Como e por onde começar a estudar cinema?

Como começar a estudar cinema

– Você estudou cinema na Universidade?
– Não, eu não estudei na Universidade. Eles que me estudaram

( Filme “Memórias”, dirigido por Woody Allen )

É sempre a mesma coisa, com o fascínio adquirido pela sétima arte, basta pouco tempo para adentrarmos nesse mundo e procurar o máximo de informações possíveis. Antes de explicar o porquê dessa postagem, seria interessante esclarecer a minha história com o cinema e como vejo e sinto o “estudo sobre cinema” nesse mundo virtual onde todos são especialistas em todas as coisas.

Posso dizer que sou amante do cinema desde cedo. Lembro-me de ter uma infância muito boa, era quieto e criava muitos mundos diferentes com o auxílio do audiovisual. Tinha poucos brinquedos, mas os poucos eram verdadeiras preciosidades e era só pegá-los que eu começava a simular os filmes que eu tinha visto no mesmo dia. Os filmes que eu mais recriei eram os principais do meu ídolo na época: Bruce Lee.

Ainda, com uns cinco anos, eu lembrava de filmes famosos do Van Damme e Sylvester Stallone e fazia uma verdadeira mistura. Então eu imagino, no auge da minha obsessão por cinema, que esses foram os primeiros indícios que eu seria filho do audiovisual, aquilo pertencia a minha alma, eu criava sobre criações.

Muitas coisas aconteceram na minha vida, que fortaleceram o lado da experiência e me distanciaram um pouco do cinema. Só quando tinha treze anos, morando em dois cômodos, que fui aprender a me posicionar diante da vida e compreendi a verdade sobre o meu vazio existencial. Assistindo “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson, eu percebi que nunca foi por acaso, a arte é o meu propósito na terra, sentir e doar-me na mesma proporção.

E, assim, dos treze anos aos dezoito eu tinha como meta assistir dez filmes por semana, no mínimo, o que daria uns quinhentos por ano. Mas eu fazia questão de diversificar bastante, foi nesse tempo que conheci basicamente tudo que se tornaria os exemplos perfeitos do real poder do cinema para mim, obras iranianas, suecas, chinesas, sul coreanas, francesas, enfim. Enquanto me perdia na vida, com todos os vícios que ela proporciona, do outro lado me apegava à arte e sentia que aos poucos era salvo.

O que quero dizer contando a minha história, é que eu fui encontrado pelo cinema. Nunca me foi imposto nada, eu simplesmente o amei mais do que tudo e depositei nele todas as minhas expectativas. Com isso, quero criar uma conexão com você, leitor, pois tenho certeza que se ama cinema, com certeza se identificou de alguma forma com o que descrevi acima. Agora tenha certeza que esse artigo é para você, vamos lá:

O que é estudar cinema?

Chaplin

Quando comecei a escrever sobre cinema, ainda no Blogspot, eu o fazia de forma completamente despretensiosa. De forma extremamente subjetiva, eu ia desabafando sobre o que eu sentia e, por muitas vezes, nem escrevia sobre o filme em questão, só sobre sentimentos.

Essa postura foi um professor para mim, pois pude compreender melhor que há uma carência por esse estilo, pois até hoje encontro gente que lê os meus textos desde aquele tempo, ou seja, criou algum tipo de identificação, pois era tudo muito visceral. No mesmo tempo, que surgia em mim a necessidade de entender cinema de forma mais teórica, até porque um ano depois eu conseguiria um emprego onde desenvolvi projetos educacionais que se misturavam com o cinema e fotografia, algo como um “cineclube educacional”.

Então, a partir da minha concepção do estudo de cinema, disponibilizarei a seguir algo como um guia, uma série de indicações para aqueles que, como eu, querem estudar cinema por conta própria, até porque sabemos que o estudo acadêmico é uma realidade distante para muitos.

Primeira Parte: Arte

Tarantino Caricatura

Se nós pegarmos a história da crítica cinematográfica, o mais interessante é justamente quando ela se mistura com a própria arte. A crítica isolada de qualquer sensibilidade é entediante, pois ela acaba desperdiçando uma oportunidade bem significativa de adentrar em um mundo de insanidades, onde o texto se transforma na própria arte.

Veja o trecho a seguir:

Ontem a noite estive no Reino das Sombras”. Se vocês pudessem imaginar a estranheza desse mundo! Um mundo sem cores, sem som. Tudo aqui – a terra, a água, e o ar, as árvores, as pessoas -, tudo é feito de um cinza monótono. Raios de sol cinzento num céu cinzento, olhos cinzentos num rosto cinzento, folhas de árvores que são cinzentos como a cinza. Não a vida, mas a sombra da vida. Não o movimento da vida, mas uma espécie de espectro mudo. Tenho de procurar me explicar aqui antes que o leitor creia que fiquei louco ou demasiado condescendente com o simbolismo. Eu estava no Café de Aumont e vi o Cinematógrafo Lumière, as fotografias animadas. Esse espetáculo cria uma impressão tão complexa que duvido que se possa descrever todas as suas nuanças. Todavia, vou tentar transmitir o essencial. Quando as luzes se apagaram na sala em que nos mostram a invenção dos irmãos Lumière, uma grande imagem cinzenta – sombra de uma gravura ruim – aparece de repente na tela; é Une rue de Paris.

Essa é considerada a primeira crítica cinematográfica da história, perceba uma diferença crucial no que diz respeito a subjetividade, o autor Maximo Gorky faz questão de descrever a sua experiência diante ao audiovisual, essa experiência por si só o coloca como um homem navegando em um oceano de emoções, essa própria experiência pode ser traduzida como arte e se sustenta sozinha. O papel da crítica é envolver, seja para o conhecimento ou sensibilidade. Agora, quem define quem é o bom crítico é o público.

Pegamos como outro exemplo a revista Cahiers du Cinéma, quem escrevia sobre cinema eram jovens como Éric Rohmer,Jacques Rivette, Jean-Luc Godard, Claude Chabrol e François Truffaut, que, sob a autoridade do maravilhoso André Bazin, revolucionaram o “pensar cinema”, inclusive todos eles virariam grandes diretores, entrando para a história e representando verdadeiras mudanças na linguagem cinematográfica.

A primeira parte dos nossos estudos é, portanto, uma extensão dessa ideia. Que é preciso ser a arte, respirar a arte e conhece-la para, posteriormente, compreender o cinema; Então indico à todos que querem começar, que volte um pouco, com calma, e pesquise sobre a história da arte.

Leia tudo o que puder, frequente cursos, converse com especialistas, enfim, construa o seu conhecimento sobre a arte e essa necessidade do homem em entregar-se ao registro. Na Arte na pré-história, por exemplo, você poderá fazer um diálogo prazeroso entre a história do desenvolvimento humano e as técnicas que ele utilizava para fazer as pinturas rupestres, mais do que isso, você irá perceber que a arte se misturava com o misticismo o que, curiosamente, sempre discuto nas críticas sobre os filmes que analiso.

Ainda na história da arte, no seu desenvolvimento, é questão de tempo compreender que as diversas culturas e crenças redefiniram o modo de pensar arte. Ainda há os problemas sociais e transformações políticas. Por isso a arte no Egito antigo, arte na idade média, arte bizantina, arte grega, arte gótica, arte renascentista e arte surrealista são de extrema importância para compreender o ser humano.

Livros que eu recomendo:

  • A História da Arte ( 1993 ) – Ernst Gombrich 
  • Tudo Sobre a Arte – Stephen Farthing
  • Arte moderna: do iluminismo aos movimentos contemporâneos – Carlo Argan
  • Isso é Arte? – Will Gomperty

Obs: Os que estão em negrito, são os que eu considero os mais importantes ou aqueles que julgo serem interessantes para começar os estudos.

Segunda parte – Teatro

Marlon Brando

Não existe um bom diretor que não compreenda o trabalho de um ator. A arte da performance dá um tom elegante ao conhecimento cinematográfico pois esse mergulho na criação, através do corpo, pequenos gestos e expressões, é a forma mais incrível de criar a partir do mais simples possível. Todos nós somos cabíveis da encenação, essa arte é intrínseca no ser, a própria mentira é uma fábrica de brincadeiras e o ator utiliza essa maldição em benefício da arte.

Dê atenção a um teórico do teatro chamado Antonin Artaud. Ele foi um sujeito subversivo que divulgou conceitos interessantes onde misturava o teatro com o caos e, ao meu ver, essa é a ideia que sintetiza a atuação.

“A tragédia em cena já não me basta. Quero transportá-la para minha vida. Eu represento totalmente a minha vida. Onde as pessoas procuram criar obras de arte, eu pretendo mostrar o meu espírito. Não concebo uma obra de arte dissociada da vida.” – Antonin Artaud

Livros que eu recomendo:

  • O Teatro e seu Duplo – Antonin Artaud
  • História mundial do teatro – Margot Berthold
  • A Preparação do Ator – Constantin Stanislavski
  • A Construção da Personagem – Constantin Stanislavski
  • Um Ator Invisível – Yoshi Oida
  • A Arte do ator – Jean Jacques Roubine

Terceira parte – Fotografia

Kubrick

Antes de começar os livros especificamente sobre cinema, seria interessante embarcar na história da fotografia e conceitos básicos dessa arte moderna do registro. Mas diferentemente dos anteriores, ainda que eu ache bem interessante a prática do teatro – eu mesmo escrevi duas peças e atuei em uma, como parte dos estudos – no estudo da fotografia o mais importante é não ficar preso somente nas leituras. Pegue a câmera que você tem e saia fotografando freneticamente tudo ao seu redor, depois sente e veja vídeos, procure em sites, assista filmes sobre fotografia, enfim, eu recomendaria também um curso de fotografia, mesmo que seja online, só para você conseguir uma direção em algumas regras básicas.

Mas hoje em dia está muito fácil a informação e existem sites que proporcionam a hospedagem de fotos, portanto, analise com cuidado as composições dos melhores fotógrafos e não se limite a eles, procure em todas fotos os pontos positivos e negativos e, após tudo isso, as suas fotografias ganharão uma nova forma, pois o seu olhar estará treinado.

Recomendação de livros:

  • Tudo Sobre Fotografia – Juliet Hacking e David Campany
  • A Mente do Fotógrafo – Michael Freeman

Filmes relacionados com fotografia:

  • Nascidos em Bordéis – Zana Briski, Ross Kauffman
  • Documentário: The Genius of Photography – David Byrne 

Fotógrafos conceituados que eu recomendo para pesquisas:

  • Henri Cartier-Bresson
  • Sebastião Salgado

Sites e Canais no youtube para aprender mais sobre fotografia:

Quarta parte: Cinema

Steven Spielberg

Chegamos, finalmente, nos estudos específicos sobre cinema. Aqui será diferente pois tem uma infinidade de assuntos e técnicas, existem diversos detalhes que compõe a linguagem cinematográfica e, ainda mais, cada autor introduz temas, às vezes o mesmo, de forma diferente, portanto é preciso ler o máximo possível e, claro, colocar em prática os ensinamentos assistindo os filmes indicados ou simplesmente analisando friamente e relacionando com a pesquisa.

Livros que recomendo sobre teoria de cinema:

  • O Que é Cinema – Jean-Claude Bernadet
  • O Discurso Cinematografico – Ismail Xavier
  • Teorias do Cinema – Andrew Tudor
  • O Cinema ( Ensaios ) – André Bazin
  • O Significante Imaginário – Christian Metz
  • O sentido do filme – Sergei Eisenstein
  • O poder do cinema – Eduardo Geada
  • Num Piscar de Olhos – Walter Murch
  • Meu Último Suspiro – Luis Bunuel
  • Estética do Filme – Jacques Aumont
  • Espelho Partido – Silvio Da-Rin
  • Compreender o cinema – Antonio Costa
  • Como Ver um Filme – Ana Maria Bahiana
  • Como Assistir um Filme – Nildo Viana
  • Como a Geração Sexo-Drogas-e-Rock’n’Roll Salvou Hollywood – Peter Biskind
  • As Teorias dos Cineastas – Jacques Aumont
  • As Principais Teorias do Cinema – J. Dudley Andrew
  • A Linguagem Secreta do Cinema – Jean-Claude Carriere
  • A Hipótese Cinema – Alain Bergala
  • A forma do filme – Sergei Eisenstein
  • A Experiencia do Cinema – Ismail Xavier
  • Fazendo Filmes – Fazendo Filmes
  • A Linguagem Cinematográfica – Marcel Martin

Roteiro:

  • Syd Field – Manual do Roteiro
  • Roteiro de Cinema e Televisao – Flavio de Campos

Cinema digital:

  • Cinema Digital – Luiz Gonzaga Assis de Luca

Som:

  • O Som e o Sentido – Jose Miguel Wisnik

 

Produção:

  • O Cinema e a Produção – Chris Rodrigues
  •  Nos Bastidores da Pixar – Bill Capodagli

 

Montagem:

Cinema e montagem – Eduardo Leone

História do cinema:

História do Cinema Mundial – Fernando Mascarello

O cinema no século – Paulo Emilio Sales Gomes

Fotografia:

Antropologia e Imagem – Andrea Barbosa

50 anos luz, câmera e ação – Edgar Moura

Cinema Nacional:

O Cinema Brasileiro Moderno – Ismail Xavier

Historiografia clássica do cinema brasileiro – Jean-Claude Bernardet

Nada disso funcionaria sem o principal: assistir muitos filmes. Estudar cinema é uma jornada sem fim, é preciso dedicar-se as pesquisas e não ficar parado apenas em um país ou uma forma de se pensar cinema.

Há muitos sites de cinema no Brasil, mas poucos que realmente é possível aprender alguma coisa. É muito fácil ficar estagnado apenas em filmes de super-heróis e se auto-intitular como especialista, é preciso sempre ir além e tratar o assunto com muita seriedade pois, sem dúvida alguma, o audiovisual é instrumento para a evolução individual.

É óbvio que é possível atingir um conhecimento extremamente elevado apenas assistindo filmes, mas esse artigo é direcionado aqueles que desejam embasamento para esse vício/amor.

Para finalizar, escolhi alguns países e selecionei três diretores de cada um. Usei critérios diversos, principalmente ligado com o meu gosto pessoal. Porém tentei sempre mesclar uns nomes recentes com os mais antigos. Sugiro que você procure a filmografia desses diretores e, após concluir os seus estudos, me diga se não enriqueceu o seu olhar cinematográfico aqui nos comentários, por e-mail, enfim.

Brasil:

  • Walter Hugo Khouri
  • Mario Peixoto
  • Eduardo Coutinho

Irã:

  • Abbas Kiarostami
  • Majid Majidi
  • Mohsen Makhmalbaf

Japão:

  • Akira Kurosawa
  • Nagisa Ōshima
  • Shunji Iwai

Coréia do Sul:

  • Kim Ki-duk
  • Park Chan-wook
  • Joon-Ho Bong

China:

  • Zhang Yimou
  • Kar Wai Wong
  • Lou Ye

Polônia:

  • Dorota Kedzierzawska
  • Jerzy Kawalerowicz
  • Krzysztof Kieślowski

Estados Unidos:

  • Paul Thomas Anderson
  • Woody Allen
  • John Cassavetes

Suécia:

  • Ingmar Bergman
  • Lukas Moodysson
  • Victor Sjöström

Itália:

  • Vittorio De Sica
  • Dario Argento
  • Lucio Fulci

Grécia:

  • Yorgos Lanthimos
  • Theo Angelopoulos
  • Michael Cacoyannis

Espanha:

  • Pedro Almodóvar
  • Luis Buñuel
  • Fernando Arrabal

França:

  • François Truffaut
  • Éric Rohmer
  • Gaspar Noé

Bônus: Podcasts e blogs para quem quer aprender mais sobre cinema:

Podcasts:

Blogs de cinema:

E, claro, recomendo fortemente o podcast e site [Cronologia do Acaso], voltado exclusivamente para o cinema alternativo!

É isso, aproveitem esse artigo e ajude com a sua opinião nos comentários. Sugere um livro? Diretor? Mande-nos e, juntos, ajudaremos muitas pessoas que querem estudar cinema por conta própria!

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Atividade Paranormal – Quando uma boa ideia se transforma em fracasso

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Desde a estréia do primeiro “Atividade Paranormal”, em 2009, ficou claro que a excelente ideia poderia render não só elogios da crítica – como houve, apesar de bem menos do que o esperado – como também ser um excelente negócio, pois se tratava de uma filmagem caseira, feita de forma super simples. Mas, apesar de ter se tornado um dos filmes mais lucrativos da história do cinema, a série de filmes que viriam a seguir, todas pautadas na mesma ideia genial do primeiro, cansaram o público. A sensação é de que nenhum deles cumpre o que promete, por que isso acontece, afinal?

Antes de mais nada, tenho que deixar claro que se você procura uma crítica, resenha ou artigo analisando todos os filmes, procure em outro lugar. Eu não seria capaz de explorar um por um pois não assisti a todos, os que eu vi foram nos respectivos anos de estréia e, principalmente, por serem todos muito parecidos, parece que assisti a um só grande e péssimo filme.

Recentemente fui assistir o quarto filme, vulgo “Atividade Paranormal 4” e me frustei com a repetição de conceitos já vistos milhões de vezes antes. Na verdade, como tenho tendências ao masoquismo – brincadeira -, já sabia que não iria valer a pena o tempo perdido. Mas lá foi o Emerson tentar compreender qual o grande erro de todos os filmes do “Atividade…”.

É preciso lembrar-me, entes, de 2009, quando recebi as primeiras notícias sobre o filme. Fiquei apaixonado pela ideia, é fascinante essa proposta de invadir a privacidade e, mais do que isso, quebrar a segurança. Quando pensamos no sobrenatural ( aqui me refiro à espíritos, aparições, demônios etc. ) é questão de tempo relacionarmos com o nosso lar. As maiorias das experiências paranormais acontecem em uma casa, não no meio da rua. Isso acontece pois somos movidos por esse instinto de proteção, o próprio medo do escuro parte de uma impulsão selvagem onde nossos ancestrais precisavam ficar extremamente atentos à noite para não serem mortos por outros predadores.

Existe também a privacidade, ela funciona como uma máscara, com ela podemos ser o que quisermos. Dentro de casa nos sentimos confortáveis, infinitos e poderosos, porém o medo, essa sensação importantíssima e complexa, teima em acreditar que existem espaços entre os mundos e que, qualquer coisa que não possa ser explicada em trinta segundos, é possivelmente uma obra do sobrenatural.

Significado de ‘sobrenatural’:

Miraculoso; só conhecido pela experiência da fé.
[Figurado] Sobre-humano; que não se consegue alcançar, atingir naturalmente: esforço sobrenatural às questões humanitárias.
[Por Extensão] Extranatural; que vai além do natural, do comum: forças sobrenaturais. [Figurado] Excessivo; exageradamente grande: trabalho sobrenatural.

Já perceberam o quanto o lençol nos protege do medo, da sensação de desprotegidos etc? Muitos irão se identificar essa pequena história: uma menina sentiu seus pés descobertos, uma sensação estranha lhe surgiu, ela rapidamente os cobriu e olhou ao redor, mas tudo estava estranhamente normal em seu quarto escuro.

Então quando eu entendi a ideia do “Atividade Paranormal” – uma pessoa sente que na sua casa está acontecendo coisas estranhas e decide se filmar durante à noite – eu me senti extremamente feliz e confiante que se trataria de um verdadeiro truque para envolver diversos dilemas e brincar com essa sensação de vulnerabilidade.

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Mas o diretor Oren Peli não faz nada! Claro, todos sabemos os recursos limitados pelo próprio formato, mas isso não o impedia de inovar. O que pode ser visto e vemos até hoje, nos novos infinitos filmes que saem todos os anos, é a mesma tentativa de assustar com detalhes triviais.

A boa ideia, que coloquei no início, faz alusão à imaginação do espectador, – já é sabido que antes do lançamento dos Atividades Paranormais a produtora faz sessões de teste para filmar as reações, essas reações quase sempre são tão exageradas que eu só consigo pensar que todos ali possuem uma imaginação tão grande e poderosa que faz com que embarquem nessa ideia de invasão e insegurança, que desenvolvi ao longo do artigo – pois essa mesma ideia jamais foi verdadeira, ela foi, desde o princípio, colocada atrás de uma tentativa desesperada de fazer um bom negócio. Atividade Paranormal, todos os filmes, é a prova real de como a arte pode ser sacrificada em prol aos inúmeros interesses.

Uma proposta interessante que se tornou monótona e cansativa, resta-nos tentar imaginar também. Mas, confesso, se alguém filmar a minha reação assistindo esses filmes, certamente iriam ficar muito zangados com a minha expressão de tédio.

Obs: Após assistir ao primeiro filme, no cinema em 2009, voltei para casa determinado a me filmar durante uma noite inteira. Infelizmente nada aconteceu. Quem sabe isso vire um filme um dia?

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CdA [ímpar] #63 – Demon, 2015

Demon 2016

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No episódio #59 do podcast [Cronologia do Acaso], voltamos ao formato [ímpar]. Emerson Teixeira comenta o filme “Demon”, uma co-produção israelense-polonesa dirigida por Marcin Wrona.

Crítica do Emerson Teixeira sobre o filme: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/06/17/demon-2016/

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Laurence Anyways, 2012

Laurence_Anyways

★★★

Essa crítica faz parte de uma maratona que eu estou fazendo do diretor Xavier Dolan. Até algum tempo, não tinha assistido nenhum dos seus filme e, para me redimir desse erro, estou fazendo sessões em ordem cronológica afim de descobrir a mente e coração desse jovem diretor. Caso queira se aventurar comigo, leia também as críticas sobre “Eu Matei Minha Mãe” e “Amores Imaginários“.

“Laurence Anyways” é o terceiro filme do Xavier Dolan, o espaço de tempo entre o segundo e o terceiro foi maior, dois anos, e a primeira coisa que é possível perceber é a necessidade do diretor em contar uma história diferente, com muito mais profundidade no que diz respeito a sexualidade. Entretanto, se por um lado o jovem foi deixado um pouco de lado nesse terceiro filme, do outro ainda estão presentes certos “vícios” do diretor, como a câmera lenta, uso de boas músicas, filmagem acompanhando o personagem pelas ruas e, principalmente, o uso de cores. 

Na história acompanhamos uma década da vida de Laurence – interpretado maravilhosamente por Melvil Poupaud – que, depois do seu aniversário de 30 anos, resolve revelar para os amigos, namorada e família que deseja se tornar uma mulher, pois se sente como tal. A partir disso será desenvolvido, através de cenas bem singelas e ritmo lento, todo o processo de aceitação e coragem para enfrentar as mudanças, no mesmo tempo que o filme trabalha o lado emocional da namorada do protagonista, Fred – interpretada pela excelente Suzanne Clément – que não consegue aceitar a situação facilmente.

O casal é apresentado com o ritmo acelerado, conhecemos pouco, no início, além da paixão descontrolada entre eles e a postura livre e despreocupada. O que é bem interessante e funciona para o entendimento da história, visto que no segundo e terceiro ato a história se arrasta demais, sendo um reflexo da própria maturidade.

Assim como ressaltei nas críticas anteriores sobre os filmes do Xavier Dolan, os objetos da casa são muito importantes para a compreensão simbólica da psicologia dos personagens, no entanto me aprofundar aqui seria me repetir, pois apesar de ter admirado essas mensagens subliminares em “Eu Matei Minha Mãe“, em “Laurence Anyways” se transforma em algo pouco inovador. Esse é um ponto fraco do terceiro trabalho de Dolan, o diretor, muito provável que seja pela idade, teima em repetir truques desnecessários.

No entanto, algo que volta a fazer muito bem é o uso das cores, se em “Amores Imaginários” o azul era uma cor crucial, nesse terceiro o vermelho assume tal importância, talvez maior. Desde as primeiras cenas o casal cita o vermelho e é possível perceber que a cor soa como uma entidade mística que envolve os dois. Percebam – aliás, é difícil não perceber – que durante boa parte do filme o cabelo da Fred – namorada do protagonista – é vermelho, ela só muda a cor quando vai se distanciando do seu amor ou de quem foi um dia.

A câmera subjetiva, utilizada com frequência desde o início, dá um tom interessante a trama, nos posicionando nas angústias do protagonista, admirando um mundo repleto de julgamentos. Não à toa o diretor faz questão, muitas vezes, de filmar os personagens em segundo plano, sempre escondidos atrás de uma parede, de forma que eles sejam “engolidos” pelo cenário. É visualmente estranho essa decisão – principalmente por conta do uso com frequência – mas remete diretamente aos sentimentos das personagens.

Se existe toda a capacidade e incapacidade do diretor, o outro lado e, talvez, o que mais me encanta no Xavier Dolan é sua capacidade de escrever roteiros tão sutis e, no mesmo tempo, impactantes. É de grande importância que exista um hino ou representante dos filmes LGBT, e o mais incrível é que Dolan ultrapassa essa barreira e desconstrói tudo para falar sempre de amor. Nem mesmo o ritmo fraco do filme tira a profundidade das suas personagens: Laurence é a representação do homem moderno, mergulhado em indecisões, ele passa a enxergar a vida de outra forma, sendo representado pela troca de identidade. No mesmo tempo que a sexualidade é importante, não é a maior importância, pois o diretor pretende analisar o homem sensível, independente de qualquer outra coisa. Um ponto importante do personagem é que ele, mesmo com a decisão de se assumir mulher, é hétero, o que gera ainda mais confusão na namorada e família, e que representa fielmente a ignorância da população em questões como gênero, identidade de gênero e orientação sexual.

A namorada, por sua vez, é a sem dúvida a personagem mais interessante, pois os impactos de toda a mudança do filme cai sobre ela, a ousadia e coragem de Laurence o isenta de melancolia, enquanto Fred, sua namorada, não está preparada para tal atitude. A menina agitada e rebelde dá lugar a uma perdida, Suzanne Clément cria uma personagem maravilhosa através de olhares, expressões corporais e protagoniza uma das cenas mais lindas que eu já vi no cinema: quando surta com a gerente de uma cafeteria, de modo a se proteger e proteger o namorado do preconceito que os atinge constantemente.

O filme é, sem dúvida, uma preciosidade para ser sentida com muita entrega, é uma verdadeira ferramenta de evolução pois aborda um tema pesadíssimo de forma sutil, quase imperceptível. A borboleta, que culturalmente representa a transformação, nunca aparece em momentos importunos, pois vivemos sempre atrás de uma outra vida e outras oportunidades. E, no final do filme, quando o cabelo de Fred já não é mais vermelho e fica claro que a moça se desprendeu do passado, ela pede licença para Laurence e entra em um banheiro com paredes vermelhas, como se fosse prisioneira de algo que viveu, prisioneira de um sentimento. Quem não é, afinal?

  • Isso é uma revolta?
  • Não, uma revolução.

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O Começo da Vida, 2016

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★★★★★

O que posso escrever sobre um documentário que trata o ser com uma sensibilidade gigantesca, dando atenção a cada pequeno momento particular como se fosse um universo inteiro de possibilidades? Aliás, as crianças do mundo inteiro parecem ter algum tipo de conexão, todas elas, sem exceção, criam com uma facilidade extrema. Um pequeno objeto ou um tecido, tudo vira uma maravilha escondida atrás do comum.

É fácil perceber que essa palavra, “comum”, é uma extensão do grande problema que é crescer e amargurar-se. Não existe o comum e, na verdade, todo processo de criação depende unicamente da entrega ao deleite do simples.

Confesso que a diretora Estela Renner não tinha chamado a minha atenção com o documentário “Muito Além do Peso”, mas devo admitir que a importância da obra é gigantesca, pois o mal da obesidade é realmente um perigo muito próximo. A diretora parece se preocupar com a criança, boa parte do seu trabalho abraça essa questão. Com “O Começo da Vida”, lançado recentemente pela Netflix, ela parece chegar ao auge do amor e carinho, registrando momentos isolados de afeto entre as famílias e das crianças com o mundo que os cercam. Ela se intromete nesse universo dos bebês, das famílias, mas nunca de um jeito negativo. Afinal, ela é criadora, portanto, criança. Não vejo uma outra explicação para tamanha simbiose com as ações.

A fotografia é clara, a luz está muito presente, como se todos ali estivessem em um paraíso. Em um mundo onde a pressa, o trabalho e a preocupação toma conta do homem, surgem pequenas e importantes vírgulas em nossas vidas. Ter um filho é uma delas. Uma adorável demonstração para a vida que somos proprietários de um dom mágico, o de ensinar.

No começo do filme senti falta da diversidade, as casas são sempre muito espaçosas, limpas e bonitas, as crianças envoltas de muita dedicação por parte da família. Mas a diretora foi inteligente em ir desconstruindo essa perfeição em doses homeopáticas. É possível ver depoimento do Brasil, Índia, enfim, algo que funciona para uma reflexão sobre as possibilidades que o governo dá para os cuidados de um novo cidadão. É questão de tempo compararmos a sociedade dos países e perceber, de imediato, o quanto o carinho, dedicação e união de uma família contribui para o desenvolvimento de um ser humano. Que perigo é essa responsabilidade de ser criado e criar, não é mesmo?

“O afeto é a fita isolante das ligações entre os neurônios, uma vez que você tenha essa ligação, vem o afeto e faz com que seja tão forte que nunca será desfeita… Mude o começo e mudará a história toda.”

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Luz de Inverno – Reflexões sobre o silêncio de Deus

Luz de Inverno

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No episódio número #62 do podcast [Cronologia do Acaso], Emerson Teixeira convidou o Marcos Ramon para uma analise sobre o filme “Luz de Inverno”, de 1963, dirigido pelo gênio sueco Ingmar Bergman. Ainda mais, discutimos sobre Deus, isolamento do homem, enfim, temas abordados com frequência em todo o trabalho do diretor.

  • Episódio do Cronologia do Acaso: Quem é Deus?
  • Entrevista onde o Emerson Teixeira responde sobre a sua posição religiosa: Link
  • E-mail: contato@cronologiadoacaso.com.br
  • Twitter: @cronodoacaso
  • Assine nosso feed: http://feeds.feedburner.com/cronoacasopod
  • Itunes: https://itunes.apple.com/br/podcast/cronologia-do-acaso/id1076

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Abbas Kiarostami – Descanse em paz mestre!

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Segunda-feira, dia 04 de julho de 2016. Estava no trabalho e voltei para casa em silêncio, não o porquê, mas nesse dia estava menos inquieto e mais reflexivo. Imaginei uma série de coisas sobre minha vida, procurei alguma explicação antes do meio-dia, mas não fui capaz de entender essa dor no meu peito.

Cheguei em casa, fui ler notícias do dia e me deparo com uma péssima: O diretor Abbas Kiarostami havia falecido. Bem, imediatamente as lágrimas escorreram e me lembrei do dia que conheci o cinema iraniano, então eu tive um motivo real para experimentar a tristeza.

Esse texto não é para contar a história do diretor ou escrever sobre algum dos seus filmes – contudo, me veio agora uma vontade monstruosa de assistir todo o seus trabalhos novamente e fazer uma análise profunda, quem sabe um dia – mas sim desabafar.

A primeira coisa que fiz, ao receber a notícia, foi imaginar quantos não conhecem o seu trabalho e nem ao menos se darão o trabalho de conhecer. Mas ainda me peguei refletindo o quanto profundo é a dor daqueles que amavam o seu cinema, pois com Abbas era assim: Quem conhecia, adorava e o compreendia como um grande poeta do audiovisual, que transformava o simples em algo mágico, simplesmente por ser a verdade.

Lembrei-me de quando era jovem, mais jovem, conheci o filme “Close-up” ( 1990 ), um verdadeiro dialeto sobre a mentira, amor e devoção à arte, sem nenhum tipo de julgamento, somente sensibilidade e necessidade emocionante em entregar-se através do cinema. Seria tolo se eu não admitisse que o cinema iraniano mudou a minha vida e a forma como enxergo o meu dia, o meu redor e eu mesmo. Abbas Kiarostami mudou o Irã com a sua arte, fez do mundo um palco pequeno e atraiu olhares, empatia e admirações pelo seu país, com os seus sofrimentos e proibições. Fez-nos amar as crianças, entender o dom da atuação como algo muito maior do que credenciais de ator e conhecer o gosto da cereja.

A vida continua Abbas, infelizmente sem você, mas o seu legado é imortal para aqueles que creem no divino, creem que a arte transforma, desde um indivíduo com seus vícios até um sistema político. Através das Oliveiras o seu ensinamento descansa e assim vou tentando ser uma cópia fiel do meu mestre. Ele que me ajudou a caminhar por entre a naturalidade de singelos sentimentos e perceber que eu só existo para compartilhar, do caso contrário serei um viajante cheio de experiências vazias e exíguas.

Não conhecer o seu trabalho é normal, quem dera eu poder assistir todos como se fosse a primeira vez, com a mesma intensidade e felicidade, mas assistir, sem se sensibilizar, é desumano.

Tenho me questionado repetidas vezes, desde criança, o motivo de tamanho amor pelo cinema, por diversas vezes me esqueço que se trata de um elemento atribuído com grande frequência, atualmente, ao entretenimento e tão somente à ele, mas sigo enfrentando essa dúvida e continuo me classificando como um amante do cinema verdade, cinema real, cinema que reflete a vida, entre outros. No fundo eu sei que a linha entre realidade e ficção é tênue, tudo é verdade, somente existe. Abbas deixou algo forte no meu coração, tão forte que por diversas vezes nem sei como usar, mas vou desmistificando essa missão e, agora, que o meu mestre se fora para um outro lugar, me resta voltar e sentir tudo novamente, me apaixonar novamente, não me sentir tão só e tentar aceitar que, onde quer que Kiarostami esteja, eu nunca esquecerei de lhe perguntar: “onde fica a casa do meu amigo?”

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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À Beira Mar, 2015

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★★

Brad Pitt e Angelina Jolie são, hoje, o casal mais famoso da indústria do cinema. Quem assiste “Sr. e Sra. Smith”, de 2005, percebe que os dois são quase entidades de tão lindos e, ainda mais, juntos ficam perfeitos. Desde então saem muitas notícias sobre separação e diversas especulações sobre eles, claro, afinal são dois dos maiores nomes de Hollywood. O que é possível perceber é o carinho que Brad Pitt tem pela Angelina e os seus filhos; juntos eles formam, também, uma família muito querida.

Angelina Jolie dirige “À Beira Mar”, de maneira bem alternativa, deixando de lado a narrativa convencional e dedicando-se exclusivamente à contemplação. Ela contracena ao lado do marido Brad Pitt e, no meio de tantos trabalhos populares e bem aceitos pelas pessoas, essa pequena obra soa como um desabafo, onde os dois atores podem ser naturais e viscerais.

A história acompanha o casal Roland e Vanessa, escritor fracassado e ex-bailarina, respectivamente, em uma viagem para uma pequena cidade da França. Roland, afim de buscar inspiração para escrever um livro, anda por entre a cidade para conhecer as pessoas e beber, enquanto a sua esposa mergulha em depressão e álcool dentro do apartamento. Os dois vivem um momento muito conturbado no casamento, onde a distância e o silêncio estão muito presentes.

Vale ressaltar que do lado do apartamento está um outro casal, em lua de mel, chamado François e Lea, eles vivem a efervescência do início de uma relação e servem como contraste ao casal protagonista. No mesmo tempo essa dicotomia ajuda-os a repensar suas atitudes e o quanto o tempo mudou a relação entre eles.

Eu não citei “Sr. e Sra. Smith” por acaso, desde 2005 Angelina e Brad não trabalhavam juntos e, aqui, eles estão bem diferentes daquela época. Não acredito que seja autobiográfico, mas é sabido o fato que a Angelina Jolie não anda muito bem ultimamente – ela está assustadoramente magra nesse filme em questão – e Brad Pitt, apesar de continuar muito bonito, agora é um senhor. Então se “À Beira Mar” fala sobre o tempo, os atores se mostram verdadeiramente e ajudam, através das suas próprias histórias, a compor essa reflexão. É impossível assistir esse filme e não se questionar sobre todas essas coisas, até porque as cenas contemplativas, com longos planos, nos permitem pensar bastante.

Apesar da Angelina Jolie tentar chamar bastante a atenção para si, com grandes enquadramentos e aproveitando bastante a paisagem da sua varanda, quem se destaca mesmo é Brad Pitt. Ele faz qualquer atuação ser fácil e aqui a sua naturalidade surpreende. Ainda mais, a obra não é construída em base à cenas memoráveis, mas uma em específico vale todas as atenções: Roland/Brad Pitt olha a sua mulher e, se emocionando, diz “você está sorrindo“.

Contudo, apesar das intenções serem as melhores, Angelina peca na direção por repetir algumas ideias, principalmente no que diz respeito ao visual, como ângulos e movimentos que sugerem ou dialogam constantemente com a melancolia. O roteiro também se torna bastante repetitivo. Ainda existe uma singela preocupação em deixar as metáforas bem claras, como por exemplo o buraco na parede que representa a fuga para um outro tempo, uma outra intensidade. Apesar dessa ideia ser interessante, o desenvolvimento exaustivo dessa metáfora cansa e, na terceira vez, chega a ser engraçado.

Com fortes inspirações em “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?“, o filme ainda peca por não desenvolver bem os jovens que moram ao lado. A sensação é de lamentação, pois o o casal é vivido pelos excelentes Melvil Poupaud e Mélanie Laurent e, infelizmente, a diretora trabalha ambos com indiferença, contrariando a sua intenção e prejudicando o resultado final.

“À Beira Mar” mais decepciona do que acerta, pertence ao grupo de filmes com ideias fantásticas, mas que fracassam na execução. Contudo, a atuação do Brad Pitt e a fotografia são os dois elementos que merecem atenção.

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Diário De Um Exorcista, 2016

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★★

Dois jovens diretores vão até a casa de um famoso exorcista, chamado padre Lucas Vidal, afim de fazer uma entrevista sobre a sua história e casos de exorcismos. Os garotos afirmam timidamente que “pretendem fazer um filme diferente“. Claro que, após essa afirmação, é possível entender os dois jovens cineastas como alter egos dos diretores Renato Siqueira e Ruben Espinoza. Um começo digno de suspense, pois a divulgação do filme é muito sustentada na ideia de que se trata de relatos verdadeiros, onde o Renato e Ruben, inclusive, chegaram a presenciar rituais de exorcismos.

O Brasil, apesar de ser um país extremamente religioso, nunca desenvolveu muitos filmes que abordam o sobrenatural, muito menos de exorcismos. Só me lembro do “Exorcismo Negro” de 1974 – que inclusive se aproveitou bastante da popularidade do “O Exorcista” – e, no que tange exorcismos, parou por ai. Claro, existem obras nacionais que incluem diversos elementos, incluindo a possessão, é o caso do curta-metragem “Amor só de Mãe”.

Fica evidente que a ousadia em se trabalhar o tema é deveras importante para o nosso cinema, é um trabalho independente que merece aplausos pela dedicação. Além do mais, toda a produção é muito bem feita, o maior problema é que a realização é maior do que o roteiro do filme.
Retomando a frase dos jovens diretores entrevistando o padre logo no início: se os realizadores levam a sério o seu trabalho, deveriam ter mais cuidado com o desenvolvimento da história. Principalmente decidindo, logo no início, entre o “terror” e o “terrir”. O terror deve ser pautado na realidade, não dá para confiar exclusivamente na frase “baseado em fatos reais”, nos créditos iniciais, como forma de provocar a empatia do espectador, é preciso lidar com a sugestão, revelar os “monstros” com calma, e aqui é feito o contrário, tem demônio possuindo alguém em espaços muito curtos de tempo. Isso acaba tirando a nossa concentração e, principalmente, a seriedade para com a experiência do filme.

“Diário De Um Exorcista” foi criado e aparentemente moldado para ser grande, e de fato é. O uso exagerado dos efeitos especiais, as diversas cenas de exorcismos, tudo poderia se encaixar em uma perfeita obra, mas isso não acontece pois os eventos não partem de uma estrutura coerente. O roteiro direciona o espectador à espera de algo novo, um desenvolvimento exclusivo no que diz respeito ao tema “exorcismos” e, em vinte minutos de filme, faz absolutamente a mesma coisa que todos os outros filmes de terror já fizeram, incluindo ângulos de câmeras, arcos dramáticos, eventos sobrenaturais etc. Então a pergunta é, novidade para quem?

Os efeitos especiais tiram a possibilidade do “acreditar”, talvez a maior função do terror. Apresenta coisas interessantes como o ritual cujo exorcista prega o possuído em uma cruz, mas em nenhum momento explora esse elemento. Aliás, nenhum elemento apresentado é explorado completamente. O suicídio do pai do protagonista, a possessão da irmã – como a irmã do padre Lucas pode estar possuída, todos saberem do fato, menos o irmão?; Como pode o padre Lucas desacreditar tanto, ao saber pela família que a sua irmã está possuída, se ele próprio foi convidado para ser um exorcista? Outra, como pode um dos maiores exorcistas de todos os tempos, pelo menos o filme trabalha com essa ideia, morrer após 10 segundo na frente do suposto “diabo”!?.

É tantos espaços soltos no roteiro que é impossível se orgulhar completamente pela ambição dos diretores, que se perdem em meio a própria tentativa de ser extremamente grandiosos. Talvez se tivessem construídos os personagens pautados na realidade, fosse bem mais atraente ao público. Os efeitos especiais, acabam irritando, nos lembrando que seria possível utilizar uma singela maquiagem, enfim, às vezes o melhor caminho é a simplicidade.

“Diário De Um Exorcista” é uma verdeira decepção, e se esse sentimento existe é porque muitos esperavam uma obra diferenciada. Com duas atuações interessantes – Renato Siqueira dá naturalidade ao seu personagem, muito carinho e demonstra com perfeição a sua fragilidade e Fabio Tomasini explora, nas poucas oportunidades que têm, algumas expressões fortes, sendo inclusive o único personagem que se salva em meio à uma catástrofe – poucos detalhes se sobressaem, se tratando apenas de mais um filme de exorcismos que cairá no esquecimento dentro de alguns anos.

Obs: Renato Siqueira, diretor do filme, mandou uma mensagem via Facebook apontando uma observação: “[…] quem fez a pesquisa não foi o Ruben Espinoza e sim Beto Perocini e Luciano Milici […]”. / Agradeço a observação Renato. Estarei acompanhando os seus próximos trabalhos.

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Rapsódia em Agosto, 1991

Rapsódia em Agosto

★★★★

Esse é o penúltimo filme dirigido pelo mestre Akira Kurosawa. Com toda a sua classe e inteligência, conduz uma história emocionante sobre uma idosa que mora em Nagasaki, no Japão, e está cuidando dos seus quatro netos, ela é uma sobrevivente da bomba atômica de 1945 e os seus netos vão, aos poucos, se interessando em descobrir um pouco mais sobre a catástrofe da segunda mundial e, consecutivamente, compreender o passado da sua avó.

O filme é delicado ao extremo, sensível e dinâmico ao apresentar o espectador, primeiramente, à rotina da avó delicada e os seus netos compreensíveis, apesar de serem jovens. Mesmo em uma cena em que eles conversam com a sua avó e desabafam o quanto a comida é ruim, existe um carinho e respeito enorme, que terá uma evolução grande ao longo do filme.

A inserção das lembranças e diálogos sobre os impactos da bomba atômica na cidade e na vida da avó são bem sutis. Alguns momentos, com a ajuda da trilha sonora, são bem emocionantes, pois se trata de um sofrimento real e um dos maiores da história mundial. A vovó Kane representa com perfeição toda a trajetória do Japão, ela mesma afirma, em dado momento, que não sente mais ódio dos Estados Unidos pelo ocorrido, ela passou a entender a guerra como uma verdadeira vilã da humanidade. Para reforçar essa posição, temos o principal mérito do filme: a atuação da Sachiko Murase. Ela é uma atriz histórica do Japão, trabalhou em inúmeros clássicos e faz, aqui, o seu último longa.

Um ponto que eu destaco negativamente do filme é a breve participação do Richard Gere. Em 1991 ele tinha acabado de fazer “Uma Linda Mulher”, a sua fama era enorme e, quando soube da possibilidade de trabalhar com Akira Kurosawa, ele chegou a afirmar que o faria de graça. Contudo o diretor não queria explorar o ator e pagou um modesto cachê. Bem, apesar dessa história curiosa, o personagem de Gere representa os EUA e ele pede perdão no terceiro ato, soando artificial e contrastando com a visceralidade e carinho desenvolvido no começo. A sutilidade dá lugar a precipitação, aliás, é bem estranho ver o galã falando em japonês.

Mesmo com esse problema, o filme consegue ser eficiente e especial em analisar as consequências da guerra, cumplicidade e amor dos irmãos e, principalmente, no desenvolvimento da protagonista. A avó Kane é forte, une muitas histórias e enfrentou muitos medos durante a vida, a cena final, revela uma senhora super debilitada, segurando um guarda chuva com dificuldade em meio à uma tempestade, demonstrando, mais uma vez, que ela fora treinada pela vida para sobreviver em meio ao caos.

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