Sr. Kaplan, 2013

Sr. Kaplan 2013

★★★★

A fotografia clara, limpa e delicada, confunde-se com um senhor, vestido de azul. A cor reflete a sua suposta serenidade, transmitindo tranquilidade e paz. Por fora Jacobo é um senhor, por dentro é um jovem à procura de aventuras. O azul de sua roupa, logo nas cenas iniciais, é a mesma da piscina, sua mulher corre para salvá-lo e, coincidentemente ou não, ela também está vestida de azul. Em uma festa elegante, eles são um ponto fora da curva.

Jacobo prestes a pular na piscina é a simbolização de um homem prestes a se reinventar. E, assim, com tamanha sutileza, o filme começa a se desenvolver. Não que seja brilhante e inesquecível, mas sem dúvida “Sr. Kaplan” representa muito para os diversos idosos ao redor do mundo, que refletem constantemente sobre o processo de aceitar a passagem do tempo. Obrigando à todos, principalmente aqueles que viveram muito, compreender que as coisas mudam, as pessoas mudam e que o azul e claridade, tanto da fotografia como do figurino, pode muito bem ser mera ilusão e que, na verdade, Jacobo é um senhor que está morrendo.

Sim, morrendo por não encontrar em si um motivo, mas basta uma “missão” para a vida o reposicionar de frente à vontade de viver.

Dirigido pelo Álvaro Brechner, “Sr. Kaplan” é um filme Uruguaio que fala sobre a idade; através dos olhos de um senhor, judeu, rabugento e insatisfeito, que se recusa a se imaginar como velho. Ele está cansado da sua vida e amigos, mas acaba mudando de vida quando passa a acreditar que um homem, dono de restaurante, é um nazista fugitivo. Com o propósito de observá-lo e sequestrá-lo, o senhor encontra um motivo para seguir vivendo, de forma humorística, essa intenção representa até mesmo uma “vingança” em nome de um povo, mas até que ponto a vingança alivia?

O filme apresenta uma dúvida: “O mundo é melhor por minha causa?”. E a resposta durante o filme é que não. O mundo não é melhor pela existência de ninguém, mas certamente é diferente e isso deveria bastar. Em um determinado momento, ainda na festa, Jacobo e sua mulher chegam atrasados e sentam em uma mesa, repleta de pessoas diferentes, além de permanecerem em um lugar desconhecido, como se eles fossem os intrusos, ainda existe o sarcasmo por conta da cadeira que eles sentam, que é definitivamente menor do que a dos demais.

Há algumas outras relações com o questionamento, é citado Abraão, por exemplo – que, sabemos, representa a liderança – e depois o próprio protagonista conversa com Deus. Mesmo com algumas cenas profundas e impactantes, é de se destacar o poder cômico do filme que se desenvolve de maneira pontual mas, no mesmo tempo, diz todas as palavras exageradas através de um humor tímido, sempre aparecendo de forma natural.

O maior motivo dessa qualidade despretensiosa é, sem dúvida, a dinâmica dos atores Héctor Noguera e Néstor Guzzini. Algo como o aprendiz e o sábio, mesmo que por diversas vezes essa classificação seja infantil, ainda assim existe muito drama nesses dois personagens criados para fazer sorrir.

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O podcast e site Cronologia do Acaso existem há quatro anos. Quem nos acompanha desde o início, sabe a evolução que tivemos ao longo do tempo; percebe, também, o carinho que temos pela sétima arte e o prazer em divulgá-la. Abordamos o cinema autoral e temos muito orgulho disso.

Em uma Internet repleta de conteúdos, o cinema popular e a cultura pop em geral ganham destaque; o nosso propósito é abordar exclusivamente o cinema alternativo, sob uma perspectiva humanista. É perceptível que o nosso trabalho e análises abrangem não só uma obra específica, como também toda a discussão social e filosófica que elas se prõpoe a discutir.

O Cronologia do Acaso, com o passar do tempo, passou a ser um veículo de aprendizagem em conjunto. É uma sociedade secreta onde evitamos ao máximo o preconceito e o conservadorismo. O site prima pela verdade e, a partir dela, produzimos a nossa arte de pensar e compartilhar.


Agora o projeto está no Padrim, um site de financiamento coletivo onde você pode contribuir com uma determinada quantia em dinheiro e ajudar o Cronologia do Acaso.

Na nossa página do Padrim, inclusive, colocamos duas recompensas:

  • Doando R$ 5, 00 ou mais você terá acesso à um fórum de cinema que está sendo criado e que será vinculado com o Cronologia do Acaso. Todos os filmes das críticas ou comentados no podcast ganharão mais detalhes no fórum. Divulgação de links, discussões, informações. Ainda será um veículo para estreitar os nossos laços, aprender sobre cinema e ensinar.
  • Doando R$ 20, 00 ou mais você receberá uma palestra exclusiva sobre cinema. Essas palestras serão gravadas e produzidas pelo Emerson Teixeira, em vídeo – cerca de uma hora – sobre temas variados de cinema e arte. Desde assuntos técnicos, até mesmo análise sobre o trabalho de um diretor ou até mesmo história do cinema de determinado país e outras coisas. Temos algumas palestras preparadas e divulgaremos os possíveis primeiros temas:

As inspirações de Tarantino para fazer Kill-Bill

Essa palestra terá como proposta analisar uma série de filmes e séries que, de algum modo, influenciaram o diretor Tarantino a fazer o filme ‘Kill-Bill’. Obras como “Samurai Fiction”, “Lady Snowblood”, e diversas outras, serão analisadas cena por cena.

Uma viagem filosófica através do trabalho da diretora Dorota Kędzierzawska

Essa palestra é baseada em discussões que a diretora polonesa Dorota Kędzierzawska explora em seus trabalhos. A vida e o tempo sendo analisados sob olhares de crianças abandonadas, idosos solitários e mães. 

História do cinema de terror

Essa palestra será dividida em algumas partes, percorrendo as décadas do cinema e a evolução do terror, fazendo um paralelo com as mudanças sociais e como esse contexto influenciou os filmes.

A mídia podcast no Brasil é realmente algo complicado. Ainda mais para quem decide falar sobre cinema independente; mesmo que o façamos com muito amor, carinho e respeito – seja pela arte ou ouvintes/leitores – esse trabalho toma tempo e é questão de tempo para nos questionarmos.

Essa possibilidade de doações é, talvez, a mais próxima do Cronologia do Acaso receber um dinheiro para os eventuais custos, como hospedagem, domínio etc. Por isso precisamos da sua ajuda e considere tanto o fórum como as palestras como uma forma de agradecimento, mesmo que de forma humilde, à todos que nos ajudarão com alguma quantia. Se você ajudar a compartilhar essa ideia, também estará ajudando muito!

Seja o nosso Padrim! Clique no link abaixo 😀

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Musarañas, 2014

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★★★★

Dirigido por Esteban Roel e Juanfer Andrés “Ninho de Musaranho” é o típico filme que agrada bastante, mesmo com toda sua densidade, é altamente envolvente e tentador. Musaranho ou Soricidae é o nome de pequenos mamíferos roedores que são conhecidos pela sua ferocidade, mesmo sendo bem pequenos. Com essa analogia clara, temos a história de duas irmãs: Montse e Hermana. A primeira é a mais velha e sofre de uma doença chamada agorafobia, ou seja, ela tem um medo avassalador de sair de casa ou tudo que vai além dos limites do seu território. Já Hermana possui uma ânsia de viver, tem namorado, enfim, uma vida altamente normal se não fosse alvo de cuidados extremos por parte da irmã. A vida de ambas começa a se transformar com o aparecimento do vizinho Carlos.

Hermana é vivida por Nadia de Santiago, dona de uma beleza angelical e que utiliza isso à favor da sua personagem. No entanto, sempre existe um quê de estranheza nos seus trejeitos e, principalmente, na aceitação quase impensável sobre as atitudes da irmã mais velha. Fica evidente que existe algum tipo de obsessão ou passado sombrio entre elas. Já a irmã mais velha, Montse, é interpretada incrivelmente bem pela Macarena Gómez, atriz que doa o impossível para construir uma personagem além dos limites da insanidade. Ela não é muito conhecida do grande público, mas já trabalhou com Álex de la Iglesia – que assina a produção desse filme – em “As Bruxas de Zugarramurdi”.

O filme se passa em 1950 e é importante a pequena ambientação exterior para aumentar a nossa distância para com alguns conceitos, principalmente em relação à liberdade. No mesmo tempo que as vestes e o comportamento religioso obsessivo dá ao filme um ar clássico de terror psicológico; isso desde o começo do filme, a ambientação sombria funciona e causa muitas estranhezas no espectador, típico de filmes de terror ou suspense espanhóis.

Alguns elementos ficam bem claros já no começo do filme, como o papel da mãe na trama e os cuidados extremos, além de que o apartamento onde as irmãs vivem, assume uma importância gigantesca para provocar quem assiste, se tornando uma espécie de personagem principal. As paredes sufocam e, nas primeiras cenas onde vemos a limitação da Montse que a impede de colocar o braço na parte externa da casa, a suposta estranheza dá lugar a compreensão de que realmente há coisas que deveriam ser temidas no mundo e que sua fobia é mais a representação da proteção do que qualquer outra coisa.

Há ainda brincadeiras clássicas – aqui muito bem utilizadas – como a iluminação, que em diversas cenas são diferentes nas duas irmãs, ressaltando o contraste entre inocência e maldade.

O filme atinge um nível mais alto com o aparecimento de Carlos, o roteiro joga o espectador para todos os lados e sacode com tamanhas curvas na narrativa, que em determinados momentos nos impulsiona para o entendimento da protagonista, ora nos faz ter raiva pela sua atitude e, de uma hora para outra, pena pelo seu desequilíbrio. É o típico filme que é preciso recomendar mas sem contar absolutamente nada, pois pode afetar diretamente na experiência de quem assiste.

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CdA #65 – Os Inocentes – Por entre a proteção e o desejo

Os Inocentes

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Em mais um episódio [Moscas]Emerson Teixeira e Tiago Messias analisam o filme clássico “Os Inocentes”. Criam significados e interpretam as diversas mensagens ocultas dessa obra imortalizada como uma das melhores obras do terror, perfeito exemplo da mudança que acontecia no gênero em plena década de 60!

Edição feita pelo Tiago Messias

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O Sono da Morte, 2016

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★★★

Em “O Sono da Morte” o diretor Mike Flanagan se limita a fazer algo popular e que dificilmente não será aceito pelas pessoas. Isso porque ele conduz a história de forma delicada, sempre mesclando com algumas questões familiares que acabam criando, inevitavelmente, um elo com quem assiste por conta da identificação para com elementos como carinho, proteção e perda.

A história é sobre um casal chamado Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Jane) que, após perder um filho, adotam uma criança, Cody, da mesma idade. O filho adotivo se adapta à nova família rapidamente, por conta da atenção e dedicação dos pais, porém o menino guarda um segredo que afeta a vida de todos ao seu redor.

A premissa pode soar clichê, mas não é. Inclusive o ponto mais alto do filme é justamente o seu conceito, sendo incrível na concepção e inteligente no desenvolvimento. Infelizmente essa inteligência é, como disse anteriormente, movida por uma necessidade de ser entendida, fica evidente a preocupação de se explicar constantemente e isso sem dúvida irrita por diversas vezes.

Contudo, Mike Flanagan continua provando ser um dos diretores mais promissores da atualidade – principalmente no que diz respeito ao terror, fantástico, suspense etc – e se utiliza de uma série de técnicas para compôr a atmosfera da sua obra, principalmente elementos que contribuem para exaltar o onírico. A cor azul é muito importante em diversas cenas, bem como a borboleta, essa segunda representando a transformação pela qual o pequeno Cody precisa passar.

Cody, interpretado pelo pequeno Jacob Tremblay, é o ponto maravilhoso das atuações, o carisma do ator mirim é muito grande e aqui funciona muito bem para a narrativa.

Certamente, “O Sono da Morte” não é dos melhores do Mike Flanagan, mas ainda assim é interessante, brinca com o visual e se estende, aos poucos, para algumas reflexões sobre a criação, imaginação humana e o mundo dos sonhos; também consegue atrair a atenção através do mistério e o leve suspense, que impulsiona a sensação de surpresa após uma conclusão inesperada.

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#01 – [ Três Quadros ] – Os Inocentes ( 1961 )

menina na carruagem

Hoje estréia aqui no [Cronologia do Acaso] uma nova coluna, que será chamada de [Três Quadros]. Basicamente eu vou pegar um filme e escolher três cenas/fotografias e explicar o porquê elas chamaram a minha atenção e o motivo da relevância para a história do filme.

O primeiro filme que selecionei é o clássico de 1961, “Os Inocentes”. Dirigido pelo Jack Clayton e adaptado do livro “The Turn of the Screw”. Eu já escrevi sobre esse filme, você pode ler clicando aqui, é interessante a leitura pois contextualizará melhor as fotografias.

Escolhi “Os Inocentes” pois, ao meu ver, se trata de uma das melhores fotografias na história do cinema. Ela consegue transmitir com perfeição todos os dramas das crianças e a tensão da protagonista, no caso a governanta.

A direção de fotografia do filme foi assinado pelo Freddie Francis, conhecido também por trabalhar ao lado de David Lynch em filmes como “O Homem Elefante”, “Duna” e “História Real”.

Vamos então as escolhas:

1)

divisão entre protagonista e empregada novamente

Essa foto foi escolhida para representar diversas outras ao longo do filme que destacam a separação entre a governanta e a empregada. As duas representam posturas diferentes e dialogam com a mansão de forma distinta. As grades no centro e do lado direito transmite a ideia de que a protagonista é prisioneira da mansão e dos seus desejos.

Por outro lado, a empregada está posicionada de forma bem sugestiva, sua cabeça está em encontro com um quadro que, suponho, seja da família. Algo que sentimos sobre a personagem: sua imparcialidade por conta do compromisso em cuidar da casa e das crianças.

divisão entre protagonista e empregada novamente - Explicação

2)

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada

Além da representação do oposto por parte da governanta e empregada através de grades ou objetos em cena que as separara, por algum motivo, as crianças também assumem uma importância e representatividade. A fotografia acima acontece logo após a segunda aparição de um fantasma e estabelece a ordem e características desses três elementos.

As crianças estão em primeiro plano, de costas, olhando o “embate” ou a contradição. A governanta está no meio e, pelo fato de suas vestes serem escuras, ela acaba se misturando com as sombras – vai perdendo a sua identidade e assumindo outra função -, no mesmo tempo que a empregada, lá em baixo, está envolta de muita luz, como se representasse o equilíbrio da casa. Equilíbrio esse que também guarda segredos, repare na sombra atrás dela.

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada - explicação

3)

Reflexo da empregada no rosto da protagonista-vert

Sim, são duas imagens mas a primeira imagem é a qual escolhi. No entanto é curioso a segunda, que é a sua sequência. Esse momento é quando a governanta sente, do lado de fora da janela, a presença de um homem, esse homem inclusive já está morto. Ela sai da casa e olha pela janela, para dentro, da mesma forma que a aparição fantasmagórica fez. Se não bastasse a ironia, ainda vemos o reflexo da empregada se aproximando, como se existisse uma rápida simbiose entre as duas.

Logo depois elas se separam e, novamente, temos a impressão de que ambas estão distantes por causa das grades da porta.

Reflexo da empregada no rosto da protagonista-vert 2

Essas foram as três fotografias escolhidas. Esse filme é muito interessante sob a perspectiva fotográfica pois, sem dúvida, a fotografia só existe para complementar, não para clamar por atenção, são sutis e muito bem aceita pelo diretor que, com toda a sua capacidade, cria uma obra perfeitamente sincronizada.

Se vocês tiverem sugestões de filmes, por favor, deixe nos comentários, será uma honra analisar e aprender com vocês!

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Os Inocentes – A obra-prima máxima do terror

Os Inocentes

Encontrar críticas ou artigos relacionados com o universo dos filmes de terror é muito fácil aqui no Cronologia do Acaso. Já expliquei centenas de vezes o porquê tenho um fascínio por esse gênero, então no começo desse artigo, deixo a recomendação de outros textos. Segue os links:

Possessão demoníaca: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/02/04/possessao-demoniaca-no-cinema/

Madre Joana dos Anjos: http://cronologiadoacaso.com.br/2015/11/02/madre-joana-dos-anjos-1961/

Atividade Paranormal – Quando uma boa ideia se transforma em fracasso: http://cronologiadoacaso.com.br/2016/07/19/atividade-paranormal-quando-uma-boa-ideia-se-transforma-em-fracasso/

Com esses três textos, vocês poderão entender um pouco sobre a minha perspectiva sobre o cinema de terror e, sem dúvida, será interessante para compreender esse artigo sobre “Os Inocentes”, principalmente no que diz ao subtítulo escolhido: “A obra prima máxima do terror”.

É claro que o gênero terror teve uma base muito sólida, tendo sido modificado por inúmeros artistas que, direta ou indiretamente, deixaram muito de si na linguagem desse gênero que se utiliza do terror para analisar lados obscuros e desconhecidos do ser humano. Mas podemos resumir isso com um filme chamado “Os Inocentes”, de 1961, dirigido brilhantemente por Jack Clayton e estrelado pela Deborah Kerr – a ruiva mais linda da história do cinema.

Os Inocentes

O filme conta a história da senhora Giddens ( Deborah Kerr ) que é contratada para cuidar de duas crianças chamadas Flora ( Pamela Franklin ) e Miles ( Martin Stephens ), eles são órfãos e vivem em uma casa gigantesca, sustentados pelo tio e criados por funcionários. Não existe afeto por parte das crianças, no que diz respeito à família, elas vivem com muito luxo mas são abandonadas. A nova governanta passa então a construir um carinho e senso de proteção muito grande, no mesmo tempo que percebe que a mansão guarda segredos envolvendo a paranormalidade.

O filme é um clássico intocável, infelizmente não tão conhecido como merecia, mas além de apresentar alguns conceitos até então inéditos, o diretor e os demais envolvidos sabem como unir todos os artifícios técnicos em função da história. Esse artigo tem como finalidade destacar alguns desses artifícios.

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

Reflexo da Flora, antes do seu primeiro encontro com a governanta

O filme começa antes mesmo dos créditos aparecerem. Em uma tela preta, ouvimos uma canção maravilhosa e tétrica chamada “O Willow Waly“, sua letra traz frases como: “Nos deitamos, meu amor e eu[…]”, “[…] Mas agora deito apenas eu […]”, “[…] E choro ao lado da árvore […]”. Essa música será importante durante todo o filme e é engraçado a sua aparição acontecer antes de qualquer outra coisa, inclusive os projecionistas, nas salas de cinema, acharam que era um erro e cortaram, para que o filme começasse com a logo da 20th Century Fox.

As primeiras cenas são para apresentar a protagonista, no começo ela reluta contra a ideia de se tornar governanta e, cabe ao espectador imaginar que é porque se trata de uma profissão que exige uma enorme responsabilidade, é dito que ela não tem experiência o que acaba, também, ressaltando o quanto o tio das crianças não está muito preocupado com o bem estar delas, mas sim em preencher o vazio deixado na mansão após a governanta anterior morrer.

Aceito o trabalho, a senhora Giddens parte para a mansão e a primeira coisa estranha que acontece é que ela ouve uma mulher chamando a Flora, mas é perceptível que a voz emite uma harmonia, como se fosse parte de uma canção.

O primeiro contato visual que a protagonista tem com uma das crianças é com Flora, percebe-se que a imagem da menina aparece, primeiramente, através de um reflexo no riacho, isso é algo que, inclusive, será trabalhado durante toda a obra, assim como as luzes e sombras.

Flora aparecer primeiramente como um reflexo significa que a governanta começa a se confundir entre a realidade e mentira, de um lado está aquilo que ela molda e do outro a realidade sombria – em muitos momentos as crianças parecem ter mais consciência do quanto são abandonadas do que ela.

Os-Inocentes-1961-3

O filme, nesse início, se divide em dois: exterior da mansão e dentro. Isso porque a diferença é gritante, fotograficamente o filme assume uma outra postura, como se estivesse adentrando uma outra dimensão. Se nos minutos iniciais fica evidente uma singela organização dos movimentos das personagens, dentro da mansão ela chega ao limite.

Na mansão só estão os empregados – porém a única que conhecemos é a senhora Grose ( Megs Jenkins ) – Flora e a recém-chegada governanta. O garoto, Miles, está na escola. O momento em que a nova governanta põe os pés na casa é para se acostumar com o seu ritmo, lembrando que por vezes parece pertencer à um universo diferente, e o diretor deixa claro isso impondo um outro tipo de movimento de câmera e transição dos atores. Remetendo-nos diretamente ao teatro, é impressionante a sincronia estabelecida para as posições e a troca de posições das personagens; além do mais, durante todas as cenas internas os objetos são extremamente relevantes, compõem a história e trazem uma beleza estética incrível.

Seria impossível falar sobre esse filme e não citar a sua perfeita mise-en-scène . É tão bem pensado, que só nos cabe imaginar que cada cena demorou muito tempo para ser planejada. É quando o terror começa a ganhar uma outra forma, além de abraçar a sugestividade, clima obscuro, trilha tensa, ainda existe a expressão fotográfica, figurinos e, claro, atuação, todos esses elementos dialogando entre si e construindo algo extremamente grandioso.

Algo que pode ser visto em alguns momentos cruciais é a transição de cenas que teima dar indícios da próxima, além do mais, a sutilidade e transparência cria diversos significados. Observa as imagens abaixo:

Aparicão do Miles no meio das duas - parte 1 Aparicão do Miles no meio das duas - parte 2

Como escrevi acima, o início do filme se divide entre exterior e dentro da mansão – como se estivéssemos, juntos com a protagonista, invadindo um segredo – mas, com o passar dos minutos, ainda no primeiro ato, existe uma série de camadas surgindo de forma completamente orquestrada, uma delas são os personagens. Podemos dividir os quatro principais e, veremos, que cada um representa um aspecto da vida nessa casa:

Governanta: É aquela moça que chegou com receio, mas aos poucos se rendeu ao papel de “mãe” e “protetora” das crianças. No mesmo tempo que desconhece a mansão.

Empregada Grose: Ela representa o “olho que tudo vê”, ou a clássica “sábia”. Percebam que durante quase todo o tempo ela é extremamente imparcial e não se conecta emocionalmente com o abandono das crianças, apenas cumpre uma função.

Flora e Miles: Eles são os abandonados e, por isso, utilizam-se disso como pretexto para se isolarem do mundo e guardar segredos. É como se o “universo da mansão” fosse a razão de suas existências.

Na imagem acima, a primeira, a governanta recebeu um comunicado da escola de Miles sobre o seu mal comportamento e começa a questionar a postura do menino. Ela é o oposto da empregada que, por sua vez, o inocenta e parece querer ocultar tudo da moça. A primeira fotografia traz uma estátua separando-as – o que acontecerá constantemente – e, mais do que isso, imediatamente depois dessa pequena discussão, tem uma transição onde temos o pequeno Miles chegando de trem. Ele está no meio de ambas, como se elas representassem algo como peças de xadrez nesse universo, simplificando-as à simples figurantes nesse conto de fadas.

Tres elementos principais - crianças, cuidadora e empregada

Essa cena representa a divisão dos personagens. As crianças estão no nível de cima, governanta no meio e a empregada abaixo deles.

A mansão é grande e espaçosa, no mesmo tempo que os já citados objetos parecem diminuir a protagonista a todo instante, como se ela guardasse sentimentos proibidos, o próprio carinho e senso de proteção desenfreado poderia ser considerado proibido, visto que se trata de um trabalho, mas que, infelizmente, ela nunca terá o poder de mudar as condições das crianças.

Por mais que a senhora Giddens tente, a mansão a separa dos demais que aceitam as suas condições. Em um momento, no final, ela mesma confessa que o seu pai a ensinou a ajudar as pessoas. Podemos concluir, então, que a senhora Giddens representa o exterior da casa e as crianças e empregada o interior. É impressionante quando ligamos essa metáfora à uma cena em que as crianças perguntam para a sua governanta se a sua casa era pequena, Miles então fala algo como “pequena demais para guardar segredos“.

Aparição do fantasma na janela

Até então escrevi bastante sobre as metáforas e pouco sobre o terror. Isso porque de forma bem provocante e intensa, é possível afirmar que o terror mora no significado oculto dessa obra. Existem aparições, a primeira é sensacional, inclusive,  a governanta vê uma silhueta em cima do telhado e, na segunda aparição, já podemos notar que esse mesmo homem aparece no quintal da mansão, em frente a uma estátua – aliás, lembrem-se que a primeira vez que Miles aparece ele também está posicionado no quadro exatamente onde está uma estátua.

Além do mais, existe medo escondido em todos os momentos. Desde as cenas iniciais é citado a sensação de medo por parte da protagonista, talvez oriunda da própria insegurança. Destaque para a atuação da maravilhosa da Deborah Kerr que já disse inúmeras vezes se tratar da melhor atuação da sua vida, e é realmente complicado discordar, mesmo que ela tenha uma carreira tão sólida.

A sua expressão delicada vai dando lugar à uma instabilidade, o olhar começa a ficar explosivo e a performance passa a se misturar com as sombras. As sombras foram tão importantes que o fotógrafo Freddie Francis usou grandes refletores e geradores de luz para criar os efeitos.

Não poderia deixar de citar o Martin Stephens – excelente ator mirim que, infelizmente, deixou a carreira de lado após sucessos como “A Aldeia dos Amaldiçoados” e o próprio “Os Inocentes” – e a atriz japonesa Pamela Franklin. As crianças chamam muito a atenção, irritam, alegram e intimidam na mesma proporção, algo extremamente complexo e raro de se ver.

Fotografia entre grades

O filme evolui de forma impecável e atinge outros significados no final. Em uma cena absolutamente agressiva e polêmica, o espectador sente que a governanta é que fora corrompida durante todo o tempo. Há muitos espaços para dúvidas e seria até possível imaginar um amor platônico por parte da moça pelo garoto Miles, mas tudo é tratado com sutileza e se encaixa na perfeita simetria visual.

A imagem acima coloca a personagem no centro, do lado de colunas e isso acontece em diversos momentos, além de ser sufocada pelos objetos ela também é prisioneira dos seus próprios desejos. Percebemos ainda uma mudança de figurino drástica, observa as imagens:

Roupa da personagem no meio

Ela começa a se vestir com cores claras quando se habitua à mansão e as crianças logo nas cenas iniciais.

Roupa da personagem final - parte 1

Depois começa a mesclar cores mais escuras, com pequenos detalhes mais claros. Simultaneamente ela desconfia que as crianças estão vendo os mesmos “fantasmas” que ela – incluindo uma mulher de preto.

Roupa da personagem final - parte 2

E no final do filme ela sempre está vestida de preto e se torna aquilo que outrora temia.

A ironia mora no fato de quê, nesse filme, o medo da protagonista se esvai e ela se transforma nele. A mulher de preto que fica observando a Flora na beira do rio, é uma das aparições mais perturbadoras do longa, no mesmo tempo que a própria protagonista se “a mulher de preto”, aos poucos. Essa transformação acontece de forma simbólica, através do seu figurino, não espere uma explicação literal porque em “Os Inocentes” não existe o óbvio.

Justificando então o subtítulo “A obra prima máxima do terror”: “Os Inocentes” pertence à um grupo seleto de filmes que contribuíram muito para o terror e o seu desenvolvimento. Pergunte para qualquer realizador do gênero quais os seus filmes favoritos, certamente esse sempre será lembrado, tamanho é a sua importância para o cinema em geral. Maduro ao extremo e fiel a sua proposta até o ultimo segundo, é a reunião de diversos elementos brilhantes sendo transmitidos através da sincronia de movimentos perfeita, direção magnífica e fotografia intocável.

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CdA #64 – Esquadrão Suicida

Esquadrão Suicida

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Emerson Teixeira convida Rafa Tanaka do Humanoides e Eduardo Pess do Mundo Animado para, juntos, tentarem entender o que aconteceu com o Esquadrão Suicida. Mais do que uma analise, esse episódio assume a responsabilidade de analisar o que deu errado no processo criativo dos personagens e como a falta de planejamento e indecisão pode afetar uma obra, principalmente em um filme tão grande e popular.

 

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Esquadrão Suicida – Qual é o Problema?

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Quando eu escrevi sobre a Arlequina e toda aquela discussão sobre a sexualização da personagem ( aqui ), muitas pessoas me criticaram. Uns falaram que eu só escrevi sobre para ganhar cliques – o que é algo realmente muito estranho, pois se estivesse muito preocupado com acessos certamente não escreveria sobre filmes da Polônia -, outros julgaram a minha opinião pelo fato de eu não ser mulher ou até mesmo por não ler quadrinhos.

Uma coisa, talvez a maior delas, que tentei desmistificar naquele texto é: não tem como julgar nada só por um trailer. E, pois bem, o filme lançou e eu fui ver na pré-estréia, super ansioso, até porque estamos falando do “Esquadrão Suicida” desde que o primeiro trailer foi lançado, aquele com uma versão maravilhosa da música “I Started a Joke”.

Começo

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Antes de mais nada, é importante lembrar que esse filme foi muito bem divulgado. A ansiosidade dos fãs e amantes do cinema aconteceu após o primeiro trailer e alguns comunicados sobre os bastidores. Era perceptível uma união carinhosa do diretor e todo o elenco, as coisas pareciam ter dado certo pelo ambiente criado e, outra coisa legal, era o fato de se tratar de vilões, não mocinhos.

Essa fórmula de “vilões sendo obrigados a realizar alguma missão do bem” não é inédita, já vimos bastante em faroestes, porém sempre atraiu bastante, o ser humano tem fortes tendências a se identificar com os vilões, muito por conta dos seus erros.

Então esperávamos, no mínimo, um filme diferente, que fosse fiel ao que se propôs desde o início e que, eventualmente, pudesse fazer sorrir, através da sua insanidade. Mas hoje, no grande cinema, temos muito mais necessidade em produzir produtos do que ideias e, claro, quando interesses começam a entrar no jogo, tudo muda.

O diretor David Ayer sempre foi muito dedicado no desenvolvimento de personagens, mas nunca excelente. Ele teve, talvez, uma das tarefas mais difíceis de todos esses diretores de filmes de heróis: trabalhar com inúmeros personagens interessantes, apenas com um filme, onde teria que introduzir, desenvolver e concluir.

Os filmes da Marvel, no mesmo tempo que divertem bastante – confesso que eu não me divirto, só me canso – se tornaram um grande problema para quem ama cinema. Por dois motivos, um é extremamente criativo e o outro acontece além da obra. O primeiro problema é a criação e planejamento, existiu um tempo onde os filmes, qualquer filme, era pensado como “um”, eles tentavam fazer uma obra o melhor possível e, a partir do resultado desse planejamento, poderia acontecer de estender para outros filmes. Hoje acontece o inverso, ao invés de pensar em fazer o melhor e mais estável, é pensado no “universo”, aliás, essa palavra “universo” está me causando arrepio. Em um processo criativo, qualquer vinculado a arte, existe – deveria existir – um universo em apenas uma obra.

Com a Marvel deu certo, ok, eles trabalharam duro nisso, demorou muito tempo até que os espectadores criassem um vínculo – espectadores, não fãs, porque quem paga esses filmes são espectadores, independente da “categoria” que você se autodenomina – mas com a DC deu bastante errado. Isso porque existia um lado dos criadores que queriam brincar de ser realistas, mas como ser realista em um “universo” que existe um homem com forças quase ilimitadas que voa? Então existem dois lados, o realismo com o Batman e fantasioso com o Superman, é preciso decidir qual deles será desenvolvido tudo, não é possível que uma, duas, várias mentes joguem a toalha e pare bem no meio.

Esquadrão Suicida

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Sabe quando você quer ser o centro de uma conversa entre os amigos e fica tentando relembrar qualquer atitude épica ou engraçada que teve ao longo da vida? Então, a venda do Esquadrão Suicida foi assim. No começo era muito legal saber o quanto o Jared Leto “achava” que estava doidão, mandando ratinhos para os coleguinhas ( ui! ), mas depois começou a virar um circo.

Não comparando, nada do tipo, aliás, sou fã do Jared Leto ( ator ) e o acho o homem mais lindo desse mundinho feio, mas quando o Heath Ledger embarcou nos estudos para o personagem, não se ouvia maluquices a cada hora que se passava. Ele estudou, incorporou, enlouqueceu e fez. Assim como qualquer outro ator, na verdade. Jared Leto mesmo fez tantos sacrifícios quanto Ledger, e nunca precisou sustentar o seu talento apenas nisso.

Mas chegamos no filme… bem, olhando agora nas minhas anotações encontro coisas como: “uso de músicas maravilhosas com uma frequência inexplicável…”, “apresentações ruins…”, “Arlequina exibicionista e irritante..”, “Coringa inútil…”, “Pistoleiro herói(?)… todos heróis(!?) e por ai vai.

O filme se inicia de modo tão infantil que beira o inacreditável. Apesar de gostar de todas as músicas dos primeiros vinte minutos, a transição das cenas, acompanhadas de vinte segundos de música, me fez ficar desconfortável. A edição moderna, dinâmica, que prometia ser um diferencial, só me causou espanto, parece que largaram um adolescente gamer para editar e foram tomar café, sem nenhum tipo de segunda ou terceira opinião.

E, se tecnicamente o filme é, no mínimo, indecifrável, o seu roteiro é uma grande e maravilhosa piada. A apresentação dos personagens, aliás, segue o ritmo dos cortes bruscos e servem como uma medida desesperada para o famoso desenvolvimento, mas é tão rápido e gratuito que acaba nos desviando do principal: a ideia maluca da querida Amanda Waller em unir esse bando de vilões.

Eu sei que nos quadrinhos funciona, como também sei que na animação da DC também, pois já assisti e é muito boa. Mas há coerência nesses dois casos citados, são bem trabalhados. No filme acontece o contrário. Aliás, o Esquadrão só se reuni por causa da ideia em criar o Esquadrão. O vilão do filme, desconectado também e pouco identificável, está relacionado com a criação dessa equipe.

Se a propaganda era a insanidade, vilões e desprendimento, no filme essa proposta não é concluída, “Esquadrão Suicida” foi covarde, modifica no segundo ato os seus personagens para justificar a continuação da sua operação, mas, fazendo isso, o roteiro esquece aquilo que apresentou, ou seja, recusa o próprio conceito.

Arlequina e Coringa

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O mundo quer saber sobre esses dois personagens e eu vou começar dando a minha  opinião sobre a Arlequina, até para complementar o meu texto sobre a sexualização da personagem:

Eu escrevi muito no artigo – que você pode ler clicando aqui – que era impossível dizer alguma coisa de um trailer. Isso poque houve muitos boatos sobre a roupa da Arlequina e a forma que ela era apresentada. Enfim, continuo concordando comigo mesmo e ressalto, novamente, que se a concepção de figurino dela é uma calcinha, devemos todos aceitar, até porque a atriz, enquanto artista, estava ciente de que teria que se submeter à criações desde o início da carreira. Agora, se é algo que ajuda na narrativa ou não, ai sim podemos opinar, discutir, etc – mas nunca com um trailer!

A Arlequina, interpretada pela Margot Robbie, é aquela personagem que deveria chamar a atenção mesmo quando está no fundo, em segundo plano. Caro leitor, pegue como exemplo um filme popular e recente: “As Caça-Fantasmas”, repare na personagem Jillian Holtzmann e como ela se porta em cena, o carisma da atriz Kate McKinnon é tão grande e sua personagem foi tão bem escrita que o espectador nunca consegue esperar nada normal vindo dela, mesmo em momentos de poucos destaques. Agora, aos que viram, compare com a Arlequina e me responda qual é a mais natural dentre as duas.

Arlequina aqui implora por atenção, parece que o diretor apontou o dedo para a Margot Robbie e afirmou que ela era a melhor atriz da atualidade e que precisava fazer o mais louco que conseguisse, só que sem preparação. Então ela, sozinha, decidiu que se ganhasse ratinhos do amiguinho já estaria louca o suficiente.

Tem uma cena em que há um diálogo, completamente fora de contexto, que citam brevemente a loucura. Ela imediatamente olha como quem diz: “falaram de mim? Em? Em? Porque eu estou muito doidona“. Suas piadas se baseiam em afirmar a sua loucura, como em um momento que, do nada, ela pergunta se não está vendo coisas “porque esqueceu de tomar o remédio“, e, também, infelizmente, mostrar gratuitamente o seu corpo. Em duas cenas específicas – e ruins – a piada que envolve a Arlequina é com planos acompanhando de forma sugestiva a sua bunda, o que é muito pouco para quem dizia se tratar de uma obra especial e provocativa.

Agora, vou partir o meu coração, pois o pior do filme é o coringa, vivido pelo Jared. Depois de toda a tentativa de provocar a ansiedade nos fãs através de brincadeirinhas nos bastidores, o Coringa pouco aparece e quando acontece é motivo de piada. Sua participação é irrelevante, mas muito irrelevante, do ponto de vista de roteiro é uma decisão, no mínimo, ignorante, colocar um personagem que não faz andar a história, apenas serve como uma vírgula.

Servindo como um ruído para o roteiro, ainda é muito mal interpretado pelo Jared Leto, inclusive me causou espanto, pois se trata de um dos melhores atores da sua geração. Ele é, ainda, um artista que sempre soube escolher papeis desafiadores e moldá-los mas, aqui, ele se atém a criar algumas coisas – que não dão certo em nenhum momento – e imitar o Heath Ledger.

O resultado fica tão estúpido que, igualmente, beira o inacreditável. A sua risada – que é alvo de questionamentos em qualquer programa de TV com entrevistas do ator – é horrorosa, parece mais que ele está engasgado e sempre surge de forma pouco natural. Além do mais, ele tem um forte apelo sexual, com certeza de propósito, me fazendo questionar seriamente qual o motivo para isso.

Com “Esquadrão Suicida” eu finalizo qualquer texto ou podcast vinculado à filmes de super heróis, assim, feito com tão pouco cuidado. Esse filme representa os males que essas produções trouxeram para o cinema, soando artificial ao extremo, indeciso e frágil em todos os aspectos. Personagens e tramas interessantes sendo desperdiçadas – como o Diablo e a Bruxa – em troca de exibicionismo e gratuidade. Mas, com certeza, o roteiro do segundo e terceiro já está pronto, o “universo” está sendo trabalhado, mas, vejam só, como pensar no universo sem o seu princípio?

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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A Frente Fria Que a Chuva Traz, 2016

Obs: Hoje, dia 31/07/2016, alteramos a imagem do cabeçalho aqui do Cronologia do Acaso e colocamos o desenho criado pela artista Julia de Andrade. A ideia é fazer uma referência ao filme “Magnólia”, do Paul Thomas Anderson. Agradecemos a Julia, em especial, e recomendamos aos leitores que visitem o seu site para conhecerem o seu trabalho.

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★★★★

A beleza da Bruna Linzmeyer transcende o natural, sua aparência chama a atenção e o diretor Neville de Almeida usa isso à favor da sua mais recente obra. O diretor sempre soube trabalhar as relações de forma, no mínimo, curiosa, e agora, depois de tempos sem um trabalho de grande expressão, ele se mostra muito inteirado na vida dos jovens – interessante que o filme trabalha com a hipótese dos jovens terem se habituado a permanecer em um nível inferior, principalmente no que diz respeito ao objetivo.

O filme segue alguns jovens em um dia, onde no final da noite, eles farão uma festa em uma das favelas do Rio de Janeiro. Cercados de drogas, bebidas, funk e sexo, a obra levanta algumas reflexões sobre essa forma de vida, principalmente de menininhos e menininhas ricas, através de uma personagem complexa chamada: Amsterdã. Ela se prostitui para alimentar o seu vício em heroína e mantém uma amizade com esses jovens, completamente diferentes, apenas para conseguir bebidas, baseados e cigarros.

Há um preconceito gigante, hoje mais do que nunca, com os filmes nacionais. Na verdade isso não passa de uma ignorância pois o nosso cinema é maravilhoso, basta pesquisar um pouco e encontrar diretores fantásticos e artistas talentosíssimos. Infelizmente sempre estaremos cercados de visões conservadoras que, inclusive, relacionam o cinema nacional com a nudez e sexo.

O cinema Sueco foi considerado libertino nas décadas de 50/60/70 e ainda assim é um dos melhores do mundo. Trabalhar a sexualidade e o sexo não é um crime, e escrevo isso porque “A Frente Fria Que a Chuva Traz” traz, em seu vasto conteúdo, extensos diálogos e gestos que sugerem o ato sexual, mas todos eles compõem a intenção de desconstruir a vida dos jovens repleta de vazios e alegrias passageiras preenchidas ignorantemente pelo prazer, seja sexual ou as drogas.

Na vida há, sim, coisas maravilhosas, muitas das quais são consideradas proibidas e/ou tabus, mas a degradação humana está mais vinculada a forma como é feita a nossa transição do que propriamente os erros. Quase todas as personagens nesse filme são despreocupadas, mimadas e sem objetivos, só o fato de ter dinheiro as tiram da responsabilidade de viver, elas se arrastam atrás de pequenos momentos. Por outro lado, em um país de terceiro mundo, quem tem dinheiro são os que continuarão comandando e, sob essa perspectiva, nossa liderança não vai nada bem.

Logo nas cenas iniciais é possível perceber que na laje, onde acontecerá a festa, está repleta de bolinhas, daquelas que vemos em shoppings, todas coloridas, isso remete a infantilidade. Os que se acham “adultos”, não passam de crianças isolada em um mundo de faz de conta, onde a felicidade pode ser comprada. No mesmo tempo que o jovem domina, ele é constantemente dominado.

Outra coisa interessante é que o segurança ( um homem adulto ) que foi pago por um dos jovens ( criança ) é chamado duas vezes ao longo do filme de “ninguém”, enfatizando e generalizando os adultos como seres monstruosos e sem forma, sem riso e disposição para a boemia.

Mas é na analise humana que o filme se sai maravilhosamente bem, Bruna Linzmeyer dá a sua Amsterdã uma intensidade muito grande, utilizando a beleza exótica ao seu favor. A atriz emagreceu para viver a sua personagem e, se não bastasse, a maquiagem sempre borrada e o olhar perdido demonstram uma perfeita sintonia entre o desequilíbrio, loucura e o medo.

Linzmeyer se mostra um verdadeiro talento e, se no ano passado fez o terrível “O Amuleto”, agora consegue demonstrar que, além de diferenciada, é perfeita para papeis intensos. A sua personagem é aqueles “papeis brindes” que todo ator quer ganhar, é de se impressionar que ela o tenha conseguido tão jovem e, mais ainda, feito jus a complexidade do papel.

Qualquer chuva trás consigo uma mudança. “A Frente Fria Que a Chuva Traz” é uma discussão e reflexão de dois mundos, o da inconsequência e da realidade, elementos que serão representados da forma mais improvável em cenas de festas, beijos e sexo. Se o Harmony Korine fez algo parecido com “Spring Breakers”, podemos então colocar o filme do Neville de Almeida do mesmo nível e tão importante quanto.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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