Hill of Freedom, 2014

Hill of Freedom (Jayuui Eondeok, Coréia do Sul, 2014) Direção: Hong Sang-soo

Hong Sang-soo, a cada trabalho, imprime suas características de forma orgânica e elegante, como um maestro, sempre priorizando as relações humanas afim de questionar como o indivíduo enfrenta as mais diversas situações do dia a dia. Na sua essência, lembra o Éric Rohmer, mas o desenvolvimento têm semelhanças com o Woody Allen. Isso sem nunca soar artificial ou cópia. O diretor parece conquistar facilmente o seu espaço e respeito através de honestas crônicas onde temas como as relações, verdade e tempo serão trabalhados de uma forma agridoce.

Em Hill of Freedom ele conta a história de um japonês chamado Mori (Ryo Kase) que viaja à Coréia do Sul para reencontrar uma amiga. Com uma simplicidade enorme, assim como a sinopse sugere, acompanhamos essa trajetória e os seus inúmeros desencontros através de lembranças. É uma jornada de pequenos e importantes diálogos, onde o protagonista, em meio a uma busca, se depara com o inesperado e, nesse processo, compreende a si e seu silêncio.

A maior força da obra é mesmo o seu equilíbrio entre a técnica e o natural. A filmagem, algumas vezes, nos aproxima do objeto em um zoom e cria planos visuais limpos, acolhedores – em perfeita harmonia, inclusive, com a clara fotografia. A sensação que transparece é a de tranquilidade, se trata mesmo de um filme de viagem onde os problemas pessoais e conflitos do protagonista são esquecidos justamente pela sua maturidade diante à vida. Ele se sente um pouco desconfortável nas conversas, mas ainda assim é muito simpático, despertando atenção daqueles que estão ao redor.

A atuação do grande ator japonês Ryo Kase, que vem nos presenteando com grandes performances desde o maravilhoso e popular “Ninguém pode Saber” (2004), é primorosa nesse sentido e colabora diretamente na empatia provocada pela sua imagem doce e misteriosa. Existe muito coração nesse personagem. Suas opiniões são sempre respeitosas e a comunicação acontece de forma delicada, aliás, existe uma importância grande no que diz respeito a linguagem, não à toa o filme é quase todo falado em inglês, visto que o personagem principal não sabe falar coreano. Essa decisão, sem dúvida, ausenta os personagens de domínio um sobre o outro, visto que todos estão falando uma segunda língua, todos estão, portanto, completamente despidos.

A câmera estática representa a segurança que é adquirida conforme os dias se passam, inclusive o tempo é relativo aqui, visto que a narrativa acontece por meio de uma leitura de cartas onde todas estão fora de ordem, portanto, a alma da obra é justamente as lembranças vividas por alguém, cuja interpretação e olhar modificou os lugares e as pessoas que conheceu.

O percurso de encontrar alguém, traz consigo uma infinidade de vírgulas, uma garçonete que se interessa pelo protagonista, após ele salvar o seu cachorro, é a mais evidente. E esse pequeno relacionamento é envolto de doçura, mútuo respeito e empatia. Inclusive, é interessante notar que, à medida que há mais confiança na relação, a câmera se aproxima. Essa barreira criada para representar o turista e os limites do diálogo é excelente pois representa o sentimento universal de estar só, mesmo que rodeado de histórias, vidas e diferenças. Em meio ao trajeto de ir e vir, existe uma quantidade imensa de conhecimentos que se adquire e sente e é essa a única obrigatoriedade da existência: entregar-se.

O final do filme é a conclusão de uma simples jornada, como todas são. A grandiosidade dos movimentos está na visão daqueles que assistem ou descobrem. Dois personagens seguem em rumo a um outro país, os passos seguem uma direção, enquanto o coração teima em enfrentar todas. A delicadeza do simples é investigada por Hong Sang-soo e o resultado se dá em uma obra incrivelmente transparente.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Voltando para Casa, 2014

Voltando para Casa ( Gui Lai, China, 2014 ) Direção: Zhang Yimou

Zhang Yimou é um artista completo. O uso das cores sempre muito inteligentes, unido com uma sensibilidade enorme, fazem dele o maior nome do cinema chinês. Depois de assistir, por acaso, “O Caminho para Casa” (1999) me encantei ainda mais com a profundidade e importância do professor na sociedade, principalmente quando relacionamos com a individualidade. Através de uma mensagem carinhosa do diretor, passei a ter certeza da profissão que seguiria a seguir.

Mas não é em apenas um filme que Zhang Yimou aborda a relação entre professor e aluno, seja representado por dois ou mais indivíduos ou algo pessoal, é constante a aprendizagem como objetivo principal dos seus roteiros. Em “Voltando para Casa” (2014) ele retorna à uma abordagem delicada, repleta de emoções e lida novamente com a aprendizagem, dessa vez ela acontece de uma forma forçada pois um personagem – curiosamente, um professor – precisa se reeducar afim de encontrar maneiras de se aproximar da sua esposa, após ser preso por oposição ao governo chinês em plena revolução cultural, se não bastasse, ele descobre, ao retornar, que ela perdera a memória no tempo em que esteve ausente.

A trama principal pode parecer comum mas é desenvolvida com muito esmero. A começar pela parte visual que, tencionando representar uma história de distância e esquecimentos, além da própria readaptação, se baseia em uma paleta de cores frias; os figurinos também seguem a ideia e, ainda por cima, são perfeitamente alinhados, fechados até onde é possível e em diversas vezes apresenta inúmeras camadas: blusa, cachecol, enfim, transparecendo insegurança diante das transformações sociais e evidenciando um amor fragilizado. Se o figurino e fotografia estão em harmonia, é interessante ressaltar que a palidez só é quebrada quando a filha do casal, uma bailarina, veste cores vermelhas, fortes, de modo a representar os seus sonhos artísticos que, por motivos políticos, precisam ser podados. O sangue das suas lágrimas – jamais exploradas com artifícios fáceis – também são vermelhos. A cor está presente em todos os trabalhos de Zhang Yimou e, aqui, parece ser uma prisioneira, personificando ideais artísticos, opondo-se à opressões criativas e sociais.

As primeiras cenas apresentam os tempos nebulosos que as personagens se encontram, a ausência do marido é sentida em cada expressão da talentosíssima Gong Li – parceira fiel do diretor – e os detalhes vão sendo entregues em doses homeopáticas. Como, por exemplo, o ensaio que a filha do casal principal está fazendo, cujo talento não basta para a escolha do papel principal, visto que o protagonismo passa por uma análise política, que inclui também os seus pais e antepassados. Irônico, também, é perceber que em diversos movimentos da coreografia, as bailarinas se utilizam de uma arma como composição essencial.

O filme parece ganhar proporções maiores quando a mãe tenta reviver o seu amor e se posiciona entre o marido e a filha. A força da mulher, bem como suas escolhas, ficam evidentes e, sem demonstrar muito, entendemos o seu passado e a mensagem poderosa da sua difícil decisão. A tentativa do reencontro com o seu marido, após anos preso, falha e uma passagem brusca de tempo acontece – uma das fragilidades do roteiro, inclusive. A partir desse momento a obra deposita suas atenções na liberdade e retorno de Lu Yanshi e a sua coragem em enfrentar o tempo.

Aceitar a finitude da vida é fácil, perto da visualização e presença diante da morte causada pelo esquecimento. Ir embora ainda perto; morrer existindo. Toda história se perde e a presença fica. Esse tema demonstra vazios da existência que jamais serão superados. A compreensão da finitude é um motivador para a intensidade da vida dentro da rotina; a perca da memória é somente um aviso da natureza sobre a nossa pequenice.

Nesse ponto, o ator Chen Daoming brilha ao compor, em seus olhos e movimentos, exatamente essa aflição. O querer abraçar e não poder, simplesmente porque tudo aquilo que acredita nunca existiu, senão, na sua própria cabeça. Por outro lado, Feng Wanyu ainda se lembra do jovem marido, que prometera há anos que retornará. Com frequência ela o espera e cabe ao Lu Yanshi, simplesmente, estar ao lado; esperando a si mesmo, enfrentando suas memórias e ignorando o presente.

A poesia visual vai de lágrimas caindo em uma antiga fotografia, como símbolo da transição do tempo, passando por luzes em meio a um abraço e grades separando dois amores. É mais uma obra-prima de Zhang Yimou, estruturada principalmente na força dos seus atores principais como veículo para uma perfeita alegoria sobre a distância.

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Do Amor e Outros Demônios, 2009

Do Amor e Outros Demônios ( Del Amor y Otros Demonios, Colômbia, 2009 ) Direção: Hilda Hidalgo

O longa é baseado em um famoso livro do escritor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio Nobel da literatura – o qual comprei imediatamente após assistir ao filme. Aborda a história de Sierva María, uma jovem de cabelos ruivos e longos, que é filha de aristocratas e, após ser mordida por um cachorro com raiva, é acusada pela igreja de estar possuída por um demônio. Caetano, um jovem padre, é encarregado de exorcizá-la, no mesmo tempo que se vê encantado pela beleza de María e se torna um prisioneiro do desejo.

A primeira cena deixa claro a relação íntima que María possui com a morte o que, na juventude, voltará a rondar sua vida por conta dos julgamentos e interesses da igreja. Sua pessoa é desconstruída de modo que se relacione com as agonias do clero em relação à liberdade: a personagem, mesmo doente, aos poucos vai se relevando mais interessada na provocação, começa como uma criança inocente e, aos poucos, vai se transformando em uma jovem que usa a a sua delicadeza e inocência a favor da conquista – ou seria esse unicamente o ponto de vista do padre?

O caminho até atingir essa transformação é chamativo, porém, o desenvolvimento deixa a desejar em relação à grandiosidade da sua história, a sensação que fica – reitero que ainda não tive a oportunidade de ler o livro – é que a obra literária seria o melhor caminho para entrar no universo e compreender melhor as angústias e sentimentos dos personagens.

Contudo, é de se notar a capacidade da diretora em registrar a melancolia de modo sedutor, principalmente em base a sua personagem de longos cabelos ruivos que, vivida pela Eliza Triana, é de uma beleza singular.

Há diversos trabalhos com as sombras e, logo no começo, fica evidente a intenção de aprisionar os personagens, por isso a utilização das grades é de suma importância em cenas cruciais – principalmente aquela que antecede o acidente com o cachorro, a janela da prisão que María é obrigada a ficar enquanto se “cura”, o chão quadriculado que ela se deita e outros espaços curtos que lhe tiram os seus direitos.

A recriação de época é excelente e a inquisição é trabalhada de modo inteligente, pois é utilizado uma história de amor como essência para o desenvolvimento indireto do tema. Apesar do longa soar clichê em diversos momentos, a narrativa chama a atenção e as interpretações convencem. No entanto, é imediato a vontade de ler o livro pois é evidente as fragilidades do roteiro, e essa afirmação definitivamente não é boa quando falamos de cinema, visto que uma obra audiovisual deveria se sustentar por si só e não provocar unicamente a curiosidade de ir além – ao menos em algumas ocasiões, como os comerciais, por exemplo.

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Coro, 2015

Coro ( Chorus, Canadá, 2015 ) Direção: François Delisle

O luto é um processo demorado, talvez represente a maior injustiça de todas e é um claro aviso do universo sobre a nossa finitude. Essa espera pelo depois, bem como a consciência da morte torna a existência mais bela, mais intensa, – ou deveria – mas ainda assim é complicado essa frase quando ela é inserida em um evento particular.

A família simboliza a segurança existencial, um abrigo diante às inúmeras oportunidades de cair; uma mãe doa tanto de si ao filho que, no fundo, esquece das suas próprias limitações e sonhos, tornando-se mestre de um universo inteiro a ser pintado, mas que, por consequência do tempo, desvincula-se da sua essência e experimenta o mundo dentre suas próprias convicções.

Cores vibrantes dão lugar ao preto e branco em “Coro”, dirigido pelo François Delisle. Acompanhamos Irene (Fanny Mallette) que, após dez anos da morte do seu filho, é obrigada a reviver as conturbações do evento, para isso precisa do apoio do seu ex-marido Christophe (Sébastien Ricard) que, juntos, se sustentam e conversam em silêncio suas dores, culpas e vazio existencial; ambos possuem um espaço em branco que jamais será preenchido.

O luto caminha como uma sombra junto com os dois personagens centrais, modificando suas posturas e escolhas diante à vida e, por consequência, também aflige aqueles que estão envolvidos. É uma dor sendo trabalhada em forma de estudo de personagem, principalmente Irene, e esse sentimento é tão forte que não há formas de escapar, portanto, o espectador sente a presença de uma aflição que não têm esperanças de partir, humanizando a sensibilidade e a transformando na maior realidade possível.

A obra se baseia no silêncio e pequenos movimentos para representar um estado psicológico – geralmente Christophe e Irene estão lado a lado, representando justamente o sufoco por não conseguir compartilhar suas depressões, senão, entre eles mesmos; quando os dois finalmente veem os ossos desenterrados do filho, Irene surta e Christophe vai para o canto da tela, simbolizando a sua consciência de culpa sobre o ocorrido, principalmente em relação às consequências emocionais para a vida da sua ex-mulher que, detalhe, ele ainda ama mas não consegue olhar diretamente nos olhos.

Ainda há uma simetria em cada quadro, vale ressaltar que os personagens geralmente são filmados entre objetos, móveis ou paredes, reforçando a ideia de claustrofobia que envolve a todos. A condição da existência oprime o pai e a mãe, eles passam a ser escravizados pelo próprio espaço.

Irene canta em um coral na igreja, algo que exige muita concentração, organização e, principalmente, mútua cumplicidade e aceitação entre os envolvidos, algo que certamente precisará aplicar em sua vida.

Ao longo do desenvolvimento, há preocupações em estabelecer um elo da situação com pequenas reflexões da protagonista, em um plano detalhe, por exemplo, ela toca a cicatriz da cesária; assim como existe algumas alegorias da repetição, a mais profunda é quando Christophe admira o desenho do filho e passa o dedo justamente em um espiral – a câmera move devagar até vermos a totalidade e percebemos que se trata de um caracol – que representa não só os contornos da situação, como também o seu estado emocional, visto que não têm certeza se continua com sua ex-esposa ou volta para o México; e, depois, Irene passa os dedos em uma camisinha usada, repleta de espermas, como se fizesse carinho em um futuro utópico, onde a criação desse uma segunda chance para o amor e vice-versa.

O filme é uma alegoria sobre o abandono, seja literal ou psicológico, em suma, algumas dores não podem ser compreendidas ou mensuradas, senão, por aqueles que as vivem. “Coro” começa sua jornada com essa certeza, envolvendo muita coragem e respeito de modo a contemplar perfeitamente um fato horroroso. A poesia se encontra na simetria visual e no silêncio provocativo, criando uma verdadeira análise sobre o luto e o recomeço.

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Djamilia – A força feminina como portal para o amadurecimento

Djamilia ( Dzhamilya, União Soviética, 1969 ) Direção: Irina Poplavskaya e Sergei Yutkevich

Quem é Dzhamilya? 

Quem é Dzhamilya? onde se encontra a distinção entre mulher e homem, senão, pela separação e dores da guerra? um lado existe a saudade e preocupação; do outro a saudade e o medo de não voltar. O trabalho no campo demonstra uma característica fundamental que isenta às mulher de pensar em seus maridos mergulhados na guerra: preencher suas mentes e esgotar o físico com o trabalho desenfreado. Nesse intervalo, uma doce camponesa consegue sorrir, despertando inveja e curiosidade nos demais por ser, bem, como dizem, livre.

Quem é Dzhamilya? metaforicamente, Dzhamilya é o espírito liberto e entregue à vida como se as horas fossem segundos; é a entidade que mora em cada mulher que se desprende e se rebela contra a sociedade que teima em traçar uma infeliz diferença entre o masculino e feminino, atribuindo ao primeiro a força absoluta no que diz respeito à estrutura de uma relação. Aqui, de forma poética, Dzhamilya e sua força são os perfeitos veículos para uma provocação generalizada, partindo da estranheza das demais mulheres, passando por uma ajuda inconsciente à uma criança a se entender como jovem e finalizando na paixão.

Um processo cru, visceral, poético e agridoce de uma jovem diante de si mesma e a possibilidade de desprendimento.

Essa é Dzhamilya, uma camponesa de cabelos compridos. Trabalha em meio à natureza, caminhando entre as suas irmãs, as flores. O seu marido está na guerra e o único laço afetivo da menina é o seu cunhado, um pequeno menino. Os dois se divertem em um mundo que estranha o sorriso; eles zombam do sacrifício; eles são o que são, compõe rimas com suas verdades e isso basta.

Dzhamilya sente falta do seu marido constantemente…

[…] mas sua força é extrema e o seu coração gigante ao ponto de lidar com todos os problemas de modo surpreendente: amando, compartilhando, brincando, o que a transforma em uma eterna criança sem, com isso, perder a identidade dominadora e inteligente de uma mulher.

Uma obra da União Soviética, baseado em uma novela homônima de Chingiz Aitmatov, a qual o grande escritor Louis Aragon creditou como sendo “a mais bela história de amor de todos os tempos”. E é assim, em uma primeira camada há somente o romance, mas trabalhado com lirismo. O campo, tomado por plantações de trigo, é a perfeita composição do quadro, que possui Dzhamilya como sua protagonista, aquela que traz cor ao preto e branco brilhantemente trabalhado de forma a representar as emoções tristes escondidas em todos na vila.

É irônico o longa começar com uma discussão entre dois adultos – pai e mãe – onde ele obriga Dzhamilya trabalhar e ela se mostra mais flexível. Duas mentalidades opostas, incentivando um artifício que será muito utilizado ao longo de todos os minutos. Diversos caminhos vão surgindo, restando aos personagens fazerem as escolhas dos seus destinos, bem como usar as experiências do passado. Não à toa a história é contada por meio de uma narração – do próprio escritor Chingiz Aitmatov – e simula o garoto no futuro onde, morando em uma cidade populosa, se tornou artista, inclusive todas as suas pinturas remetem as suas inesquecíveis experiências com Dzhamilya, como se ela realmente fosse a musa inspiradora tanto de liberdade quanto de inocência, despertando paixão naqueles que acreditam em suas atitudes.

A fotografia colorida e comum do presente, na cidade, dá lugar ao preto e branco do passado, no campo. Penetrante, assim como as inserções das pinturas do narrador durante os 83 minutos, de forma a contextualizar-nos no olhar do menino e como os eventos impactaram e serviram como uma ponte entre ele e o seu amadurecimento.

Desde os primeiros momentos que a protagonista é apresentada, as suas atitudes, todas vinculadas ao desprendimento, ficam claras: um homem a agarra dizendo “onde eu coloco os meus pés é o meu caminho; e a mulher que eu agarro é minha” e ela prontamente o empurra, afastando qualquer opressão e estilo de vida conservador, ela fora criada para aceitar mas se transformou em uma inconformada, rebelde e indomável.

“É difícil explicar o que houve com Dzhamilya. E como ela desejava sua alma. Eu corria atrás dela, a olhava. E assim, eu também me livrava da tristeza. Então eu não sabia que, na minha mente surgia o quadro, que depois eu chamaria de “a mulher que corre pela campina”

A trilha sonora pauta bem o clima convidativo. A sensação é de empatia imediata pela certeza da protagonista, sua maneira espontânea de enfrentar uma situação caótica. É de uma esperança e choque, ao mesmo tempo, como se alguém nos desse um soco no estômago de modo a reconhecermos que, no pior momento das nossas vidas, sempre haverá a possibilidade de dar pulinhos sobre os problemas e rir, se encantar, apaixonar-se e fugir… para depois começar tudo de novo.

Quando Dzhamilya ri, obtém como retorno uma indagação: “por que você ri? traz boas notícias?”, a heroína sabiamente responde: “simplesmente sou feliz”.

Quando um outro personagem aparece, Daniar, um amor surge. Ele, tímido, a observa e absorve mesmo que distante a sua energia, enquanto a menina/mulher o irrita de diversos modos, culminando em uma cena em que troca o saco de cereais por um mais pesado, obrigando Daniar a carregar cem quilos nas costas enquanto sobe uma escada. A brincadeira passa dos limites e a culpa se faz presente, principalmente pelo fato de Dzhamilya saber que o Daniar ficou com problemas nas pernas após retornar da guerra. O sofrimento do homem calado, carregando a sua maldição, é demonstrado como um sinônimo visual da coragem: a filmagem chega a inverter, de modo que toda a normalidade se perca.

Brilhantemente dirigido – a força extraída de todos personagens e figurantes é sublime, além da composição das cenas externas – e atuado por Natalya Arinbasarova que, com toda a sua beleza, dá a sua personagem uma doçura enorme, que certamente funciona muito bem para o rápido encanto de quem assiste.
A cena final apresenta um cavalheiro, cavalgando sobre um cavalo branco, como um príncipe. Ele persegue um cavalo negro, indomável, assim como Dzhamilya. A mensagem é pura, ousada e atemporal, uma vida sem medos, incertezas e arrependimentos, sendo transmitida da forma mais inteligente possível. Como conclusão, é um dos “maiores filmes de amor de todos os tempos”.

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Tanna, 2015

Tanna ( Idem, Austrália, 2016 ) Direção: Bentley Dean e Martin Butler

“Tanna” é uma encenação de algumas pessoas da tribo Yakel, situada em uma remota ilha do Pacífico, sobre um caso real de amor proibido onde uma jovem apaixonou-se pelo filho do chefe da tribo – consecutivamente, seu sucessor – mas fora oferecida como esposa ao clã inimigo, como uma forma de anunciar a paz, portanto, a moça se vê presa entre os seus próprios interesses e o bem estar da sua comunidade.

Dirigido por Bentley Dean e Martin Butler – ambos possuem experiências com jornalismo e documentários – fica claro desde os primeiros minutos a intenção de mesclar a realidade com ficção de uma forma pura, sustentando-se na paisagem devastadora da ilha que traz, de brinde, um vulcão que protagoniza as mais belas cenas do filme.

É uma experiência catártica quando a opção pela construção narrativa passa pela utilização de não-atores, aqui acontece isso e é realmente surpreendente pensar que nenhum dos “atores” sabiam nem ao menos o que era uma câmera e, mesmo assim, aceitaram participar do projeto. É preciso uma cumplicidade e entendimento sobre o mecanismo, algo que partiu, sem dúvidas, de uma relação íntima que durou meses ou anos, entre os realizadores e o povo. Tudo está estreitamente sincronizado no que diz respeito as performances, inclusive não parece haver espaços para improvisos, o que certamente causa impacto negativo em algumas cenas.

O trabalho visceral se mostra competente em um primeiro momento. É motivo de emoção tamanha sutileza, crianças atuando de forma desprendida, senhores pronunciando curtas, mas sabias palavras, etc, mas a sensação com o passar dos minutos é de pura enganação, até porque a realidade é uma ponte fácil para a empatia imediata.

Antes de mais nada, o fato de usar não-atores é comum em cinemas que priorizam a mescla entre documentário e ficção, recomendo o cinema iraniano para ilustrar como tal opção pode ser brilhantemente utilizada quando uma direção segura e inteligente se faz presente, algo que definitivamente não acontece em “Tanna”.

Primeiramente, o roteiro parte de uma premissa clichê na história mundial. A história do amor proibido, hoje, precisa ser trabalhado de formas diferentes, sendo sustentado de outras formas para, na conclusão, a mensagem não ser óbvia. A direção pouco abusa nesse sentido, o limite que separa documentário da ficção não é trabalhada de forma a causar o impacto, a simplicidade se torna uma interrogação bem grande no centro da tela e os personagens não são bem desenvolvidos. A angústia pela qual deveríamos enfrentar junto com a protagonista ou a relação de afeto e proteção extrema que ela possui com a irmã, em momento nenhum é explorado, reforçando uma abordagem preguiçosa que se apoia exclusivamente na suposta realidade. Oras, não seria melhor fazer um documentário?

A fotografia, sem dúvida nenhuma, chama a atenção, principalmente pela utilização inteligente do vulcão que motiva os personagens a uma passagem espiritual, seja de união ou desprendimento.

É uma obra necessária aos amantes de obras orgânicas, que se baseiam nas paisagens para compor a naturalidade e identificação. No entanto, a sensação que fica é que uma ideia brilhante é desperdiçada com um desenvolvimento pouco corajoso, há uma dedicação em organizar as atuações de modo que fiquem aceitáveis, a filmagem acompanha de modo feliz o movimento dos personagens, mas, em resumo, a essência é esquecida, exibindo um roteiro fraco que é afetado por uma direção que tenta ser grandiosa demais, caminhando em direção oposta à proposta inicial.

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Katatsumori, 1994

Caracol ( Katatsumori, Japão, 1994 ) Direção: Naomi Kawase

Naomi Kawase troca o termo documentário por memórias. O início da sua carreira, após fazer um curso e dar aulas de fotografia, é toda voltada para os registros viscerais de sua vida. Uma câmera na mão e muito coração dentro do peito. O abandono do pai e opção da mãe por entregá-la à adoção estão sempre presentes nos seus filmes, bem como a força da natureza que aprendera com sua “vovó” – assim chamava a sua mãe adotiva.

Em “Caracol” Naomi se dedica a filmar sua avó com uma simplicidade monstruosa. É possível ouvir até os ruídos da sua filmadora, algo bem amador e pessoal, como um diário audiovisual procurando refúgios em imagens super próximas do objeto principal, de forma a aproximá-lo da autora, tornando-o eterno.

Seguimos a vovó e seus cuidados atenciosos com a terra, enquanto divaga sobre questões cotidianas como passado, preocupações e relação com sua filha. O close-up no seu rosto é constante, trazendo até mesmo um leve desconforto para ela que, prontamente, aceita a condição de ser estudo da Naomi, existe uma compreensão e fé nos talentos da, até então, jovem diretora de 24 anos.

Existe magia em cada lar, sentimentos incompreensíveis de afeto em cada família e isso é trabalhado aqui. Logo no início vovó fala com felicidade dos seus oitenta e cinco anos, no mesmo tempo que salienta em dado momento que viverá até os cem para ver as realizações de sua filha. Faz uma lista de possíveis coisas – sempre haverá a inclusão de filhos, como o ideal perfeito da continuidade da história – e, logo em seguida, pede para Naomi filmar a si mesma. Me pego pensando o quão simbólico é isso pois é justamente através da filmagem que a diretora se imortalizou na história do cinema.

As lembranças são todas as riquezas que temos, que bom poder viajar no tempo e viver um momento conforme a sua imagem. “Caracol” se trata de uma obra tão particular, que chega a incomodar em certo ponto, como se fosse uma intromissão. A sensação é de estarmos invadindo uma casa aleatória e roubando uma pequena, mas especial, caixinha de lembranças.

Vovó trata a terra com a mesma dedicação que têm com Naomi, planta de modo a criar vida e se questiona indiretamente. Ela se preocupa com as filmagens, por registrá-la sem maquiagem e perto demais do seu rosto. Chega a dizer: “…essa cara velha e enrugada, sem maquiagem” e é justamente nesse momento que pega a filmadora e registra sua filha, a diretora, ainda bem nova e cheia de esperanças. Ainda sobre sua imagem envelhecida, caminhar fragilizado… quando ela questiona a falta de maquiagem, o espectador inconscientemente responde: é justamente a sua naturalidade que a torna a senhora mais linda de todas.

É de se notar que a comunicação entre as duas, apesar de partir da pureza e do mútuo respeito, percorre alguns momentos de timidez, como uma pergunta da vovó onde ela questiona se sua filha a ama. A resposta, em forma de poesia visual, acontece em uma filmagem em off através da janela, distante; os dedos da diretora fazem carinho na vovó através do vidro, como se estivesse sempre cuidando dela, apesar de não ter forças o suficiente para demonstrar em todos os momentos.

O sussurro no final, com a frase “boa noite”, é de partir o coração. Um momento de realidade se intromete no processo de contemplação da beleza. Todas histórias, com seus amores e decepções, dependem de uma boa noite de sono para se tornarem grandiosas. Naomi reflete isso e o faz de forma sublime, respeitando as suas imagens e sua musa, mas sem esquecer que tudo vai embora, até mesmo a jovem diretora, com toda a sua inocência e insegurança.

Existe, apesar de algum amadorismo, – qual verdade não é, afinal – um planejamento visual feliz. Mas o documentário se destaca pela força metafísica do seu objetivo: imortalizar uma pessoa, diálogos, expressões e carinho. Naomi guarda sua vovó e cabe ao espectador tentar fazer o mesmo.

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A Chave, 1986

A Chave ( Kelid, Irã, 1986 ) Direção: Ebrahim Forouzesh

A sétima arte é uma entrada para a reflexão do comum. As possibilidades são imensas, pois a intenção é a imortalização das imagens, algo que o Homem tenta desesperadamente desde os primórdios da sua existência. É como se o conforto do ser fosse a materialização audiovisual das suas lembranças ou sonhos, transformando o inconsciente em algo palpável; sendo possível ver, ouvir e sentir constantemente os seus maiores sonhos e medos. Essa ideia pode soar como um conto de fadas – tenho minhas dúvidas se não o é – mas, na realidade, podemos denominar essa necessidade como “cinema”.

Quando jovem olhei dentro da minha própria alma com o cinema iraniano. E, assim, fui crescendo ao ponto de me tornar o que sou hoje. Nem sei mais se sou jovem, homem, mulher ou criança, a única certeza que tenho é que o meu fascínio por esse cinema só aumentar com o passar dos anos e, a cada minuto que passa, ganha diversas justificativas. A minha visão cinematográfica passa pela humanidade e intromissão do alheio, portanto, a identificação é imediata quando uma obra audiovisual oferece o simples e compõe sua história com o real. Essa narrativa geralmente, por mais frágil que seja, acompanha o espectador por uma jornada incrível de catarse.

“A Chave”, dirigido por Ebrahim Forouzesh e roteirizado pelo mestre Abbas Kiarostami, é mais uma prova que sensibilidade e simplicidade são grandes amigas, quando falamos sobre cinema iraniano. A história é sobre um garoto de quatro anos chamado Amir Mohammad que acorda em uma manhã e vê sua mãe saindo e trancando a porta, deixando-o junto com o seu irmão, ainda bebê. Diante da demora da sua mãe, o menino se vê preso e precisa da ajuda dos vizinhos e da avó para conseguir abrir a porta.

É engraçado assistir filmes como esse e estudar a sua narrativa, aparentemente fácil, de modo a compreender as camadas. Em “A Chave” não temos um vilão que não seja a própria adversidade. A mãe que não retorna para casa é mais um elemento de dificuldade, mas nunca se faz necessário a discussão sobre os motivos que a levaram a tomar tal atitude, simplesmente porque a história é tão bem escrita que, mesmo sem conhecê-la, sabemos que a figura da mãe é atenciosa e protetora, portanto, algo terrível deve ter acontecido com ela. Mas tudo é sugestão.

É necessário existir um grande grau de confiança no roteiro para ocultar explicações que facilitariam a compreensão sobre os acontecimentos. Nesse longa, portanto, a única coisa que importa é a criança e como qualquer decisão ou movimento, aparentemente simples para um adulto, se torna grandioso e difícil para um ser em formação. O protagonista ainda se vê preso entre as tarefas afim de sair do apartamento e a atenção e carinho ao irmão, por vezes chega a dar mais atenção à criança do que o perigo que corre – tem uma panela a ponto de explodir no fogão, o que gera bastante tensão.

Não à toa, logo nas cenas iniciais, Amir Mohammad alimenta com cuidado o seu passarinho enjaulado, representando a situação que se encontraria posteriormente. É de uma poesia incrível, pois se trata de uma linguagem documental, câmera estática acompanhando as decisões e detalhes de alguém que, na maioria das vezes, é pouco visto.

As filmagens exteriores e, por consequência, os outros personagens que aparecem, sempre remetem aos adultos tentando ajudar os irmãos presos. Por ironia, a ajuda é cercada de dificuldades e, mesmo sendo mais velhos e sábios, pouco fazem diante à situação.

O filme é mais uma prova da qualidade do cinema iraniano, nos faz pensar com tranquilidade nas adversidades e como elas podem mudar conforme as limitações.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Moonlight, 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar ( Moonlight, EUA, 2017 ) Direção: Barry Jenkins

Quando o cinema consegue explorar personagens que são “errados” ou mantêm uma relação íntima com o erro, é realmente impressionante. Esse erro pode ser motivado por uma busca interior, talvez como um preenchimento das ambições mas, aqui, é pelas circunstâncias, o que certamente acrescenta ainda mais no impacto por conta de uma vida simples, afetada por diversos fatores como o descobrimento da homossexualidade, falta de carinho e vício em crack. Uma vida prejudicada pelo meio e pelos adultos, nasce com uma maldição, como se estivesse, desde criança, predestinado a sentir o castigo da mãe e buscar ser forte em uma condição que sussurra constantemente em seus ouvidos que irá cair; uma vida heroica por aguentar um soco do amigo/amante no rosto, cair e levantar, encarando o perigo e sendo, por ele, acompanhado em uma trajetória desequilibrada.

Ritmada por um azul melancólico que emerge lamentações e uma trilha que suaviza a calamidade, acompanhamos Black em três fases da sua vida que, por consequência, refletem bem os três atos do filme. O garoto, jovem e adulto enfrentam as adversidades da vida e das suas escolhas, sempre acompanhado da tentativa voraz de fugir da criminalidade e do preconceito sobre a sua opção sexual – que jamais é trabalhada com afinco, pois o mundo assim exige.

Existe poesia no desenvolvimento lento dos personagens, principalmente do protagonista. Cada segundo é a prova de que a maior capacidade do jovem diretor Barry Jenkins é conduzir os movimentos sem fazer nenhum tipo de julgamento, seja qual for a ação dos seus heróis. Isso dá a possibilidade de trabalhar com total respeito temas como condição precária de vida, usos de drogas, homofobia etc. Outra possibilidade real e bem exercida aqui é a sugestão – diversos olhares e silêncios respondem todas as perguntas do espectador, não se faz necessário um grande depoimento ou desabafo, até porque, se acontecesse algo assim, contrariaria a própria personalidade calada do protagonista.

O personagem principal é dividido em três partes e os nomes fazem referência ao momento: Little, Chiron e Black. Os nomes determinam o estágio e aquilo que irá enfrentar, o mesmo personagem se fragmenta ao ponto de se transformar totalmente fisicamente – claro, três atores o interpretam mas, de forma maravilhosa, todos se expressam da mesma maneira, fazem uso de algumas características fortes como as mãos mexendo nos cabelos e o olhar sempre permanece tímido e sensível, mesmo que o terceiro ator (Trevante Rhodes) seja grande e forte fisicamente, externamente, sua alma continua igual à primeira fase da vida, o mesmo garotinho assustado, sendo auxiliado e respeitado por um desconhecido e, quando questionado, demonstra ter dificuldade com os sentimentos, soando monossílabo.

Complexo na ideia e simples na execução, a forma orgânica que acompanhamos essa jornada é especial, existe uma sincronia entre a fotografia e a mensagem, assim como a sensação de conforto e medo ao assistir os movimentos de um herói como diversos que existem por ai. A diferença crucial é a sua verdade, transmitida por atuações espetaculares que traçam com perfeição o caminho árduo de uma existência sem amparos, sendo obrigado a sobreviver e manter-se forte, mesmo em meio à desordem.

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A Corrupção, 1963

A Corrupção ( La corruzione, Itália, 1963 ) Direção: Mauro Bolognini

Dois lados. “A Corrupção” conversa sobre os conflitos de dois lados, extremos em suas necessidades, mas distantes no que diz respeito à manipulação. Dirigido pelo excelente Mauro Bolognini, conta a história de um jovem chamado Stefano Mattoli que, depois de terminar a escola, se vê desesperado porque terá que ocupar um lugar de destaque na empresa do seu pai. Em contraste com essa infeliz realidade, ele deseja virar padre. O seu pai não aceita e o convida para uma viagem em um barco, chama também a linda Adriana (Rosanna Schiaffino) para seduzir o seu filho, de modo a colocá-lo contra suas próprias convicções.

O longa começa na sala de aula, um local que exerce grande influência sobre a vida de qualquer jovem. O professor afirma, sem pestanejar, que só existem dois lados no mundo adulto, o dos capitalistas e marxistas e ainda acrescenta aos alunos que, dada as suas condições financeiras, todos já sabem a qual lado pertencem. É de uma mediocridade esse comentário, que fica evidente inclusive no estilo de filmagem, algo frontal, cadeiras alinhadas e direcionadas.

É tanta ordem que o protagonista, Stefano Mattoli – interpretado pelo ótimo Jacques Perrin – decide ser padre. Recusando o dinheiro que lhe é comum e também a política, acusa o seu pai de arrogância, mas não os ricos. O filme é interessante pois em nenhum momento expande as questões para outras histórias, o problema aqui é Stefano, portanto existe um respeito no que diz respeito a analise crua sobre um menino tendo que lidar com o seu seguro futuro e todas as limitações que essa vida traz.

Algumas decisões sutis do diretor são tão charmosas que deixam o ambiente mais aprazível, encurtando os caminhos e sendo direto nas propostas filosóficas ao, por exemplo, filmar uma missa sob os olhares de Stefano e, mais ousado ainda, é fazê-lo em plongée – ou seja, é como se estivesse jogando com o futuro, desesperado tentando encontrar uma maneira de fugir de um destino cansativo. Não à toa as pessoas na igreja vestem preto ou branco, quase como um jogo de xadrez.

Tudo aqui será trabalhado entre dois caminhos. O pai é antagonista e egoísta, privando o sonho do seu filho. No mesmo tempo que, em um primeiro momento, sua preocupação e insegurança são altamente compreendidas. O pai ainda sente que é necessário passar todas as mensagens em pequenos avisos sobre a vida para o seu filho de modo que relacione com a sua própria experiência profissional, por isso frases como “nessa vida uns mandam e outros obedecem” são importantes para demonstrar a visão rudimentar do personagem.

A aparição de Adriana na trama funciona como uma quebra dessa dança entre opostos. Ela se apresenta no meio de dois extremos. Rosanna Schiaffino é excelente na interpretação forte que dificilmente passa despercebida tamanho carisma, simpatia e beleza. É a personagem que também reflete o desejo e indecisão do jovem protagonista, de modo a jogá-lo contra sua própria fé e esperança. Inclusive é citado algo sobre o pecado original, bem oportuno.

Um ser instruído a viver e não pensar. Alguém que conquistou tudo assim que nasceu mas se sente incomodado com tamanha facilidade e com vergonha pela corrupção que envolve essa conquista. O pai é feito de fatos e o filho é feito de reflexões existenciais, duas dimensões diferentes e que, por ironia, dependem uma da outra.

“A ciência matará a poesia”.

emersontlima

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