épicas ou algo do tipo, não, estamos diante a jovens perdidos e, assim, nos sentimos ao longo. Entendemos, evidentemente, que estamos inseridos naquele universo distante. E isso é altamente prazeroso. É impossível não embarcar no carisma da Emma Roberts que é visualmente perfeita para o papel, dona de uma beleza natural, e Jack Kilmer que faz um tipo desconectado, rebelde, até meio punk.

A cena inicial mostra Teddy e Fred conversando sobre “reis” dentro do carro, um assunto comum em outra oportunidade, mas apresenta muito bem esses dois que tem como prioridade se mostrarem como donos dos seus respectivos mundos. A partir daí acompanhamos as festas que esses personagens vão, assuntos vazios de meninas querendo ser mais do realmente são, paixões e/ou sentimentos sendo deixados de lado pela famosa impulsão. A linha entre a experiência de vida e a causa perdida, na adolescência, é tênue. Poucos têm a oportunidade de sobressair às experiências erradas na juventude e é justamente isso que separa as pessoas na fase adulta. Essa e outra mensagem nunca aparecem explicitamente como já é de se imaginar, o que faz esse filme entrar no meu coração é justamente a falta de palavras para explicar o que, em outra oportunidade, poderia ser a porta de entrada para o monótono.

April é um caso a parte, está em contato com a sexualidade, a descoberta, todas suas amigas dão em cima do professor bonitão, mas ela se mantém receosa, como se esperasse a conquista e é justamente ai que mora o seu perigo. Inocentemente ela vai indo, com uma postura claramente virginal ela se deixa levar pela esperança de cuidado. No mesmo tempo que a sua relação com o Teddy é altamente inexplicável, como se também se baseasse nessa entrega. A cena em que ela está dentro de um armário da escola e o professor, após algumas palavras bonitas, fala “cuidado para não ficar preza nesse armário” é fruto dessa situação da personagem, enclausurada dentro de oportunidades desperdiçadas.

Uma de suas discussões ela questiona que as coisas podem acontecer sem uma razão, e é essa a sua justificativa ao longo, ir caminhando, bebendo, apaixonando, esperando, até, de fato, errar de verdade e aprender. April é a figura de inúmeras jovens de hoje em dia. O único momento que ela descarrega o que sente e chora, é quando a psicóloga lhe pergunta coisas sobre o futuro, pois essa previsão é demais para suportar, o interessante é que o espectador jamais a julga, como disse, nesse momento já estamos inseridos.

Esse é um bom representante desses filmes que centralizam essa inesperável fase como tema principal, criando laços com todos que viveram intensamente a oportunidade de errar e seguir em frente. Imagino que estamos realmente preparados quando vemos a vida do outro lado da moeda, das responsabilidades, do desprendimento da família, mesmo que eles estejam sempre por perto, é nesse momento que damos valor a paciência, ao equilíbrio… Nos tornaremos perfeitos um dia? Não. Mas certamente tentaremos cada vez mais agir com cautela. Andar na contramão como Fred o faz com propriedade, não parece ser mais necessário, aliás, essa cena é formidável, dá a entender que nem todos tem a mesma oportunidade, pois no mesmo tempo que ele grita “eu não sou o Bob”, temos Teddy seguindo sozinho por uma rua pouco movimentada, ou seja, está livre do peso da consciência, enquanto seu amigo permanece com os seus inúmeros demônios, que teimam em ficar na lembrança.

 

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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