La La Land, 2016

La La Land ( Idem, EUA, 2016 ) Direção: Damien Chazelle

★★

Em 2011 foi lançado nos cinemas o sucesso “O Artista“, dirigido pelo Michel Hazanavicius, o filme foi a aposta certa ao Oscar do ano seguinte por conta de uma exaltação sobre a sua proposta de homenagear os anos maravilhosos do cinema mudo. O entusiasmo parecia se encontrar em cada canto, críticas maravilhosas faziam alusão ao filme como sendo uma ousadia narrativa, super bem interpretado e dirigido, algo que entraria para a história. O resultado é que estamos em 2017 e, justamente, poucas pessoas mencionam “O Artista“, senão, pelo fato de ter conquistado o Oscar de 2012.

“La La Land”, apesar de possuir algumas características especiais, especialmente na direção de arte e fotografia, parece caminhar na mesma direção da obra citada acima, se fortalecendo como uma homenagem pura, levando-nos a embarcar na história agridoce do casal Sebastian (Ryan Gosling) e Mia (Emma Stone). Ambos possuem o sonho de viver da arte mas precisam acostumar-se a recorrer um ao outro para manter as forças até a realização desse objetivo.

O filme se apresenta destacando a força da cidade de Los Angeles para a trama, bem como as cores vibrantes para ressaltar a magia que envolverá o casal. O fato é que ambos se veem mergulhados na obstinação e o impulso e amor à arte que possuem é colocado em prova a partir do momento que presenciam a indiferença por parte das pessoas. As cores azul, vermelho, amarelo e roxo estão muito presentes; os dois primeiros como contraste entre tristeza e energia, paixão; o visual contextualiza o psicológico das personagens além de transportá-los para um universo onírico, que dá total liberdade ao diretor Damien Chazelle trabalhar ângulos e movimentos de câmeras, inclusive nas cenas de coreografias.

A aproximação dos personagens acontece de forma orgânica, mas o desenvolvimento é frágil pois vai de desencontro com a apresentação. Como musical “La La Land” é mediano; como filme de romance é lamentável. As coreografias e canções são esquecíveis – há apenas uma canção maravilhosa e que, infelizmente, é repetida na trama diversas vezes para pontuar o encontro ou despedida – e o romance é estruturado em uma série de clichês.

A diversão é garantida, principalmente pela harmonia entre a Emma Stone e Ryan Gosling. Os dois constroem personagens adoráveis, conversam entre si com uma naturalidade imprescindível o que, por consequência, cria uma atmosfera graciosamente hipnotizante. Mas ainda é uma experiência razoável, as referências são bem interessantes mas, sozinhas, não sustentam a fragilidade do roteiro; o sentimento que fica é que seria bem melhor revisitar as obras referenciadas.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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O Que Está Por Vir, 2016

O Que Está Por Vir ( L’avenir, França, 2016 ) Direção: Mia Hansen-Løve

★★★

2016 certamente foi um ano precioso na carreira da excelente Isabelle Huppert – pessoalmente considero a melhor atriz ainda em atividade no cinema mundial – pois, pegando como exemplo dois dos seus filmes lançados no Brasil, além de um deles, “Elle”, ter uma interpretação considerada forte o suficiente para ser indicada ao Oscar – e, se a premiação for justa, sairá vencedora – tanto no já citado filme do Paul Verhoeven quanto em “O Que Está Por Vir” ela têm a oportunidade de trabalhar com personagens femininas de imagem e postura fortes, lidando com os sentimentos mais profundos com muita classe, ocultando a fraqueza com as expressões fortes e equilibradas.

Dirigido pela Mia Hansen-Løve de forma intimista, suavizando os movimentos de câmera e dando importância gigantesca ao cenário e como as personagens ocuparão o espaço, todos os elementos básicos parecem favorecer a sua protagonista, é como se a diretora percebesse o potencial reflexivo da sua trajetória e, da forma mais simplista possível, construísse um monumento ao seu redor como iniciativa de contemplação do cotidiano abalado por uma decisão egoísta que, em nenhum momento, é julgada. Essa sincronia entre a direção e o roteiro acontece pois Mia Hansen-Løve assina ambos; outro motivo claro é que a história é uma homenagem a sua mãe, uma professora de filosofia.

O filme acompanha a professora de filosofia Nathalie (Huppert) que possui como obrigação, enquanto educadora, permitir que seus alunos pensem por si, motivando reflexões sobre questões profundas, acontecimentos atuais e política sem a necessidade de uma implementação de ideias prontas – algo que fica evidente nas primeiras cenas, onde a professora se recusa a realizar um debate em sala onde os alunos, consecutivamente, esperavam ouvir a sua posição política. Sua vida, aparentemente, dialoga com a completude, inclusive financeiramente, mas a sua mãe cobra atenção por conta da avançada idade e a relação com o marido, que dura vinte e cinco anos – pode estar em processo de transformação por conta de uma possível traição.

O título e a tradução sugerem a posterioridade. O longa é inteligente ao oferecer, em seu prólogo, mensagens rápidas e profundas sobre o “depois”. Como as ondas do mar, Nathalie se depara com o percurso de entender-se só, aceitando a sua condição de caminhante em meio à diferentes princípios – ela possui um passado ativo politicamente e, no auge da idade, se sente conservadora.

Se não bastasse, a obra representa um dilema presente na vida de muitas mulheres que, influenciadas pelas ideias abomináveis da sociedade e da mídia, se veem invalidadas ao chegar na terceira idade, como se a “idade avançada” representasse somente a espera da morte, um ponto final nesse grande texto chamado vida. A morte certamente está por vir, mas nem por isso escraviza uma existência.

O movimento das ondas vão e vêm, mas durante esse movimento infinito existem diversas situações, diversos momentos a serem investigados com entrega e ousadia. A protagonista, após a separação, passa a se estudar, reinventando-se para, na posterioridade, descobrir-se sobre outra perspectiva – algo que será transmitido em planos que a diretora dá uma importância grande, no quadro, para a paisagem, como se o meio estivesse ofuscando o brilho da protagonista.

É de se notar a sensibilidade na singela construção narrativa como no final que a protagonista é filmada entre as paredes do seu quarto, da mesma forma que o marido no começo, provocando a sensação de que toda relação é positiva pois transforma, independente do tempo que se mantenha. O Que Está Por Vir é simples na composição, mas profundo na abordagem, pois não há maneiras de ignorar o quão especial é a jornada de evolução: com a mãe, um aluno e o ex-marido Nathalie interage com o passado; com os filhos e a nova gata, Pandora, ela sente o presente e assim vai se preparando para o próximo dia, onde o natal é comemorado sem um integrante importante da família, mas nem por isso perde a sua luz.

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Extremos do Prazer, 1983

Extremos do Prazer ( idem., Brasil, 1984 ) Direção: Carlos Reichenbach 

★★★★

 Carlos Reichenbach é, sem sombra de dúvidas, um dos melhores diretores e cinéfilos do nosso país, transitando por entre temas complexos, sociais, desenvolvidos sob uma perspectiva filosófica, regrado a humor, existencialismo e sexo. Em Extremos do Prazer, uma das suas histórias mais clássicas, acompanhamos a história de Luiz Antônio, um ex-professor de sociologia, que teve seus direitos de lecionar cassados durante a ditadura e, por esse motivo, teve que se exilar na Europa; se não bastasse, viu sua esposa Ruth ser morta, o que afetou drasticamente o seu psicológico, transformando-o em uma alma em busca de compreender o seu universo mental em base à ocorrências do redor.

Na volta ao Brasil, Luiz Antônio – interpretado pelo Luiz Carlos Braga – fica escondido na fazenda da sua jovem sobrinha Natércia que, eventualmente, leva alguns amigos para se divertir, beber e transar. As relações desses jovens, com direito a algumas personalidades contrastantes com os preceitos de Luiz Antônio, fazem com que ele relembre o passado, o amor e esteja cada vez mais inerte no existencialismo.

A premissa exala uma ideia profundamente triste e isso de fato se mantém durante o filme, com diversas camadas sociais, políticas e filosóficas como pano de fundo. As aparições de personagens jovens, com ideais extremos e vivacidade intacta, servem como contraponto à desesperança de Luiz, outro aspecto interessante são as suas observações sobre economia e política, sempre muito oportunas e ganham outra interpretação quando relacionado com o momento vivido pelo Brasil em 1983.

O isolamento é constante: o exílio na França, por exemplo, é discutido entre os amigos como uma forma de luxo, mas o espectador entende a situação como uma dor profunda; a fazenda é espaçosa e entretêm os visitantes, no entanto Luiz caminha pelo mesmo lugar com uma expressão amarga, como se o espaço fosse menor a cada segundo, sugando sua vida; o sexo para os outros é a prova da masculinidade e busca por prazer, enquanto para o protagonista o sexo parece ser um sofrimento ou evento de total despretensiosidade.

Como o ser humano, enquanto um ser político e social, gosta de dividir a vida em dois lados, é curioso o fortalecimento de um personagem chamado Ricardo – interpretado pelo Roberto Miranda – pois ele faz questão de colocar constantemente a sua masculinidade em uma vitrine, servindo como um obstáculo ao pensamento pouco conservador do protagonista, algo que será ainda mais explorado com o aparecimento da filha de Ricardo e um amigo, dois hippies – que são chamados pelo Ricardo de comunistas, aliás, ele não acredita nas crenças da garota só por ela ser nova, no mesmo tempo que tenta uma relação sexual com ela apenas pelas suas palavras sobre amor livre, uma perfeita contradição.

Ricardo é um personagem que traz o impacto de opiniões para o longa, além de ter participações nos diálogos mais agressivos e ignorantes que, curiosamente, ajudam a trama a conquistar uma naturalidade devastadora. Ele considera a sensibilidade e devaneio do tio como algo de “viado”, depois passa a se sentir pressionado pela posição intelectual de todos na fazenda – incluindo a sua namorada que, após uma série de opressões, converte-se ao pensamento filosófico do “tio Luiz” e se sente atraída pela sua solidão e melancolia.

Em resumo, é possível destacar a força do roteiro em criar metáforas com as singelas relações que são criadas, mesmo que em base a distância e fascínio. A essência é o pensamento padronizado e conservador sendo destruído por ideais libertários, naturalistas e hippies, mas não só isso, caminha para outras direções e critica o machismo, homofobia etc.

A frase “a gente tem que tentar a utopia a partir das relações familiares e eróticas” é um alívio para a desesperança e desconfiança, a mensagem é de que grandes mudanças políticas começam pelo indivíduo, que por consequência aproxima o homem da vida utópica, criando vínculos intelectuais através das relações. Extremos do Prazer foi feito com poucos recursos técnicos, mas se sobressai com elegância através do roteiro magistral, explorando as nuances e subvertendo as regras sociais. Luiz mergulha em um mar de existencialismo e segue os passos de um passado horroroso de totalitarismo, prisão de conhecimento e morte, momentos que serão reinterpretados por ele através da sua subliminar observação dos jovens e as suas relações afetivas conturbadas.

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O que é e como ser um crítico de cinema?

Esse artigo se propõe a levantar a discussão sobre o que é a crítica de cinema e como se tornar um crítico, contudo, conforme as divergências de opiniões, seja dos teóricos, críticos e leitores, cabe ressaltar que o texto se baseia unicamente na experiência do escritor que, durante os últimos cinco anos, escreve suas observações sobre cinema e estuda a prática.

O cinema é uma arte muito nova, sem dúvida provoca muitas desconfianças por parte do público comum que, em uma posição egoísta, pensa a sétima arte como um parque de diversões onde, o produto, só serve para preencher as suas necessidades. Na verdade, essa ideia foi implantada conforme os anos mas de nenhuma maneira diminui a importância do cinema para a construção do conhecimento, no fundo sempre haverá espaços para todas as ambições, seja a reflexão ou venda – aliás, uma depende da outra.

Portanto, pensar teoricamente o cinema ainda é visto como uma tentativa inocente, visto que a experiência cinematográfica se tornou, com o passar dos anos, uma iniciativa pluralizada. É fácil perceber a enorme quantidade de pensadores de cinema que compartilham suas opiniões todos os dias na internet, aliás, o caminho virtual dá a possibilidade para diversas pessoas que, anos antes, se viam direcionadas por outras mídias muito mais exclusivas. O importante é saber que, assim como o acesso à internet traz benefícios, o cinema como “mais uma loja dos shoppings” também; nem por isso tira a sua profundidade e potencial de catarse. O cinema precisa ser discutido e, por sorte, é uma das artes mais presentes entre as diferentes divisões sociais.

Com a rápida divulgação e aumento do número de críticos na internet, é questão de tempo para, individualmente, traçarmos uma comparação silenciosa e definir o que é crítica e o que não é, como se fosse possível um ato egoísta render alguma conclusão inteligente. Então, como início da reflexão, gostaria de deixar claro a minha história com a escrita sobre filmes e, a partir da minha experiência, resumir a opinião e responder a pergunta principal que dá o título a esse artigo.

Se pensarmos unicamente na escrita, sabemos todos que a resenha crítica possui um padrão muito bem definido. Mas qualquer trajeto que dependa da padronização me incomoda e, assim como todas as coisas da minha vida, tento rever meus métodos e tentar encaixar o meu desprendimento intrínseco com a necessidade daqueles que leem o que escrevo ou que me escutam – aliás, passei boa parte da minha vida virtual ignorando os acessos e comentários do Cronologia do Acaso, não por arrogância e sim por ignorância, pois não imaginava que alguém no mundo teria alguma vontade em sentir o cinema através da minha visão.

Comecei a escrever em 2012, em um primeiro momento era para exercitar a escrita e desabafar sozinho. O caminho mais fácil para isso era, na época, o poema. Quando ouvia uma música ou assistia algo que me tocava, rapidamente tentava cuspir sentimentos em formas de palavras que, se não estruturadas da forma que imaginava, não faziam sentido algum. Com o tempo passei a escrever sobre filmes com a mesma intensidade, cada texto era um pedaço de mim que cortava e alinhava com divisões pontuais; fazia questão de utilizar a arte como um veículo, onde preenchia com as minhas próprias experiências e sentimentos, imaginando um plano onde o audiovisual e o homem se fundissem.

Com o passar dos anos fiz questão – e faço – de buscar a teoria do cinema e, mais do que isso, vivenciá-las. Nas primeiras oportunidades que tive, escrevi e atuei em peças teatrais; implantei e organizei um projeto de cineclube na escola em que trabalhava; inclusive escrevi meu trabalho de conclusão de curso em base a esse projeto, ou seja, fazendo uma pesquisa estreita na questão dos impactos sociais, filosóficos e políticos que o cinema pode desempenhar nas salas de aula; sem contar os pequenos e importantes trabalhos com a fotografia. O que quero dizer é que sinto a crítica de cinema assim, como uma vivência na arte, como produção. Se pegarmos a história da análise artística, percebemos que os primeiros críticos sempre foram pessoas que tinham essa experiência direta com a criatividade, viviam alguma área e utilizavam-na para compor a sua perspectiva sobre determinada obra.

Não estou aqui excluindo os que não baseiam suas criações textuais nessa interação direta com a arte, mas certamente não concordo com uma crítica de cinema que não exale essa propriedade subjetiva, que seja, muito mais do que bonita e padronizada, uma desordem sentimental separada por vírgulas e ponto final. A crítica de cinema deve ser, por consequência da grandiosidade daquilo que aborda, uma produção artística que represente uma parte da alma do escritor.

Escrever é um ato religioso, exige muita concentração e coragem. A organização está no coração pois, no final do dia, as regras gramaticais são esquecidas e só sobra o conteúdo. Apesar de buscar conhecimento e tentar compreender as inúmeras regras teóricas do cinema ( leia aqui o meu texto “Como e por onde começar a estudar cinema” ) tento mesclar a técnica com a subjetividade provocada unicamente pelo tema e abordagem do longa que está sendo analisado, mas a menção técnica não pode ser um brinde exibicionista, deve ser transmitido com carinho e respeito, como conclusão, é preciso ser explicado de forma prática, principalmente ressaltando como colabora para o entendimento dos símbolos ou mensagem do filme.

Em base à muitas discussões e leituras, é questão de tempo perceber que existe diversas pessoas escrevendo sobre cinema na internet, então como saber quem é o crítico de cinema e quem não é? a resposta é simples mas, por conta da polêmica que a envolve, precisa de uma explicação: todos são críticos de cinema, pois quem dita isso é o público que segue e se interessa pelo escritor.

Há alguns que tentam criar uma divisão entre crítico de cinema e resenhista, blogueiro etc, comparando quanto determinado site ou blogue rende, seja dinheiro ou acessos. Esse talvez seja o pior erro de todos pois o conteúdo é trabalhado e pensado de forma diferente. Por exemplo: dificilmente um site de cinema ganha dinheiro apenas com críticas, no mesmo tempo que uma crítica com poucas palavras traz muito mais leitores e, mesmo que o autor queira mudar o estilo da sua escrita apenas para se adaptar ao mercado, é bem provável que a versão criada por interesses soe artificial e insuficiente – como acontece com grandes portais atualmente.

Crítico de cinema é aquele que escreve e que consegue conquistar um público. Os leitores não só o encontram como retornam e participam do processo de estudo. São os próprios leitores que indicam os espaços a serem explorados na crítica e, por esse motivo, é impossível tentar separar a crítica cinematográfica de uma “resenha no blogue”. Cada leitor compra a ideia de determinado escritor(es) e o utiliza como guia pela jornada cinematográfica.

Depois de tudo isso, gostaria de ser mais prático e deixar algumas dicas para quem está pensando em escrever sobre cinema, criar um blogue etc.

  1. Faça. Escreva de modo livre, preocupando-se apenas com as suas referências, não com a intelectualidade, formato e vivência de outrem.
  2. Escrever de modo livre não quer dizer que você precisa parar de se inspirar em outros escritores. No entanto, no começo, sugiro que você se atenha à buscar ideias em autores que não trabalhem na área que gostaria de explorar – no caso, a crítica cinematográfica. Isso porque os primeiros anos servem como uma forma de avaliação e adaptação, entre o formato, a sua capacidade, adaptação e frequência, o que poderia sofrer um atraso com a famosa tentativa de copiar alguém consolidado para alcançar um avanço rápido.
  3. Sabe àquela fórmula padrão? começar com menção ao diretor, gênero, atores, sinopse curtinha e copiada de algum lugar mas ligeiramente modificada. Depois observações gerais e conclusão referenciando o tema central? esqueça isso. Aliás, lembre-se disso mas, durante o processo criativo, ignore. Pense exclusivamente em você e na sua experiência, jogue as palavras com a mesma velocidade e felicidade que uma criança brinca com os seus brinquedos improvisados. (já perceberam isso? uma criança têm a capacidade de pegar qualquer objeto e, mesmo que seja o mais simples possível, transforma em algo especial e grandioso. O crítico e o escritor devem se inspirar nesse gesto inerente de imaginação, muitas vezes a grandiosidade se encontra em ser de verdade).
  4. Não existe um tamanho apropriado para uma crítica de cinema – a não ser que você escreva para um jornal ou algum veículo que determine quantos caracteres ou palavras a crítica precisa ter.
  5. Estude cinema. Como? R= ache a forma que mais se adapta com o seu estilo. Se você pretende abordar a parte técnica e sustentar seus escritos em qualquer área teórica, pode fazer curso, pode pesquisar por conta própria (talvez esse artigo ajude) mas busque informação (lembre-se, jogar frases prontas sobre edição, montagem, fotografia, mise en scène, plongée etc, e não explicar qual a relevância para a trama, é a mesma coisa que discordar e não apresentar um argumento, para muitos não é suficiente). Agora, se não te interessa a teoria, então se atenha exclusivamente a assistir muitos filmes. Em uma crítica de cinema fica evidente se a pessoa possui uma bagagem cinematográfica pois cada palavra revela o olhar do escritor e esse olhar se transforma drasticamente mediante a quantidade de referências que ele têm.

Essas foram as minhas considerações, espero que tenha sido útil e que te motive a escrever, se esse for o seu objetivo, ou que simplesmente repense quão importante é a crítica de cinema para a divulgação da sétima arte. No fim, todos estamos colaborando com a mesma coisa, por mais que exista individualismos, só existe uma linguagem ao abordar o cinema: paixão.

(ou assim deveria ser.)

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Mais Sombrio Que a Meia-Noite, 2014

Mais Sombrio Que a Meia-Noite ( Più buio di mezzanotte, Itália, 2014 ) Direção: Sebastiano Riso

★★★

Davide é um personagem complexo, solitário ao extremo e, por consequência, observador. Ele não se sente homem e em meio a esse sentimento de confusão se vê protegido pela mãe e maltratado pelo pai. O garoto, em um protesto imediato pela sua condição oprimida e cercada de julgamentos, foge de casa e vai pedir ajuda para a rua, abrigando-se na Villa Bellini, um parque na Catânia, que está repleta de homossexuais e transexuais, funcionando como uma nova chance para o protagonista, bem como um caminho para a compreensão do seu próprio gênero e opção sexual.

O tema certamente é comum no cinema, mas poucas vezes podemos seguir um personagem que não fora construído para servir como bandeira de algum lado. Em Mais Sombrio Que a Meia-Noite a jornada é silenciosa, muito física e cada segundo de Davide nas ruas transmite, ao mesmo tempo, as sensações de liberdade e dor. O desprendimento não é, de nenhuma forma, exaltado como a única esperança, a própria obra é inteligente em estabelecer, como regra principal do roteiro, a imparcialidade.

Com um roteiro que flui tanto quanto o seu protagonista, percorrendo o subúrbio e sendo por ele possuído, é fácil a assimilação dos locais e personagens, no entanto a direção se perde na tentativa de criar relações fortes e passamos a assistir uma série de personagens com possibilidades reais de serem trabalhadas com mais cuidado mas que, por ingenuidade, são ignoradas. O filme dá indícios que trabalhará a pluralidade mas, em resumo, se atém apenas ao simples, como se o silêncio fosse suficiente e, nesse caso, não é.

Há aspectos positivos dessa jornada de autoavaliação, principalmente por causa da excelente atuação de Davide Capone – o nome do personagem e ator são irmãos, uma decisão que provoca uma ideia pertinente, assim como a possibilidade dos jovens se rebelarem com a vida padronizada e conservadora – que interage com um mundo libertário, mas se vê igualmente preso diante a tentativa de sobrevivência, por esse fato Davide se prostitui e caça alimentos no lixo. Há ainda intercessões de flashbacks, mostrando a vida do protagonista na sua casa, no conforto e na condição que aprendera a odiar – cabe ressaltar que nos momentos onde vemos as lembranças, o som é definitivamente mais baixo, os personagens quase sussurram, demonstrando assim o medo por parte dos controlados e manipulação por parte do agressor ( pai ).

Mesmo que a direção de Sebastiano Riso soe infantil por diversos momentos e ofusque o preenchimento da trajetória principal, a história de Davide Capone chama a atenção e consegue imprimir bons momentos, principalmente pela importância do tema a ser tratado: o jovem desesperado em meio ao suposto conforto, é direcionado à repreensão e julgamento; a partir do momento que liberta-se, torna-se fugitivo do passado e preso à experiência, com todas as suas consequências. O grito em frente ao espelho, no final do longa, projeta a ideia de que o passado sempre encontrará o protagonista, mas não se trata de perder-se e, sim, de enfrentar… mesmo que seja para fugir.

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Wiener-Dog, 2016

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Todd Solondz é um dos meus diretores favoritos. Lembro-me de ter assistido “Felicidade” e isso me incentivou a pesquisar cada vez mais o cinema independente norte-americano. Basicamente Todd Solondz me ensinou, assim como diversos outros diretores, que o cinema vai muito além quando atinge a raiz dos problemas sociais e filosóficos.

Por isso tenho um carinho muito grande com o seu trabalho extremamente realista e doloroso. Ele alcançou o auge da sua carreira ainda nos anos 90, junto com outros nomes que despontavam no circuito independente. Filmes como o já citado “Felicidade”, de 1998 e “Bem-Vindo à Casa de Bonecas”, 1995, são sempre lembrados ao discutir sobre a carreira do diretor. No entanto, é natural apontar os seus recentes trabalhos como o auge da sua maturidade, mesmo que a fama tenha diminuído drasticamente – prova disso é que a diferença de tempo do seu, até então, último filme “Dark Horse” ( 2011 ) com o recente “Wiener-Dog” ( 2016 ), grande se comparado com outros diretores – mas ainda é possível perceber que ele ainda desperta paixão por parte de alguns seguidores.

O diretor sempre teve essa necessidade de dialogar com a verdade através de um humor áspero e natural, organizando os seus personagens como uma sinfonia desastrosa, mostrando a realidade da forma mais impactante, direta e poética quanto a grosseria permite. Apesar dessa postura, é possível enxergar muito carinho por parte do realizador, como se estivesse construindo um belo castelo com pequenos blocos, cada um é um filme que, inevitavelmente, pertence a um mesmo universo.

“Felicidade”, “Histórias Proibidas”, “Palíndromos” e  “A Vida durante a Guerra”, todos eles têm em comum a narrativa que investiga uma série de personagens, através de histórias paralelas que, de algum modo, estão relacionadas. Em seu mais recente, “Wiener-Dog”, ele continua com a mesma ideia e as histórias dos personagens são exibidas através da jornada de um cachorro, no entanto uma diferença crucial é os atores que estão no projeto, grandes nomes como: Danny DeVito – que casa perfeitamente com o universo do diretor -, Ellen Burstyn, Julie Delpy, Greta Gerwig etc.

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O mundo de Solondz é todo corrompido, na verdade ele subverte o normal e apresenta um lado oposto do costumeiro, então podemos ressaltar que essa corrupção parte, na verdade, de uma ignorância. O diretor grita constantemente em seus roteiros para que nós olhemos para um outro lado, outrora não nos espantaríamos com a sua proposta, no entanto a nossa arrogância e individualidade nos tira essa possibilidade de conforto, transformando Solondz em um contestador, brinca com o choque como função principal da narrativa, sem ser pedinte e se preocupando em agredir bem devagar, preparando-nos, acolhendo-nos.

As cores vibrantes do começo atingem um azul melancólico conforme a história se desenvolve, principalmente no primeiro segmento que acompanhamos através do cachorrinho. Essa história é realmente a mais densa, por simplesmente trazer uma série de indagações através de um garoto curioso que se questiona sobre tudo, desde o livre arbítrio, passando pela domesticação e castração até culminar em reflexões sobre o papel de Deus na sociedade. O garoto sempre pergunta à sua mãe, interpretada pela maravilhosa Julie Delpy, e recebe respostas vazias, como se a mãe quisesse ausentar o seu filho da ciência. Tratando-o como idiota e privatizando-o do crescimento. Ora, não fazemos isso ao abandonar as nossas crianças nas redes sociais?

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“Cães não são humanos e não têm sentimentos”

Se na primeira história a relação com o “Wiener-Dog” é de dúvida, na segunda, quando a Greta Gerwig aparece, é de acompanhamento. E assim continua até o final, a sua função na trama é acompanhar a linha do tempo do ser humano, a sua ânsia por conhecimento, o seu carinho, busca por amor/companheirismo, a sua depressão, o medo da morte e solidão.

É impressionante a capacidade do diretor em resgatar esses temas de forma insana, repetindo músicas, diálogos, no mínimo, doidos, um verdadeiro mundaréu de significados. É válido mencionar que a última história, com a Ellen Burstyn, o  “Wiener-Dog” ganha o nome de Câncer, isolando-o de qualquer esperança ou amor, é quando a idade atrapalha por conta da desesperança. Poucas vezes, na história do cinema, a morte foi retratada de forma tão inteligente como aqui. A sequência final é maravilhosa, quando uma só personagem se depara com todas as possibilidades que poderia ter seguido, como uma forma, novamente, do diretor gritar para o mundo a sua visão pessimista, mas acima de tudo realista sobre a vida e quem o segue. Obrigado, Todd, mais uma vez, por me salvar.

Em uma faculdade de cinema, está acontecendo uma palestra com um ex-estudante que conseguiu sucesso na indústria. Alguém pergunta: “Como a faculdade de cinema te ajudou na carreira?”. Ele responde: em nada. Querem uma dica? caiam fora daqui e façam filme. Não se aprende nada na aula.

Obs: Ouçam o podcast que gravei no Masmorracast sobre a carreira do diretor Todd Solondz: http://cinemasmorra.com.br/2013/08/13/masmorra-cast-45-filmografias-todd-solondz/

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A arte e o amor contra a ambição de um dia melhor

Divinas ( Divines, França, 2016 ) Direção: Houda Benyamina

★★★★★

A palavra “divina” é muito comum, mas dificilmente encontramos, em meio à rotina, uma boa forma de aplicá-la em nossa vida. O motivo é simples: divino, em síntese, é aquilo que está acima da compreensão humana, é a aceitação do sobrenatural e reflexão sobre os limites da nossa intelectualidade.

A ironia se encontra justamente na grandiosidade do seu significado e banalização no seu uso, visto que o maior elo do ser com qualquer plano superior e místico é, sem dúvidas, o seu próprio processo de evolução. Nesse ponto podemos sempre citar os jovens que, no auge dos seus primeiros contatos com o desprendimento, se veem diante à uma floresta interminável e escura chamada “crescer”.

“Dividas”, primeiro longa-metragem da diretora Houda Benyamina, busca na palavra uma metáfora maravilhosa com o desabrochar. É o exemplo perfeito de uma obra que discute não só a ânsia de uma jovem perante um mundo de facilidades, como também a sua reação diante as infinitas vírgulas que a vida coloca em nossos caminhos – no caso do filme, a mais evidente é a arte, pois a protagonista se apaixona por um dançarino que a faz repensar sua vida no crime.

A história começa e fica visível a narrativa realista, o uso inteligente da câmera que, através dos seus movimentos, transmite um estilo que beira o documental, tornando a realidade uma essência para o desenvolvimento. Se não bastasse, elementos técnicos como a baixa profundidade de campo em momentos cruciais, isola a protagonista do mundo que vive, o que será trabalhado ao longo por conta da ambição da garota em crescer financeiramente e se diferenciar, nem que para isso precise roubar ou vender drogas.

A personagem principal, Dounia – interpretada brilhantemente pela promissora Oulaya Amamra que também fez o curta-metagem “Belle Gueule” – é dotada de carisma, força e espontaneidade, junto com a sua amiga Maimouna ( Déborah Lukumuena ) batalha inconscientemente para fugir do seu lugar, para criar um futuro diferente da decadente mãe e, por fim, para ter sucesso.

O gueto que ela mora apresenta dois ideais completamente distintos, – algo que será ainda mais trabalhado no segundo e terceiro ato – as crianças crescem entre a religião e o crime, a vida terrestre, aquela que deveria ser divina, é desmanchada e transformada em maldição, pois o sucesso só abraça os ricos.

O contraste de mundos é refletido nas músicas que tocam ao longo, transitando entre o clássico e o hip hop, a maneira abrupta que são cortadas sugere a intromissão, como se a própria arte entrasse na casa da sua outra versão sem bater na porta. Mas essa dicotomia fica evidente com um terceiro personagem: Djigui.

Djigui é dançarino, expressa constantemente os seus sentimentos e os vivência intensamente, ele luta para conseguir um papel em um espetáculo e têm, como talismã,  Dounia, que passa a assisti-lo e contemplar a beleza dos seus movimentos. A protagonista se vê encantada com o desprendimento mais visceral que existe, a arte, e começa a questionar as suas próprias decisões, o filme passa a investigar a pergunta “o que acontece quando o amor se torna o objetivo ao invés da ambição do crescimento?”.

O amor e a arte remete, muitas vezes, a estagnação, como um “agora” que não tem pressa, um momento bom que não quer ser esquecido e assim por diante. Dounia não vive o seu presente, pelo contrário, suas ambições, estão estritamente ligados ao dinheiro, estão relacionados com o futuro – uma cena que ilustra isso é quando ela simula estar dirigindo uma Ferrari – então a obra assume uma importância gigantesca em trabalhar a arte e o amor como uma maturidade concentrada no hoje, que afasta a protagonista por conta do medo desse sentimento.

Com diálogos incríveis, “Dividas” apresenta a diferença, tanto de expectativas quanto de escolhas e suas consequências, por isso as danças são filmadas em plongée – de cima para baixo – demonstrando que Dounia se sente superior aquela expressão artística, algo que será contestado no final, onde a própria garota está jogada no tapete, ensanguentada. Aliás, os cortes rápidos no final são bem próximos à cultura de rua, ainda é inteligente em entrecortar a dança de forma que pareça se tratar de uma coreografia de hip hop – a utilização do som nesse momento assume uma importância gigantesca.

Divino é a possibilidade de enfrentar obstáculos e entregar-se as pequenas chances que temos, algo que Dounia aprende nesse processo de pegar atalhos fáceis para se alcançar o fim. Vítima de sua condição e personalidade, Houda Benyamina coloca muita esperança em sua obra para, depois, fragmentar suas personagens, como um alerta, como um documentário que investiga fatos; a menina que tanto sonhou com futuro, aprende que o hoje é o melhor dia para ser vivido.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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American Honey, 2016

Docinho da América ( American Honey, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Andrea Arnold

★★★★

Star – cujo nome é bem sugestivo – é uma garota que, após um convite, se sente tentada a sair viajando pelos Estados Unidos com um grupo de jovens em uma van, todos eles vendem revistas de casa em casa e, nas horas vagas, fazem sexo, bagunçam e usam drogas.

Esse é o típico filme que provoca o espectador desde o início, não se baseia em um formato comum, possui uma narrativa contemplativa e a longa duração é mais uma prova que a diretora Andrea Arnold não está afim de criar algo padronizado. Nem todos os minutos são bem utilizados, chega um momento que fica repetitivo, mas ainda assim é uma experiência singular acompanhar esse grupo de jovens, tão diferentes entre si mas que, dentro das suas esquisitices, se complementam ou se satisfazem.

Filmes como esse provam que a partir de um road movie é possível extrair uma extrema naturalidade, fazendo a sétima arte parecer simples e muito próxima. A cada olhar empolgado pelos vidros da van, um sorriso no rosto do espectador e indiferença ao mesmo tempo, abraçamos o entusiasmo e felicidade do grupo, no entanto algumas atitudes são tão subversivas e imaturas que somos obrigados a questionar. Mas essa com certeza era a intenção, provocar o senso de voyeurismo e fazer estar dentro do grupo e distante, em um vai e vem interminável, tentando encontrar a melhor forma de adaptação – assim como a protagonista que nunca parece se envolver totalmente com todos pois, como já era de se esperar, ela mora ao lado das estrelas, sua percepção é diferente dos demais.

A estreante Sasha Lane desempenha uma função primordial no desenvolvimento de sua personagem, atingindo expressões que beiram a doçura, indiferença e paixão; do outro lado temos o Shia LaBeouf que, desde que começou a levar sua carreira a sério, se entrega a todos os seus personagens, vivenciando cada diálogo como se fosse o último.

A diferença do grupo se torna pequena perto do que todos possuem em comum: a ânsia por serem enxergues, por isso cada diálogo soa como uma tentativa desesperada de ser essência para alguma piada ou observação. É provável que aja muitos preconceitos por jovens assim, afim de curtir a vida sem freios, mas não seria o próprio jovem um desequilíbrio ambulante? – essa questão pode ser exemplificada em uma cena que Jake ( Shia LaBeouf ) e Star entram na primeira casa para vender revistas e a filha da moça que os atendera, menor de idade, dança e tenta conquistar Jake. A vida padronizada americana se desestrutura nesse momento, pois a moça manda os jovens saírem da sua casa e recebe em troca a frase “acho que o demônio tomou conta da sua filha“, ou seja, a perversão está escondida nas artificialidades de cada família.

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Imagens fragmentadas como atalho para a ilusória perfeição

Cisne Negro ( Black Swan, Estados Unidos, 2010 ) Direção: Darren Aronofsky

★★★★★

Parte 1 – Versões contraditórias de uma mesma face

A arte é o desprendimento do ser em troca de diálogos com outras versões dele mesmo. É impossível pensar na expressão como uma manipulação terrena, a produção e entrega artística está vinculada inteiramente com o místico, outros planos e universos onde o humano torna-se deus e, por consequência, se desmistifica a cada olhar e movimento. O olhar parte de uma necessidade impulsiva de se perder em infinitas possibilidades, reinventando as escolhas e reiniciando a existência.

O movimento do corpo exige coragem de todas as formas possíveis, inclusive as mais fortes e que mais consomem são as que se distanciam, por ironia, da exibição: evidentemente, ficar em frente à uma plateia que espera sempre um espetáculo é uma experiência aterradora, mas nada se compara com a busca por compreender cada detalhe e mesclá-lo com os segundos, como se o ato performático transformasse o ator em um pescador de tempo, técnica e liberdade.

Nesse ponto, a problemática maior da atuação é a naturalidade e, como sabemos, o ser humano é dotado de falhas e erros, seja nas palavras, comportamento e escolhas, portanto, a arte perfeita é aquela que é toda errada e suja, despreocupada. Oras bolas, de que adianta entender todas as regras gramaticais e não ter absolutamente nenhuma inspiração para escrever? na mesma altura, do que adianta ser uma exímia bailarina e não saber amar a si?

Antonin Artaud relaciona o teatro com o caos, como um processo de loucura conjunta, de liberdade extrema e subversidade; Pina Bausch, quando dança, leva consigo toda a sua história, todos os seus passos, as ruas, pessoas e momentos. O suor nesse caso soa como sangue, pois o cansaço é de uma vida inteira, não somente as horas de um espetáculo; os movimentos são como pássaros, como árvores, como terra; e a mentira, por sua vez, se torna verdade.

Parte 2 – Os espelhos

Dado a introdução, é questão de tempo para relacionarmos a performance com a coragem de se alcançar mundos distintos – às vezes a transição acontece em questão de segundos – portanto a apresentação consome psicologicamente o artista para, depois, fazê-lo gozar. É uma relação íntima, que gira em torno da dicotomia entre o prazer e a dor do sacrifício.

Assim somos apresentados à Nina, uma personagem inocente que enfrentará o dilema de multiplicar-se. Na cena inicial ela dança suavemente e interpreta, depois desperta do sonho e se prepara para mais um dia.

É questão de tempo para percebermos a importância dos espelhos para Cisne Negro, como um objeto que representa a ideia básica de universos paralelos, como se Nina desfragmentasse sua imagem em cada cena em que se olha ou, em uma visão otimista, o espelho funciona como um caminho de incentivo ao espectador na busca por uma nova perspectiva sobre o óbvio.

A imagem acima revela dois caminhos distintos: a imagem que transparece a suposta realidade determina a posição de Nina e sua mãe, Erica. No entanto, ao olharmos o espelho, percebemos que as duas trocam de posição e, se não bastasse, o reflexo da mãe está de costa para a filha, como se não estivesse conversando com alguém ( ou seria o contrário? ).

Na dança é imprescindível o uso do espelho como uma forma de registrar os movimentos com facilidade, o próprio dançarino enxerga, repensa e repete os movimentos de forma a criar uma conexão e corrigir os erros. Agora imagine um espelho bem grande do nosso lado todos os dias da nossa vida, no ônibus, nas aulas, nos corredores, nos hospitais, nos caixões, enfim, o espelho em Cisne Negro é mostrado literalmente mas sua importância é metafórica, sugerindo uma etapa transcendental da consciência, onde a menina, mesmo que tardiamente, se desprende e caminha em rumo à sua liberdade.

Parte 3 – Há muitas cores entre o preto e branco, mas só há um cisne

Nina ultrapassa barreiras muito rápido em base ao seu talento, mas sua inocência a cega completamente em relação as reais necessidades para conseguir fazer o seu papel. Ela não precisa provar a técnica, mas sim a interpretação. Desde o começo a mensagem fica clara, mas ela ignora, atendo-se exclusivamente aos movimentos e não à entrega.

Isso é uma mensagem para a vida: quantas vezes nos pegamos centrados em algo ou alguém, enquanto o melhor encontrava-se ao lado? lembrando que “melhor”, nesse caso, diz repeito exclusivamente ao momento.

Nina precisa ser violada pela rebeldia e criar o caos dentro de si para subverter, ameaçar a si própria, dominando assim as outras versões dela mesma: a mãe, Lilly e Beth – dançarina “ultrapassada” e protagonista do Lago dos Cisnes durante muitos anos, sendo sucedida pela própria Nina.

Esse ritual de transição acontece através do sexo. Desde o momento que ela abandona sua mãe ( ela mesma ) para ir à balada com a Lilly ( aquilo que gostaria e precisa ser ) até o momento que volta para sua casa, é o desdobramento e coragem para tentar encontrar uma resposta sobre quem ela é, como enxerga e como será. As três imagens acima ilustram essa ideia de forma preciosa: percebam que, na primeira imagem, o círculo de espelhos ( vida ) traz consigo diversas versões da Nina, mas nenhuma delas ganha tanto destaque quanto a do centro. A segunda e terceira imagem são mostradas antes do embate com a mãe, a separação entre Lilly e Nina é evidente, no mesmo tempo que parece se tratar da mesma pessoa.

O sexo entre as duas, a seguir, representa o momento exato da fusão entre a técnica artística e personalidade central, com as variações da personagem que está sendo interpretada para o espetáculo – no caso o lado negro, obscuro, insano e obsceno. Nessa perspectiva, o filme Cisne Negro além de ser uma ótima obra sobre o processo de criação artística, ainda percorre caminhos obscuros da psicologia humana, opressão à mulher e, ainda mais, funciona como uma adaptação da própria peça “Lago do Cisne”. É uma obra-prima do cinema moderno, ápice de um diretor que se acostumou em provocar através da loucura e que, aqui, encontra um oásis na performance brilhante da Natalie Portman.

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Melhores filmes de 2016

2016 chegou ao fim e é realmente um motivo de orgulho termos conseguido manter o Cronologia do Acaso vivo e com conteúdo tão frequente, seja com críticas, artigos ou podcast. Já se passaram quatro anos desde o nosso início e cada vez mais o público e acessos crescem, mas a real relevância do nosso trabalho são as mensagens de carinho, essa aproximação que temos com os ouvintes e leitores.

Então, como de costume, deixo minha lista dos dez melhores filmes que assisti de 2016 ( veja os anos anteriores: aqui ). Forte abraço e feliz ano novo a todos!

Top 10 Melhores filmes de 2016:

1) Capitão Fantástico ( Captain Fantastic, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Matt Ross
2) A Criada
( Ah-ga-ssi, Coréia do Sul, 2016 ) Direção: Chan-wook Park
3) Um Cadáver Para Sobreviver
( Swiss Army Man, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Dan Kwan e Daniel Scheinert
4) A Bruxa
( The VVitch: A New-England Folktale, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Robert Eggers
5) Wiener-Dog
( Wiener-Dog, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Todd Solondz
6) Boi Neon
( Boi Neon, Brasil, 2016 ) Direção: Gabriel Mascaro
7) Demônio de Neon
( The Neon Demon, Estados Unidos, 2016 ) Direção: Nicolas Winding Refn
8) A Tartaruga Vermelha
( La tortue rouge, Holanda/Japão/Bélgica, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit
9) Sing Street
( Sing Street, Irlanda/Estados Unidos, 2016 ) Direção: John Carney
10) A Qualquer Custo
( Hell or High Water, Estados Unidos, 2016 ) Direção: David Mackenzie

Outros títulos que recomendo são: O Nascimento de Uma Nação, Divinas, O Lamento, Big Jato, The Eyes of My Mother, Kimi no Na wa, Sob As Sombras, Aquarius, Amores Urbanos, Elle, Train to Busan, Mais Fortes que Bombas e À Sombra de Uma Mulher.

 

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