Uma carta para o Woody Allen

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Pensando em escrever sobre Woody Allen, a única coisa que vinha na minha cabeça era que o Woody Allen jamais escreveria sobre um diretor. Sei lá, não entendi muito bem esse pensamento. Ou melhor, entendo muito bem. Woody Allen sempre foi o meu avô chato e ranzinza, aquele que tenta evitar mostrar muito sentimento, mas não se aguenta e se utiliza das letras para compor uma música. Música? Sim, adorável companheira. Pensando bem, tudo isso é fruto da letra.

Woody Allen me ensinou a escrever. Desde meus treze aninhos me assusto com o meu processo de identificação com esse neurótico, amante, mulher, escravo sexual, fofinho… Sempre digo, aliás, que era para eu ser ele, se não fosse pelo fato de ser bonito de mais e morar no Vale do Paraíba. Engraçado esse processo, como pode? como acontece? Sério, os filmes dele me tiraram da tristeza, me fizeram sorrir em momentos escuros, momentos que olhei para esses óculos enormes e me senti acolhido. Acolhido por um intelectual, totalmente diferente de mim mas, ao mesmo tempo, igual. Ele me fez adorar obsessivamente as mulheres, ao ponto de saber muito sobre e ter uma dificuldade grande em dar certo com elas. Ele me fez querer buscar aquela que nunca conheci e, quando conhecer, verei que não é exatamente a mesma pessoa. Buscar o inalcançável, buscar o nada, simplesmente estar, fingindo ser indiferente e imparcial por fora, enquanto o seu ( nosso ) coração chora por desabafo. Dar a opinião é tudo que esse senhor ( meu avô ) faz. Ele é a opinião. Ele é um homem, e mesmo que pareça simples, como é difícil o ser hoje em dia. Mais ainda, como é complicado ser você mesmo. Como é complicado se relacionar e, mais complicado ainda, é tentar transmitir para o outro o quão difícil é para você, no mais pessoal da palavra, se relacionar.

Nos relacionamos porque precisamos do outro. Precisamos nos dividir, nos imortalizar. O próprio Allen cita que “não quer se imortalizar com suas obras, e sim não morrendo”, isso vovô, a vida é muito menos complicada do que teimamos em imaginar. A vida é o que é. Nós estamos, dividimos e morremos. Voltamos nas suas citações, no qual ele afirma que sua vida mudou depois que tomou conhecimento que a vida acaba. Enfim, à partir dai, a vida se torna, sim, complicada, se torna inumerável, inquestionável e apetitosa. Allen, Woody faz da vida, que outrora fora definida como solução, uma incógnita. Somos o que somos, indecifráveis. Não para ele, o homem na sua individualidade é decifrável quando o próprio se filma, se registra, sente e deixa ser sentido. O próprio divide, não mais com Mia Farrow ou Diane Keaton, mas com Annie Hall e Hannah e, claro, com o mundo. Mundo esse pequeno demais, para um artista tão grande. Os fãs do Woody sabem muito bem que ou gostam dele, ou odeiam. E tenho dito.

Tenho costume em não gostar muito desses intelectuais do cinema, que esbanjam chatice em alguns filmes, aqueles que se tornam muito particulares, não pela personalidade exposta no trabalho, mas pelo didatismo. Na minha humilde opinião a arte não necessita de regras e, portanto, não há regras para classificar o que é arte. Arte se torna, então, o olhar de cada um. Se Abbas KIarostami despertou no nosso interior que a mentira poderia, sim, ser uma arte ( vide close-up ) podemos atribuir o ser como um artista,  e aquela que seria sua maior obra é: a sua passagem.

Inspirar também não é uma regra mas, existem pessoas que se dedicam tanto que inspiram simplesmente por existir. Digo, então, que Woody Allen já me abraçou, beijou, me xingou, abriu meus olhos, me fez rir, me criou. Te devo, caro amigo, meu olhar, pois para mim você é o maior artista que já passou pela terra. Você é, para mim, espelho do indivíduo e suas ambições/fracassos.

Foi com você que eu tive a pior noite da minha vida” – Hannah e suas irmãs

Como é bom te sentir. Como é bom poder te amar. E é com lágrimas nos olhos que te digo, caro amigo, obrigado.

Ps: Abraços sinceros de um humilde menino que te tem como exemplo, seja isso bom ou ruim, e que se apegou tanto aos seus carinhos que não sabe se é uma cópia sua ou é tudo mera coincidência. Uma coisa eu tenho certeza, você me escolheu por algum motivo e, assim vamos levando com jeitinho, mais tarde te conto uns babados que anda rolando comigo. 

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emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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