Eu, Olga Hepnarová, 2016

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Eu, Olga Hepnarová ( Já, Olga Hepnarová, República tcheca, 2016.  ) Direção: Petr Kazda e Tomás Weinreb.

★★★★

O preto e branco do filme é a primeira coisa que desperta a atenção. Sua qualidade se mantém em perfeita sincronia com os enquadramentos e com a iluminação mas, principalmente, com o psicológico da protagonista.

Olga Hepnarová foi a última mulher sentenciada a morte na Tchecoslováquia. Em 10 de julho de 1973 ela atropelou, intencionalmente, vinte e cinco pessoas. O seu caso ainda é muito estudado no país, principalmente por causa de uma carta que a moça deixou como “testamento” das suas experiências como vítima de bullying e, consecutivamente, provando total consciência do seu ato e transformando-o em um grito de desabafo.

O filme se desenvolve lentamente, como um documentário, acompanhando o trajeto da protagonista e a sua insatisfação constante. Nesse aspecto, a atriz Michalina Olszanska realiza um trabalho primoroso, através de expressões que refletem a sua fúria. Com uma aparência delicada, suas vestes são o contraste: sempre largas, tiram a forma do seu corpo, ressaltando a sua independência e desprendimento com o padrão.

Além disso, Olga possui sempre o desejo de ser vista – uma cena que resume essa intenção é em uma festa, onde a personagem mostra os seus seios, aparentemente sem proposta alguma – mas, inteligentemente, o filme nos direciona à contestação de que ela não sabe o que fazer com a atenção que clama em silêncio. Demonstrando ser uma  mulher forte, e de fato é, existe uma série de lacunas que possibilitam ao espectador preencher com a fraqueza, desespero e depressão, isso não quebra a figura intocável da personagem, apenas a faz mais humana.

O enquadramento dá a sensação de desconforto, a protagonista dificilmente se encontra no centro da tela. Na maioria das vezes está no canto, envolvida de ar e pressionada pela rotina, bem como permanece rodeada de objetos – quadro, cadeira, mesa, garrafas vazias etc. – uma forma de tirar o foco dela, como se sua imagem ficasse borrada facilmente.

O filme é um verdadeiro estudo de personagem, através do seu silêncio, não faz julgamentos e isso é raro. Olga vive a beira de um suicídio, gosta de se sentir a dominadora da vida e das relações, algo que, inclusive, é sintetizado em uma frase no final em que é sugerido que a menina “não decide se é deus ou vítima”.

No entanto, se o cinema ensina algo, com certeza é o fato de todos sermos deuses de uma única história inacabada. Olga Hepnarová precisava ser vista e encontrou na dor alheia uma forma de provocar sensações em pessoas, ao olhar dela, anestesiadas e cegas. É sufocada pelo fato de viver e os diretores Petr Kazda e Tomáš Weinreb conseguem transmitir essa melancolia através de uma narrativa realista que, mesmo cansando na segunda metade, ainda consegue se reinventar com algumas decisões oportunas como os cortes que fluem por momentos, aparentemente, aleatórios e uma singela quebra da quarta parede.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #69 – A Tartaruga Vermelha

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Nesse episódio, Emerson Teixeira e Sandro Macena se reúnem novamente para discutir sobre o filme “A Tartaruga Vermelha”, a nova animação feita em parceria com o Studio Ghibli. Você ouvirá reflexões sobre a distância, catarse provocado pela solidão, simbologia da tartaruga, a má relação do homem moderno com o presente e muito mais.

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O homem e a busca por aceitação do seu presente

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A Tartaruga VermelhaThe Red Turtle, Holanda/Japão, 2016 ) Direção: Michael Dudok de Wit

★★★★★

A tartaruga é um animal muito complexo, exala sabedoria e conecta todos os outros seres, de uma forma ou de outra. Se pensarmos, sua carapaça traz a ideia de abrigo ou lar, suas patas sustentam esse universo, demonstrando força e segurança. Portanto, a tartaruga representa o conforto pois, simbolicamente, se trata próprio mundo. É como se fosse a representação do titã Atlas na terra, amaldiçoado/abençoado por Zeus a carregar o mundo nas costas.

Partindo desse pressuposto, é válido mencionar o poder da animação A Tartaruga Vermelha em estabelecer pontes entre o espectador e sentimentos extremamente profundos através de um visual estarrecedor e trilha sonora encantadora. Inclusive a ponte mencionada é exibida em dado momento no filme, em um sonho, onde o personagem principal – nunca é mencionado o seu nome, afinal, o longa não têm diálogos – imagina uma ponte suspensa em cima do mar que conecta a ilha que ele está enclausurado com o horizonte.

A história é básica, porém os seus desdobramentos não são nada comuns: um homem perdido em uma ilha luta para conseguir escapar, criando uma balsa. No entanto, sempre que a coloca no mar e tenta fugir – se enche de esperanças – uma tartaruga vermelha impede a sua partida, destruindo a sua balsa.

A experiência de oitenta minutos possibilita algumas reflexões impactantes no que diz respeito ao homem moderno. Percebendo as nuances do personagem principal, o Homem, cabe ressaltar os seus movimentos cautelosos afim de conhecer a ilha, o pequeno carinho com os caranguejos que o cercavam constantemente e a sua indiferença para com a natureza. Enquanto conhece a ilha, o espectador sente, através do visual espetacularmente poético, que o lugar é um paraíso natural, mas esse entendimento se esvai com o desespero do protagonista.

A fuga é sempre o motivo da existência. O homem moderno vive o hoje pensando em como suas atitudes afetarão o amanhã. Existe um desdém em relação ao que se faz, conhece e sente no presente. O trabalho e estudo são provas disso: trabalha-se para ter dinheiro no final do mês e faz o melhor para ser promovido quando só alguém, que não você, sabe; estuda para ser alguém na vida – não necessariamente alguém que você gostaria – e aprende para tirar notas; mas, afinal, e o hoje? quem somos durante esse processo de pensar o amanhã?

O Homem da animação se perde e a fuga é uma necessidade óbvia, mas a velocidade dos seus movimentos impedem o equilíbrio, a sustentação do seu universo. A pergunta deveria ser, na sua essência, voltar para onde?

A tartaruga, como explicado acima, representa a sabedoria e a natureza, trava as ambições do Homem e o acompanha em direção à catarse emocional e desprendimento, principalmente através da aceitação. Há ainda, no filme, um excelente alerta sobre a péssima postura do homem frente aos animais.

Quando o Homem mata a tartaruga – curiosamente o faz virando-a de cabeça para baixo, ou seja, invertendo o seu mundo – pula em cima dela como um sinal de superioridade, pobre rapaz, subjugando a natureza. O animal se transforma em uma mulher que, evidentemente, remete a cor vermelha e resume-se como o próprio sentimento de amor. Mas há uma segunda mensagem que está extremamente relacionada com a arrogância do homem em maltratar os animais, privando-os de sentimentos, classificando-os como acessórios.

A Tartaruga Vermelha possui uma ousadia estética e direção maravilhosa do Michael Dudok de Wit. A produção, que é feita em parceria com o Studio Ghibli, ganha bastante qualidade com esse intercâmbio, visto que o nome Ghibli está vinculado eternamente com a sensibilidade. A animação referencia as transformações do homem em direção a aceitação do seu presente, mesmo que a força para enfrentar o dia seguinte seja construída através da ilusão, existe um milagre em estar vivo e, principalmente, em sincronia com o meio.

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O amor entre um jovem e um idoso

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Gerontophilia ( Gerontophilia, Canadá, 2013. ) Direção: Bruce La Bruce

Gerontofilia é uma parafilia onde uma pessoa sente atração por pessoas idosas. O fato de um filme abordar um tabu exige muito mais do seu roteiro e direção do que outros. Isso porque a obra passa a andar na corda bamba, pois o tema pode facilmente tirar o foco principal que, na maioria das vezes, é discutir os sentimentos individuais de uma pessoa, de forma imparcial, com a obrigatoriedade de registrar as diversas formas de desejo, amores ou doenças.

Gerontophilia, filme dirigido com muita fragilidade pelo Xavier D… digo Bruce La Bruce, prepara uma série de temas, seduz o espectador e, por fim, entrega apenas um relacionamento infantil entre um jovem e um idoso, como se apenas a diferença fosse provocar a identificação e curiosidade. Em resumo, a obra oferece a mesma coisa de diversos filmes de relacionamentos, inclusive deixando-se levar por contradições, por exemplo: insere uma personagem chamada Desiree ( namorada do protagonista ) que aprecia personagens feministas – inclusive a sua lista pessoal de influências é bem pobre –  e o diretor acaba não explicando o porquê da sua presença e personalidade na trama; apresenta o idoso em um hospital, extremamente fragilizado, rabugento e, logo em seguida, ele está seminu com o protagonista em sua cama; sem contar a artificialidade desse senhor de 82 anos que, quando sai do hospital, parece conquistar os mesmos dotes do Don Juan DeMarco e começa a atrair todos os jovens ao seu redor.

Existe a pretensão óbvia de discutir a transgressão de imagem, é sabido que os idosos se sentem pouco atraentes e ultrapassados, a sociedade impõe esse pensamento excluindo a terceira idade do padrão de beleza, no entanto, quando o filme começa a discutir esse tema é decepcionante.

O tema de um filme, por mais insano e polêmico que seja, não salva a obra apenas com a sua presença, é preciso consciência, coerência e boas performances para transmitir ideias diferentes, caso contrário, infelizmente, acaba prejudicando o assunto que, em outra oportunidade, poderia ter sido bem trabalhada.

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Os senhores que se confundem com a sujeira das ruas

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On The BoweryOn The Bowery, Estados Unidos, 1956. ) Direção: Lionel Rogosin

★★★★★

Esse filme é, provavelmente, um dos mais avassaladores da década de 50. Muito à frente do seu tempo, lidou com um tema pesadíssimo de uma forma extremamente visceral, com a ajuda de uma fotografia inesquecível e direção impecável.

A influência que “On The Bowery” exerceu na história do cinema é gigantesca, a começar pelos próprios documentaristas da época que se apropriaram da mesma linguagem para construir os seus registros. John Cassavetes, um dos maiores nomes do circuito independente norte-americano, disse uma vez que Rogosin era “provavelmente o maior documentarista que existia”.

Outro influenciado pela obra é Paul Thomas Anderson, principalmente para a composição do filme “The Master“. O diretor pediu para Joaquin Phoenix assistir esse documentário e o ator, por sua vez, mencionou o filme como a essência do personagem Freddie Quell. Peguem a obscuridade abordada na obra de PTA, a bebida como forma de degradação humana e perca da razão, o ser sem lugar no mundo e, enfim, teremos a alma de respectivos filmes, tanto “On The Bowery” como “The Master” repercutem a mesma ideia, de formas diferentes e tão importantes quanto, a principal diferença é que o primeiro foi esquecido pelo tempo, sendo restaurado recentemente.

“On The Bowery” se passa em três dias, acompanha os senhores da rua Bowery. A ótica do diretor permanece sobre as suas vidas movida pela desesperança, frutos da crise, e moradores de lugar nenhum. Os personagens registrados deitam nas ruas, confundem-se com a sua sujeira e os únicos sentidos que encontram são a bebida e os bares, cercados de cigarros e sorrisos, no mesmo tempo que o álcool cria um elo com a felicidade, aprisiona-os na ilusão.

O documentário é uma mistura de ficção e realidade, mentira e verdade se relacionam da forma mais impactante que existe. A história inicia-se com a chegada de Ray Salyer na cidade, depois percorre à sua tristeza e existencialismo regrado a álcool e cigarro. A câmera estática é uma intrusa nas conversas, muitas delas referentes à possíveis empregos invisíveis, os senhores dialogam na esperança de esquecer que, à noite, terão que dormir no chão.

As cenas são maravilhosamente bem fotografadas por Dick Bagley, tanto que começamos o longa com imagens de senhores dormindo em papelões espalhados pelo chão, homens “presos” em valas, bêbados caminhando como se o mundo fosse um palco onde o maior espetáculo é a solidão. A fotografia pressiona o espectador, provoca sentimentos, o preto e branco transmite melancolia em cada segundo, há diversos momentos que os personagens são filmados entre grades, sugerindo o aprisionamento daqueles seres sem alma, sem dignidade.

A cena mais impactante é quando o protagonista(?) – Ray Salyer, em teoria, é o protagonista, mas a rua e as vidas o consome constantemente e o protagonismo se perde – entra em um abrigo para pegar comida e dormir, enquanto ouve as regras que dizem que na primeira noite, o cidadão deve dormir no chão. O prazo para ficar nesse local é de uma semana, no intuito de que nesse período os homens possam conseguir um emprego, mas é evidente que não existe emprego, não existe dinheiro, não existe existência. Os senhores, todos cordiais e unidos, se arrastam juntos à caminho do vício e da enganação.

Um velho afirma que não se pode vencer todo dia, essa é a síntese do documentário, vemos três dias de derrota. Alguns buscam conforto em deus, no mesmo tempo que, em off, ouvimos um homem dizendo em seu depoimento que perdeu a fé há 24 anos.

A mensagem final é para destruir, no mesmo tempo que cria a expectativa de fuga, há uma frase de um personagem que sugere “a volta”. Como um círculo, pessoas trabalhando os seus próprios conceitos de solidão, vítimas da sociedade, do poder e do vício. Uma hora de duração; uma hora de realidade em forma de arte.

Ray Salyer, o personagem principal, recebeu um convite para trabalhar em Hollywood após fazer o documentário. Mas ele recusou, continuou vivendo em Bowery, na sua maldição e benção. A fuga espera pela volta ansiosamente e o homem se embriaga para esquecer a sua própria fraqueza.

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O processo solitário de se perder

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A Influência La Influencia, Espanha, 2007.  ) Direção: Pedro Aguilera

★★★

A depressão é a doença que mais isola o ser da sua capacidade de sorrir, o faz de forma silenciosa, distanciando aos poucos o indivíduo do resto do mundo, dos olhares e gestos. O toque não satisfaz, o amor é uma sombra ou uma vergonha e o acordar é um pesadelo.

Dirigido pelo Pedro Aguilera com uma frieza assustadora, “A Influência” segue o padrão Michael Haneke, onde o estilo documental registra a dor, isolamento e tristeza de um personagem, grupo ou família. A história acompanha uma mulher que sobrevive as custas de sua loja, cuidando dos seus dois filhos, uma adolescente e uma criança. Mas ela vê sua vida desmoronar quando não consegue clientes por conta de uma crise no país, gradativamente percorreremos a transformação da personagem em rumo à depressão e desistência da vida, contrastando com a vitalidade dos filhos.

Somos apresentados à protagonista e ela está de costas, como se fosse a perfeita representação da sociedade para com a personagem. Vemos a sua loja, extremamente vazia e desorganizada, no mesmo tempo que a trilha sonora traz uma música confortável e passos são mostrados de pessoas transitando pelas ruas. Essas pessoas, possíveis clientes, não percebem a loja, ignoram o azul de suas paredes que remetem diretamente à melancolia.

O azul envolve cada segundo do filme, as cenas se pautam na cor para promover um estado de espírito, como se percebêssemos as cenas através do olhar da protagonista. O azul está na fotografia, nas paredes, no gorro do seu filho, no brinquedo que compra na loja, enfim, a alegoria da repetição é clara e se torna constante à medida que a personagem se esvai em meio à tristeza e caos psicológico.

A paleta de cores do figdiminuídaurino da protagonista só atinge a vividez quando ela está na loja. Ela começa vestindo vermelho, depois amarelo e, na última vez que entra no local, está com uma blusa amarela, desgastada, sem cor. A loja significa a última esperança que, pouco a pouco, vai sendo diminuída, como uma transição de sentimentos representados pela cor que, nessa obra, está tão presente que chega a ser onírico.

Claudia Bertorelli interpreta sua personagem com muita entrega, inclusive a mãe não tem nome, tornando-se símbolo da transformação e tristeza, um andarilho através da depressão. Os filhos, por sua vez, estabelecem o contraponto, preenchem as cenas com equilíbrio e demonstram insatisfação pela condição conturbada da mãe, no mesmo tempo que caminham em direção ao desprendimento e crescimento. Não à toa temos uma cena em que um pequeno menino pinta a sua parede azul com as tintas que ainda lhe restam e a sua irmã, ao invés de repreendê-lo, incentiva-o e ajuda a colar pedaços de uma revista no colorido da parede. Costurando um ser humano fragmentado através das suas imagens despedaçadas.

Ao final de “A Influência” a sensação é de dor e, mesmo com as repetições e ritmo que, por vezes, incomodam, a mensagem que a obra deixa é que o processo de se perder deve ser diferente para cada um e, portanto, não cabe julgamentos. Basta seguir em frente e estar presente, estar entregue.

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O velho que carregava o seu tempo nos ombros

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Filhos da Natureza Börn náttúrunnar, Islândia, 1991. ) Direção: Friðrik Þór Friðriksson

★★★★

A Islândia é, hoje, um palco importante para o cinema. Seja com as suas produções – geralmente são exibidos em festivais alternativos pelo mundo – mas também pelo fato do custo de produção ser reduzido, portanto muitos filmes norte-americanos são rodados por lá, aproveitando-se da paisagem maravilhosa unido com a facilidade de filmagem.

O filme mais conhecido do país é, sem dúvida, um chamado “Hrafninn Flýgur” (1985 ), que aborda os Vikings. Mas o mundo cinematográfico só conheceu a Islândia  em 1992, isso por causa de uma indicação ao Oscar para o pequeno, mais profundo e importante, “Filhos da Natureza”.

O filme é dirigido pelo grande Friðrik Þór Friðriksson – um dos diretores mais cultuados no país e que ainda continua trabalhando – e lida com a velhice de forma singular, com o auxílio de excelentes atuações, paisagem devastadora e silêncio perturbador.

Um senhor chamado Thorgeir deixa a sua casa no campo e vai visitar a sua família na cidade. Ele se sente sufocado com a artificialidade, bem como percebe que a sua presença incomoda a todos. Ele se muda para um asilo e, mesmo com a companhia de alguns novos amigos, vive insatisfeito com a sua condição e foge com uma senhora chamada Stella a caminho de um lugar nenhum, redescobrindo silenciosamente o sentido da vida.

Interpretado por Gísli Halldórsson com uma carga emocional muito grande, a sensação de aprisionamento do protagonista é transmitida através dos passos lentos, envoltos de uma paisagem assustadoramente linda que, praticamente, esconde o personagem.

No início do filme temos planos médios, para ressaltar essa jornada solitária, o uso da trilha também se faz presente e dá um tom de grandiosidade para um movimento bem simples.

Chegando no apartamento dos filhos, percebemos que Gísli Halldórsson carrega uma série de objetos que o identificam de alguma forma, mas nenhuma delas é tão evidente quanto um relógio de parede enorme, como se representasse sua vida ou maldição, que carrega constantemente, como uma prova da sua humanidade.

O senhor se sente desconectado da realidade, perde-se em meio a sua família descaracterizada, – para reforçar isso, todos os personagens da casa são filmados de forma diferente do protagonista, como se não tivessem rostos ou relevância em tela – inclusive, ao ouvir um som alto, o protagonista corre até o rádio desligar, como se não aceitasse a modernidade ou estilo de vida da família e sua alienação.

Sempre senti essa aflição sobre o envelhecimento só, e a solidão, nesse caso, é mais uma prova da angústia de ver o tempo passar, as transformações sociais acontecerem, o jovem mudar e, na cabeça do idoso, ainda existir outros mundos do passado, então como adaptar as lembranças do ontem com a estranheza do hoje?

Essa ideia é refletida através do silêncio de Gísli Halldórsson. O seu caminhar lento e desajeitado, suas expressões cansadas e, mesmo assim, doces, suas atitudes simples como sentar em um balanço, no parque, e admirar ( ou temer ) os prédios e a cidade. O conceito de lar é desconstruído, pois o idoso parece não pertencer à lugar nenhum, não ser filho de ninguém, senão, da natureza.

Quando a idade chega, parece que o homem se desamarra da sua inerência ao corpo e fica livre, como um filho abastado de conhecimento, ser ambulante da vida e observador dos erros; parece que se transforma em obra de arte do universo.

Lugar central não é onde a pessoa está?”

O parceiro de quarto do protagonista o recebe com a frase feliz e esperançosa: “saudações ao eterno jovem”, enquanto percebemos um quarto sem vida, escuro, que se resume, infelizmente, em um depósito de velho. Esse abandono é quebrado, outra vez, com as flores que esse senhor recebe da sua “família”, ele pede para o protagonista cheira-las e os dois vivenciam esse momento, essa esperança, juntos.

E assim todos os significados vão sendo passados através da sutileza, como o processo de envelhecer mesmo, existe uma sincronia entre o início do filme e o desenvolvimento, os passos lentos representam a própria experiência do espectador; a paisagem, muito bem utilizada, poderia ser a beleza de uma história não contada.

“Filhos da Natureza” é uma obra-prima esquecida pelo tempo, aclamada por alguns e feliz na sua abordagem realista sobre o processo inquietante do passar das horas. Através do road movie, temos a oportunidade de relembrar o quanto a existência é complexa e que, em determinados momentos, entra em comunhão com o vento, transformando-nos em parte do todo, guiando-nos à todos os lugares, para que possamos sentir todas as histórias e amar todos os amores.

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O medo, o abandono e a opressão

Under the Shadow, 2016

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“O Exorcista” ( 1973 ), “O Bebê de Rosemary” ( 1968 ) e “Os Inocentes” ( 1961 ), esses foram os três únicos filme que me deixaram com muito medo, daquele jeito que o indivíduo fica uma semana acordando assustado, olhando para os lados e indo ao banheiro correndo. Detalhe: todos esses eu assisti quando era criança, portanto estava mais suscetível à esse sentimento.

E, em 2016, eu tive medo novamente. “Under the Shadow”, novo filme iraniano do diretor Babak Anvari – que dirigiu um curta maravilhoso chamado “Dois mais Dois”, cujo tema aborda o totalitarismo e controle, de forma direta, simples e inteligente – fala sobre o medo, abandono e opressão social, a história é mostrada de forma brilhante, envolvendo o drama com a angústia do isolamento até, por fim, mesclar com o misticismo, afim de provocar a tensão.

O filme se passa no fim da década de 80, onde acontecia uma guerra entre o Iraque e o Irã. Uma mãe e a sua filha são obrigadas a ficarem em um apartamento, em pleno bombardeamento na cidade. O desespero pelo enclausuramento se mescla com eventos paranormais. Drama e terror se confundem, o medo acaba sendo provocado pela própria situação catastrófica do país, enquanto conceitos sobre família, proteção e opressão à mulher vão sendo desconstruídos.

O longa começa apresentando a protagonista ( Shideh/mãe ) pedindo uma chance para voltar à universidade. No passado, ela fazia medicina mas o seu sonho foi interrompido por participar de revoluções políticas. Então o papel da mulher já começa a ser deveras importante para a compreensão da obra que, em suma, desenvolve o terror sob temas sociais e políticos.

A narrativa é importante e bem realizada, precisa ser a mais dinâmica possível sem soar artificial. A divisão dos atos é muito clara, até pela própria duração, o filme pede por uma montagem linear e isso é feito da forma mais coerente possível. Geralmente, em filmes populares de terror, há uma preocupação em encaixar os sustos da forma mais rápida possível, como se fosse a obrigação da produção para com o público. Essa pretensão infantil não calcula a essência do medo, o que não acontece aqui, Under the Shadow constrói tudo de forma lenta, preenchendo cada lacuna e estabelecendo a ordem para, só assim, entrar com elegância no caos psicológico.

Medicina cura vidas, ou pretende; guerras causam mortes. Um grande contraste. A protagonista vive em um meio que não a satisfaz, a menina rebelde e que lutava por uma causa política, dá lugar a uma dona de casa que se submete a concordar que fora uma “adolescente estúpida que nem sabia o que era direita e esquerda”. A sensação claustrofóbica já está presente na cena inicial, uma desilusão e impaciência, provocados pela ganância política e desdém do poder para com seu povo.

O terror começa quando a mãe e a filha ficam sozinhas. Por ser um filme iraniano, a paranormalidade se sustenta sobre a crença do Islamismo – que, por sinal, possui um dos infernos mais cruéis que existe – e será abordado nomes como Iblis que, na verdade, é o demônio do Islã.

[ Iblis é retratado como sendo uma criação do próprio Alá e que foi rebaixado após recusar-se a submeter aos homens que foram feitos do barro. Para ele, uma criatura que se originou no fogo era mais grandiosa do que todos. Como curiosidade, para alguns pensadores, Iblis possuía uma crença monoteísta. Afinal, ele rejeitou-se se ajoelhar perante qualquer criatura que não fosse Alá. ]

O fogo provocado pela guerra é o mesmo que Iblis se originou. O temor nasce do abandono, percorre a incerteza e cresce na resistência. Há cenas assustadoras, simples e impactante, como um momento que vemos Shideh dormindo, em uma filmagem vertical e a câmera gira quando a personagem fica frente a frente com a filha. É relevante esse momento pois o fato de ser mãe consome muito a protagonista, apesar de amar a sua condição, ela se vê fraca e desamparada, e é nesse ponto que mora a importância da personagem Dorsa – interpretada brilhantemente pela Avin Manshadi: exigir da sua mãe o processo contínuo de reflexão sobre a sua postura.

Como exercício narrativo, é válido perceber que todos elementos e cenas que envolvem o susto ou medo estão estreitamente conectados com os sentimentos mais profundos da personagem principal – isso é confirmado quando ela coloca uma fita na janela para proteção dos vidros em um possível bombardeio, e a sombra forma um “x” em seu rosto, como se ela/população fossem o alvo da guerra.

 Outra cena de suma importância é quando Shideh sai de casa sem a túnica – por conta do tormento causado pelas assombrações – e vai presa. Na volta, quando fecha a porta, ela se assusta com a sua própria imagem no espelho e tira a túnica, como um ato de revolta para com a sua condição, principalmente as ordens e julgamentos que lhe são impostos diariamente. Novamente, ela convive com o demônio dentro de si.

“Uma mulher deve temer a exposição acima de qualquer coisa”

Com uma abordagem inteligente e precisa, Under the Shadow é brilhante na concepção do terror psicológico. Transformando cenas simples em poesias por conta da crítica social e opressão à mulher, provoca o medo como há muito tempo não sentia. A atuação da Narges Rashidi reforça a atmosfera sombria, no mesmo tempo que a utilização dos espaços da casa é muito oportuna para a sensação de aprisionamento. Um dos melhores filmes do ano.

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As asas do anjo guiaram minha alma

Idiots and Angels, 2008 ( direção: Bill Plympton )

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Lembre-se da atmosfera mórbida dos livros do Charles Bukowski, misture com uma pitada das animações francesas, principalmente um chamado “A Pequena Loja de Suicídios”, depois despeje jazz e as músicas de Tom Waits em uma taça de vinho… e não se esqueça do humor negro; pronto, temos a alma da animação Idiots and Angels descrita apenas com boas referências.

A história gira em torno de um homem conhecido como Angel, arrogante, pretensioso, machista e que odeia o mundo à sua volta. O processo de acordar, para ele, é motivo de irritação e destempero. Sua vida se resume em sentar em uma boate e beber, enquanto aprecia a beleza e deseja uma garçonete. Ele é fruto do ódio, mal-humorado e sem propósito. Um dia, como outro qualquer, começa a nascer asas em suas costas, alterando o seu destino, como o fio de Ariadne, ele vai conhecendo o seu fim.

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Logo quando vemos o personagem acordando, já é perceptível a animação com traços estranhos, rápidos e precisos na concepção de um mundo caótico. O personagem têm expressões fortes, caracterizado como um lobo mal. Ele pega o seu carro e o trânsito também demonstra a uniformidade das aparências: os carros de todos são iguais, o movimento é constante – portanto, impenetrável – e os homens possuem a mesma fúria.

A atmosfera é composta, também, pela brilhante utilização das músicas, intercalando diversos jazz com a trama, todas elas possuem uma simetria com as mais diversas situações grotescas, reforçando até mesmo o humor negro, que é trabalhado em diversos momentos.

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As duas imagens acima sugerem a uniformidade analisada, reforçando a ideia de conceitos regulares e padronizados, transformando o mundo esperança em mundo desastre. 

A personalidade polêmica do protagonista é desenvolvida a passos lentos, traduzindo com suavidade a sua visão sobre o mundo, transformando-o, gradativamente, em monstro. A boate é um templo onde o álcool impera e transforma seres tristes em seres seguros. 

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Todos os personagens da boate possuem os lugares certos, como um relógio que repete os mesmos movimentos diariamente. É possível fazer uma leitura que transforma a boate na consciência do protagonista: o dono é o poder; a garçonete representa o desejo; e a mulher que fica sentada, solitária, no canto, é a exclusão social.

A filosofia existencial é envolta de muito cigarro e bebida, calculando o monótono e preservando a raiva como processo de catarse. Através da maldade, Angel, o herói, recebe as asas como uma criança que aprende a caminhar.

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As asas representam, nitidamente, a moral. Mas não se resumem à ela. Poderia interpretar como algo metafísico, um poder divino curando a maldade do homem com uma ferramenta mística. Mas prefiro a palavra moral que está relacionada diretamente com o processo de rever atitudes particularmente, sem a interferência de terceiros.

Não à toa, o médico se sente fraco e inveja as asas do seu paciente, como se elas fossem a representação do bem na terra, que hipnotiza os homens com a ideia de salvação.

A animação não têm falas, move-se com a imagem através da obscuridade humana. Trata de personagens imperfeitos, sentimentos pesados e maldosos. Sua maior ambição é abordar o tema de forma a mesclar com o onírico, nunca sendo óbvio, significados profundos sobre o caos da condição humana e conseguindo ser grandioso sem exageros.

Assim como o protagonista, o espectador é convidado para uma viagem experimental através do vazio da existência, as asas do anjo guia-nos pela insolência humana e provoca-nos com a dúvida: “existe alguma esperança?”.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A insatisfação do “aqui” e o vazio do crescimento

Little Birds, 2011

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★★★★

Há anos venho afirmando o meu fascínio por filmes que abordam temas relacionados com o jovem. São inúmeros grandes exemplos, que certamente acrescentam muito nesse nobre e difícil objetivo, afinal, o jovem é movido por incertezas e impulsos aparentemente irresponsáveis, registrar de forma coerente essa instabilidade é para poucos.

“Little Birds” é mais um bom representante de filme indie, do tipo que se utiliza da delicadeza para desenvolver uma história pesada e, nesse caso em específico, trabalha com perfeição a instabilidade do jovem, citada acima. É de se espantar que seja dirigido por um “novato” chamado Elgin James.

A história é sobre duas amigas chamadas Lily e Alison que moram em Salton Sea, Califórnia. As duas têm quinze anos e, no auge da perfeita divisão entre a liberdade, conhecimento e responsabilidade, enfrentam problemas próprios da idade, como namoros, isolamento, relacionamento conturbado com a família etc. Principalmente Lily – vivida pela excelente Juno Temple – que se corta e parece sempre querer provar o quanto não pertence ao lugar que vive e, na primeira oportunidade, decide fugir na sua terra natal, convidando a sua melhor amiga a entrar nessa aventura cheia de riscos e incertezas.

Os filmes de road movies são conhecidos por sempre apresentarem evoluções nítidas nos personagens, talvez seja o maior representante dessa postura de observação, caminho e conclusão, sendo uma metáfora até mesmo para o próprio roteiro; nesse filme de 2011 não é diferente, enquanto filme de estrada não apresenta nada novo, mas quando o relacionamos com a importância em se discutir os sentimentos do jovem, ai ele atinge um nível muito elevado, fugindo do contexto da própria evolução e concentra-se em um “ensaio de erros”, onde a conclusão se transforma em algo pouco previsível.

A personagem Lily tem uma fragilidade absurda, no mesmo tempo que a sua impulsividade pode ser interpretada como ignorância, é nítido que ela é vítima de um sentimento muito grande de falta de propósito. A atriz Juno Temple – que escolhe muito bem os papeis que faz – se conecta perfeitamente com a trama pois fisicamente ela preenche muitas lacunas da personagem, no mesmo tempo consegue dar ainda mais qualidade com pequenos olhares e gestos que reforçam a inocência de Lily.

Como o outro lado da moeda, mesmo que ainda estejamos falando sobre jovem, temos a Alison, vivida pela Kay Panabaker, ela se mostra sempre muito madura, repleta de informações sobre coisas aparentemente banais para a sua idade. Parece que está muito satisfeita com a sua condição e destino.

A fotografia, por vezes pendendo para o amarelo, dá um tom confortante no começo, porém vai ficando mais obscura com o passar do tempo. Principalmente com as mudanças de cenários, como se ambas meninas estivessem passando por um ritual cujo objetivo é ilustrar como o mundo é malvado e podre. Essa transformação na fotografia/cenários é a perfeita demonstração do crescimento e conhecimento.

O fato de ser duas meninas é muito interessante pois remete diretamente ao clássico “Thelma & Louise”, inclusive tem uma referência clara a esse filme. Apesar da mudança drástica dos primeiros trinta minutos para o restante, tudo é feito de forma muito consciente, a densidade é revelada na medida certa e em nenhum momento o filme se torna cansativo.

O drama familiar é pouco desenvolvido, mas por outro lado seria um erro procurar explicações no vazio das sensações da protagonista, mesmo assim é importante os pequenos momentos onde fica claro o seu estado emocional desestruturado, como por exemplo o corte que a menina faz em sua própria perna.

Por fim, “Little Birds” é excelente e, assim como o seu título, transmite uma energia de liberdade muito grande, no mesmo tempo que alerta, tudo isso sem ser didático. É um verdadeiro ensaio de atitudes inexplicáveis, senão, pela própria vontade. Quando Alison questiona a sua amiga sobre o porquê da fuga, ela pergunta: “O que tem tão bom lá?“, enquanto Lily responde, simplesmente: “Não é aqui“. E isso, sem dúvida, responde tudo e nada ao mesmo tempo, assim como o processo de se tornar adulto.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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