Entendendo o filme “A Bruxa” – Por entre o satanismo, ignorância e desprendimento

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Esse texto não se trata de uma análise crítica sobre “A Bruxa”, mas sim de uma investigação dos detalhes de modo a relacioná-los com a história da igreja católica, bíblia, filosofia e satanismo. Ainda por cima, visa auxiliar aqueles que tiveram e ainda têm dificuldades para compreender o filme. Afinal, o melhor da arte é estar disposto a discutir as inúmeras leituras e interpretações que podem ser feitas.
Se você, caro leitor, se sente ofendido quando o assunto é religião, talvez prefira a crítica do filme, escrita poucos minutos após a sessão. Clique aqui.

Eu ainda me espanto com a quantidade de pessoas que detestaram o filme “A Bruxa”. Na verdade, o meu espanto parte das justificativas que são dadas para a banalização da obra. Muitos afirmaram se tratar de um “filme que não quer dizer nada“, que “não chega a lugar nenhum” ou até mesmo escreveram diretamente que tinham dúvidas se era realmente um filme(?). 

Acho completamente compreensível que o filme não tenha agradado à todos, isso se deve ao fato da pretensão. Em nenhum momento o diretor pretendia ser aceito e entendido por todos, sabia exatamente a grandiosidade dessa ousadia. Sim, existe a perspectiva daqueles que acompanham exclusivamente as propagandas e, realmente, foram muito mal na venda do filme como mais um de sustos. Porém, ficou sempre muito claro aos olhos treinados que a obra em questão se utilizaria do terror mas nunca se tornaria escravo do próprio gênero.

O que realmente é estranho são grandes sites e seus respectivos “formadores de opiniões” divulgando ódio para com “A Bruxa”. Com argumentos tão infantis que beiram o inacreditável. Então esse texto é, ao mesmo tempo, um estudo particular e um convite a todos que não entenderam o filme e que estão dispostos a tentar. Abordarei alguns pontos que, pessoalmente, considero fundamentais para a compreensão de alguns dos inúmeros símbolos que o filme aborda subliminarmente, principalmente os relacionados à opressão religiosa e algumas linhas de pensamento que priorizam a liberdade do homem, como o satanismo. Mas estou, enquanto escrevo, livre de qualquer preconceito e espero ansiosamente que você, caro leitor, faça o mesmo. 

Parte 1 – Qual o motivo da incompreensão?

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É justo que eu deixe claro, antes de mais nada, que todas as informações inseridas nesse texto servirão para acrescentar na compreensão dos símbolos do filme. Mas isso não quer dizer que é preciso saber todas e mais algumas para entender. Quando eu fui assistir o filme no cinema, as pessoas vaiavam e faziam piadas, esse desrespeito só pode partir da ignorância. Não existe outra explicação.

Veja bem, ignorância não é ser burro. Parte de um não conhecimento sobre determinada área, portanto, absolutamente comum. É comum não entender, o problema é quando você age com preconceito e/ou se acomoda na posição de não saber e propaga isso como algo legal.

A expectativa é a maior vilã da experiência cinematográfica. Por isso, indico para todos parar de ver trailer, ler sinopse, enfim, qualquer coisa que faça com que você crie expectativas sobre determinada obra. Temos que aprender a encarar o cinema como arte e não como uma prostituta, onde nós pagamos e esperamos que tudo esteja dentro daquilo que acreditamos/esperamos. O nosso “acreditar” depende exclusivamente do senso de humor e o nosso senso de humor costuma mudar bastante. Então encare o cinema como uma linda e profunda oportunidade de aprender, nem que para isso precise ler mais, conversar mais ou até mesmo escrever mais.

“A Bruxa”, logo nas cenas iniciais, deixa claro que irá inverter e desconstruir o gênero terror. Geralmente temos em filmes do gênero uma fórmula pronta, principalmente – mas não somente – no que diz respeito ao vilão da história: sempre colocam o demônio como causador de todos os problemas. Se não é o demônio, é aquele que não segue as normas padrões imposta pela sociedade. Talvez um psicopata, infiel, herege, ateu, cético…

Mas “A Bruxa” no primeiro minuto se recusa a aceitar essa condição e simplesmente diz “não” ao espectador. “Não, vocês não terão essa fórmula. Vocês verão agora o que acontece quando um filme de terror tem como o seu grande vilão o Deus que muitos de vocês amam”. Pronto, foi justamente por essa inversão que o filme causou tantos espantos. Inconscientemente todos na sala perceberam que o filme estava atacando a fé, com isso, todos aqueles que acreditam em Deus se sentiram, de cerca forma, afetados. Se sentir afetado assistindo esse filme é completamente normal, o problema é quando o nível de incompreensão atinge o tamanho monstruoso e aparecem pessoas rejeitando de todos os modos o filme e, como escrevi anteriormente, agem com desrespeito, brincando nas sessões e prejudicando a experiência de pessoas que, como eu, estavam boquiabertos com a quantidade de informações que aconteciam.

Parte 2 – Idade Média e o sobrenatural

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Vamos começar com um momento crucial da história da humanidade, principalmente quando relacionado com a religião: Idade Média. A igreja católica, ao contrário do que se pensa, não se tornou extremamente poderosa e influente de uma hora para a outra. Até atingir uma base incrivelmente sólida, existiram diversos problemas e fatos que impediram o seu avanço total.

A mescla com as religiões politeístas contribuíram muito, de diversas formas, para a construção do que temos hoje nos conceitos da igreja. Principalmente na postura de atribuir tudo aquilo que é desconhecido como sendo do demônio ou satânico.

Entre a Alta e Baixa idade média aconteceram bastante mudanças. A Europa estava em pleno declínio a beira da total loucura. Existia uma urgência, a vida simplesmente era sufocada por essas mudanças e descentralização, seja política e de crenças e como esses dois fatores se relacionavam entre si.
O trabalhador, preso a sua terra – lembrando que a “escravidão” dá lugar a “servidão” que, a grosso modo, se trata do homem escravo das suas próprias terras, ele quer estar preso e isso se deve a uma série de interesses, incluindo a própria proteção – tinha a expectativa de vida muito baixa, portanto a ideia de ser feliz em uma próxima vida era muito mais real do que acreditar que poderia, algum dia, ser feliz nessa vida terrestre. Se analisarmos friamente a religião hoje em dia, inclusive, percebemos que a ideia de vida eterna vêm aos poucos mudando, há, hoje, uma supervalorização da vida aqui na terra; A ideia do famoso “carpe diem” vai de desencontro com o que prega a bíblia, que deixa muito claro que o nosso propósito real é a próxima vida.

Além da vida dos trabalhadores ser extremamente vinculada com a religiosidade, o medo movia as famílias também. Tudo aquilo que estava ao redor das suas terras era o local onde o mal existia. Não à toa a crença em seres fantásticos, bruxas, demônios, espelhos mágicos etc. Só os guerreiros e, principalmente, o clero, detinham o poder e coragem de ir além e lutar contra essas forças do mal. Percebam que, ao impor esse medo do sobrenatural, a igreja controlava tudo e todos.

Voltando as famílias dos trabalhadores, existia muita superstição, por exemplo: se um corvo pousasse na sua casa, com certeza eles atribuiriam isso a aproximação da morte. Você, caro leitor, deve se lembrar que aparece um corvo no filme “A Bruxa” em uma cena crucial, não é? Essa cena é justamente o pontapé para uma série de mortes que acontecerá na família.

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Agora que mencionei o corvo, pense nessas possíveis interpretações sobre pequenos  detalhes do cotidiano na época como um animal, floresta, enfim, e tente encontrar no filme alguns desses elementos. Em “A Bruxa” tem a floresta, corvo, coelho – que, em suma, representa vida e está atrelado também com a curiosidade principalmente após o lançamento do livro “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll – e, por fim, e talvez mais importante, em determinado momento, na floresta, existe uma referência direta à “Chapeuzinho Vermelho“. Essa referência acontece quando a “bruxa” aparece para Caleb, extremamente sexualizada, e o beija. A resposta para essa referência pode ir de encontro com a origem do satanismo. Explico a seguir:

Parte 3 – Satanismo

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Em plena Idade Média, um grupo do Sul da França contestou corajosamente ou insanamente a igreja e vários dos seus conceitos. Inverteram alguns valores e, por isso, são considerados por alguns pensadores como os primeiros hereges da história. Esse grupo ficou conhecido como “cátaro”. Eles foram a sociedade secreta mais relevante da Idade Média e, inclusive, preste bem atenção pois vamos fazer aquele jogo de relacionar com o filme novamente, chamavam a Igreja Católica de “Igreja dos Lobos“. No filme a família acredita que o lobo pegou o bebê Samuel, portanto, diante a essa leitura, podemos trocar o lobo pela igreja/religião. A fé monstruosa e desequilibrada ataca como um câncer e vai sugando cada alma boa e pura que existe naquela família. Claro, difícil é saber o que seria uma “alma boa”.

No conto clássico de Chapeuzinho Vermelho, a menina caminha por entre a floresta e tenta, de todos os modos, escapar das garras do lobo mau. Como se quisesse fugir dessa prisão e ser livre. A aparição de uma bela mulher com capa vermelha no filme não é por acaso, há outra inversão de valores: Caleb é a menina frágil e Chapeuzinho esconde um lobo em sua veste. No mesmo tempo que essa cena deixa algo aberto: Talvez, de fato, tenha acontecido uma relação sexual entre Caleb e Thomasin e o lobo seja a representação fiel das angústias do menino em lidar com o gozo.

Continuando a história do satanismo, é preciso concluir que a inquisição foi criada justamente por causa dos Cátaros. Como uma forma de combater aqueles que pregassem contra qualquer coisa que a Igreja afirmava. Houve, inclusive, uma cruzada apenas para converter os Cátaros, o problema é que a distinção entre eles e os católicos era impossível, parte daí a frase “Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus!”. 

Bem, na Idade Média temos a formação da contradição, mas é no Renascimento que o Satanismo ganha forças. É preciso ressaltar, inclusive, que para a Igreja absolutamente tudo que a contrariasse era considerado Satanismo, mas isso acontece até hoje em dia, imaginem na época.

O Renascimento, como o próprio nome sugere, vêm para combater a Idade Média e uma infinidade de opressões, esse desprendimento provém do conhecimento. O homem passou a direcionar a sua atenção para as filosofias e artes, o que evidentemente sempre libertou a humanidade.

Foi no Renascimento que surgiu uma importante linha da filosofia chamada “Renascimento Humanista” ou “humanismo”, que basicamente coloca o homem como centro do universo. É de se notar que nesse tempo já havia grandes questionamentos sobre Deus, principalmente relacionado a sua onipotência, onipresença e oniciência. Além do mais, era só ler a bíblia e perceber que havia uma diferença entre o Deus do Velho e Novo testamento, um se relacionava intimamente com o ódio e o outro com o amor infinito.

Todas essas questões aproximou a figura de Satã do desprendimento. Shaitan, do hebraico, significa adversário. No filme “A Bruxa” a mãe se compara com a mulher de Jó. Resumidamente, na história bíblica de Jó, ele é uma isca para uma prova de que o amor do homem é verdadeiro e infinito. Satã fala para Deus que se tirar tudo do homem, então ele perderá a sua fé. Mas Deus prova o contrário com um homem amável e dedicado chamado Jó. A mulher de Jó clama para a revolta do marido para com Deus, mas ele se mantém mais calmo.

Então sua mulher lhe disse: Ainda reténs a tua sinceridade? Amaldiçoa a Deus, e morre. Jó 2:9

A mãe, no filme “A Bruxa” também perde a sua fé, após o desaparecimento e morte de três filhos. Mas o pai se mantém distante, relacionando a sua dor constantemente com a vontade de Deus. Na época isso era algo altamente comum, porém hoje, com os nossos olhos, todos sabemos que as coisas que acontecem, incluindo a própria praga que assola a plantação, poderia ter sido resolvida de outras maneiras, principalmente se não houvesse a insistência. Mas ai entra o conhecimento, hoje a psicologia nos mostra o que é “histeria coletiva”, “epilepsia” e outras doenças que estavam extremamente vinculada com demônios. E, nesse ponto, “A Bruxa” incomoda muito, pois existe essa verdade exposta de todos os maus que a religião causou nas famílias devotas da época.

Voltemos ao Renascimento… Satã, por questionar Deus se tornou um símbolo imediato de algo que o humanismo pregava. E, a partir dessa filosofia, começaram a existir outras linhas de pensamento, incluindo o próprio satanismo que vai ser modificado no século XX com Lavey.

Parte 4 – Entendendo “A Bruxa”

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Primeiro é importante ressaltar que as bruxas, na Idade Média, eram na maioria mulheres. Essa classificação era colocada naquelas que faziam remédios caseiros, se rejeitavam a casar, eram muito bonitas e despertavam desejos em homens de famílias, enfim, tudo isso fazia uma mulher ser condenada à fogueira por ser bruxa. Elas passavam por uma série de torturas e eram obrigadas a confessar o seu amor pelo demônio.

Então a bruxaria, assim como o satanismo, está diretamente ligada com o desprendimento. E o filme de 2016 usa isso para compor a ideia principal do roteiro: Não se trata de um filme de terror e sim um drama sobre a opressão religiosa, preconceito para com a mulher e ignorância.

Percebam que as pessoas que vaiaram, brincaram e agiram com desrespeito, fizeram basicamente a mesma coisa que o filme prega como o mal. A ignorância é a ferramenta que dá espaços para a manipulação e a única coisa que pode salvar um ser desse demônio – o maior de todos – é o conhecimento. Portanto, sim, Thomasin é uma bruxa. Ela é a única, de toda a família, que está envolvida com a sexualidade e não teme isso, que está consciente dos acontecimentos e não fica atribuindo qualquer desastre a culpa e vontade de Deus. Ela está extremamente preocupada com a vida e o “agora”, mesmo com as limitações da época, ela é livre no seu interior.

O filme, só a título de curiosidade, não se passa na Idade Média, mas sim na Nova Inglaterra em plena formação dos Estados Unidos. A floresta e o medo imenso do desconhecido está presente.

Após a família ser expulsa da colônia, é perceptível que todos da família saem do julgamento rapidamente, seguindo o pai. Thomasin é a única que hesita algum tempo antes de seguir a sua família.

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Depois disso, temos uma cena que mostra a visão da garota – uma câmera subjetiva – olhando os portões sendo fechados para a sua família. Eles são expulsos pela visão religiosa extremista, que é tão grande que vai de desencontro com a própria religião.

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Momentos depois a família adentra a floresta, algo extremamente proibido e perigoso, o lar dos monstros e demônios, eles estão em busca de um pedaço de terra para sobreviver. Mas todos aqueles conceitos de proteção, relação com o sobrenatural sobrevive – Thomasin, no final do filme, fala para o seu pai que ele é um péssimo caçador, que ele só sabe cortar madeira, isso prova a mente direcionada e necessidade de proteção. É curioso notar a ironia, pois Black Phillip, no final do filme, mata o pai diante as madeiras que ele cortava constantemente, como se estivesse entregue a única coisa que sabia fazer, além de orar e entregar-se a Deus, no mesmo tempo que esquecia que tinha uma família para guiar.

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Se Jó tinha uma propriedade farta, a família em “A Bruxa” é o contrário. A provação acontece de forma distorcida, eles estão a beira da loucura, fome e desespero. Em uma terra completamente nova, o terror com o auxilio da trilha sonora acontece durante todo o tempo. Nós não sentimos medo, mas adentramos em um mundo particular de fragilidade. A natureza se torna má e poderosa demais.

Os olhares do Caleb para os seios de Thomasin é a representação fantástica do desejo incestuoso que existe entre eles. A aceitação por parte da irmã e o descontrole por parte do irmão. Mas, claro, o desejo é visto como uma maldição e Thomasin, só pelo fato de ser mulher, é considerada bruxa por estar em pleno desenvolvimento. A menina se controla de todas as maneiras possíveis, segue todas as regras, mas, no final do filme, por um breve momento, se desvia desse caminho e tudo desmorona. Sua família, incrédula, atribui a ela todos os males do mundo.

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 Cena crucial é quando Thomasin encontra o seu irmão perto de um lago. Os dois estão atarefados e Thomasin percebe os olhares maliciosos, no entanto acolhe o irmão em seus braços antes de se proclamar como sendo a bruxa para a irmã mais nova. É questão de segundo para relacionarmos isso com a autonomia e ousadia da menina em confirmar o incesto, mesmo que somente a intenção e conexão. Ela afirma com propriedade, dá os detalhes e intimida ambos irmãos, causando um desconforto. Lembrando, o fato de ser ou não bruxa é uma metáfora e qualquer cena que sugira algo mais explícito serve apenas como uma distração.

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Pouco tempo depois Caleb foge com sua irmã para a floresta, eles se perdem e acompanhamos Caleb e o seu encontro com a “bruxa”, em uma forma bem sensual, como se completasse todos os seus desejos mais íntimos. O desejo nunca foi um problema real da humanidade, mas pode se tornar quando a crença a proíbe ou cria uma série de limitações. Nesse caso, a culpa passa a ser gigante e consome o ser. Isso é o que acontece com Caleb na floresta. A capa vermelha – cor associada automaticamente ao sexo, paixão etc – traz a ideia de que, sim, houve algum tipo de relação entre os dois irmãos, mas Caleb não aguenta a culpa, é fraco demais para ser um bruxo e, consecutivamente, livre.

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Quando Caleb retorna para a sua casa, Thomasin o encontra nu. Quando ele desperta e surta, os seus movimentos e feição remetem ao gozo, ao prazer extremo, é possível perceber que em diversos momentos o menino se abraça, como se o seu corpo estivesse envolvido com as palavras sem sentido, no mesmo tempo que existe uma tentativa de redenção, como se quisesse ser aceito. O menino ficou preocupado e questionou o seu pai, logo no início do filme, sobre qual seria o critério de Deus para escolher os bons ou maus.

A mãe da família, para mim, é a personagem mais conturbada e fraca, ela praticamente não existe. Em alguns momentos fala com alegria sobre a época que tinha a idade da filha mais velha, mas sempre se mostra muito abatida e fragilizada. Como se existisse muitos arrependimentos. É a mulher que nunca teve coragem de se libertar, por isso é possível perceber uma clara inveja da sua filha Thomasin. A mãe revela que estava ciente das “insinuações para o irmão”, mas nunca tomou providência. Talvez ela tinha medo de que a menina tentasse conquistar o seu marido.

Quando a mãe morre, a única morte que Thomasin provoca, de fato, ela está em uma posição muito sugestiva, em cima da barriga da filha. Simbolizando uma troca de papeis, como se tivesse se tornado a filha ou prestes a realizar o que sempre quis, mas nunca teve coragem. Thomasin, a partir da morte de todos os membros da família, se torna todos eles, a coragem e desprendimento da família.

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Chegamos na parte final e é justamente a qual, geralmente, as pessoas mais se confundem. Bem, vale ressaltar que a primeira coisa que Thomasin faz após matar sua mãe é tirar o vestido. Esse vestido, que a cobre durante todo o filme, visivelmente a sufocava. Ela começa a sua liberdade ai.

Depois segue o Black Phillip e vai procurar, finalmente, as respostas.

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O bode no filme é a representação do demônio. Baphomet é sempre revelado com uma cabeça de bode e ele significa algumas coisas, principalmente relacionado com dualidade. Bem e mal, luz e trevas, homem e mulher, enfim, o feminino e masculino tem uma importância gigantesca para o final do filme. A mulher está diante a sua liberdade, mas não sabe o que fazer ao dar o próximo passo, portanto precisa entrar em catarse, conhecer os seus limites.

Ela seguindo o Black Phillip representa todos os espectadores que esperam ansiosos por respostas. E quando isso acontece, o filme o faz com maestria. Primeiro que focaliza apenas no rosto da Thomasin, afinal, ela é a protagonista dessa mudança. É quando começa um dos melhores diálogos da história do cinema.

Reparem que Black Phillip pergunta o que ela quer e dá algumas sugestões, principalmente relacionado a comida – pois passava fome – e liberdade. “Ver o mundo“. Thomasin deixa claro a sua posição e diz que não sabe escrever, ele responde, com sua voz arrepiante, que guirá as mãos da menina. Essa cena deixa claro que a protagonista está diante a uma mudança devastadora, fruto da sabedoria. A cena final, onde acontece um “ritual”, é outra alusão ao rito de passagem. A menina flutuando é uma vida leve, sem amarras e proibições, ainda fica diante uma árvore, fazendo referência a Lilith que, diz a teoria da conspiração, poderia ter sido a primeira mulher de Adão.

A cena final é arrepiante e, em meio a uma estranheza gigantesca, é possível sentir uma felicidade. O espectador desavisado chora e os mais atentos sorriem. “A Bruxa” é um dos melhores filmes da história e uma verdadeira junção de elementos históricos e filosóficos. Vai ao desencontro da fórmula e o padrão, assim como o tema estudado, e consegue provar que o terror mora nos lugares mais improváveis.

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Referência: http://maconariaesatanismo.com.br/satanismo/satanismo-na-idade-media/

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Pássaro Branco na Nevasca, 2015

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★★★★

Gregg Araki é um diretor que surgiu nos anos 90, ele é, ao lado de Wes Anderson, Tarantino etc, mais um bom representante do grupo de artistas independentes que reformularam o cinema norte-americano. Sua proposta é muito interessante: falar sobre o jovem e o mundo que o cerca; O diretor, homossexual assumido, também trabalha com frequência o tema, de forma bem sincera e, por vezes, provocante.

“Pássaro Branco na Nevasca” poderia ser apenas mais um filme mediano do diretor – principalmente se analisarmos exclusivamente o roteiro que se torna muito pretensioso no terceiro ato – mas, por alguns motivos que descreverei a seguir, ele mexe com o nosso coração de forma quase imperceptível, despertando uma empatia, seja pelo jovem e sua ânsia de viver ou a mulher de meia-idade repleta de arrependimentos e angústias.

O filme acompanha a vida da jovem Katrina que é filha única de uma família extremamente dentro dos padrões norte-americanos. Ela se vê em meio a um terrível clima de falta de carinho e respeito dos seus pais, que parecem apenas viver dia após dia para manter suas máscaras e gritar para a sociedade que está tudo bem. Então certo dia, sem nenhum tipo de explicação,  Eve Connors ( mãe ) abandona a sua família e nunca mais retorna. A partir desse fato veremos quais as consequências desse fato na vida da Katrina e, ainda mais, procuraremos juntos com ela uma resposta para a atitude da mãe.

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O filme se constrói em vários flashbacks, inclusive eles aparecem de forma abrupta às vezes, como se quisesse simular as angústias tanto da mãe quanto da filha. Essa vida bagunçada e cheio de conflitos invisíveis, parece transcender à realização, transformando o filme em, praticamente, um recorte de momentos. Causa um certo desconforto inicial, mas esse sentimento de confusão vai nos aproximando, cada vez mais, da curiosidade, a vida daquela família comum se torna enigmática e grandiosa.

Se existe uma incomunicabilidade no que diz respeito ao didatismo do roteiro, não podemos dizer o mesmo da inteligência do diretor em usar a fotografia ao seu favor: sempre muito bonita e clara, demonstrando tranquilidade no presente, serve como um verdadeiro contraste nas cenas de flashback onde temos umas misturas mais gritantes, principalmente o uso do amarelo. Em dado momento, quando é mostrado a mãe e o pai formando suas vidas/ comprando a casa, a fotografia é amarela, demonstrando o calor e energias daquela relação, fruto da expectativa. Consecutivamente, com o declínio dessa empolgação inicial, a fotografia vai se tornando cada vez mais fria e sem cor ou com uma iluminação superexposta.

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Não posso escrever sobre esse filme e não citar, com um certo aprofundamento, as excelentes performances da Shailene Woodley e Eva Green. Começamos pela primeira: Shailene pertence a esse novo grupo de grandes atores com menos de 25 anos, é uma verdadeira aposta desde “Os Descendentes” e, a cada dia, vem mostrando a sua perspicácia e versatilidade transitando por entre os filmes populares e alternativos. De todos esses novos nomes de Hollywood, incluindo a própria Jennifer Lawrence, Shailene Woodley me parece ser a mais talentosa.
Sua personagem, Katrina, esteve desde criança em contato com a sexualidade, então ela cresce com essa mentalidade livre, com um certo desprendimento. A atriz resgata esse lado muito bem, até o momento nunca visto na sua carreira, que sempre pendeu para o lado da pureza e inocência.

Do outro lado temos a mãe, Eva Green. Que o talento da Eva é absurdo, todos sabem. A sua qualidade mora na obrigação em exigir de si mesma a cada detalhe, reação e olhar; Todos esses elementos são imprescindíveis para as composições de seus personagens, sempre abusando muito da sensualidade que lhe é inerente – afinal, trata-se de uma das atrizes mais lindas do mundo. Nesse filme sua personagem está afundada em arrependimentos e monotonia, cansada da vida de dona de casa, ela sempre se mostra abatida. A sensualidade da atriz, como descrita acima, consegue ser essencial pois se encontra escondida em expressões de desespero. Isso, inclusive, me faz pensar que o “pássaro” do título faz referência direta a mãe, presa em uma gaiola boa parte do filme.

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Se a construção da história é excelente, muito se deve a discussão filosófica e a pitada da crítica social, principalmente aquela voltada ao “american way of life“, nesse ponto o filme nos lembra bastante o “Beleza Americana”. Por outro lado, na discussão filosófica a obra encontra a sua maior força.

Existe uma mensagem implícita sobre o sentimento de urgência da mãe em viver, não apenas existir. A sua casa, aparentemente perfeita, se torna um ruído em sua vida. A filha, de aspecto jovial e perfeito, se torna aos poucos sua inimiga. A questão da imagem têm uma importância gigantesca na trama, movendo as duas personagens principais para um encontro místico, como se as duas fossem uma só.

Katrina se relaciona com alguém mais velho, enquanto a mãe aparentemente seduz um jovem rapaz – namorado da filha. Então existe um conflito de posições e/ou aceitação da condição, isso é extremamente relevante para a compreensão da obra e os seus significados. Se existe uma maturidade enorme na criação e desenvolvimento dos fatos, o mesmo não se pode dizer da conclusão. Concentrando-se na surpresa, o diretor parece se tornar extremamente pretensioso e preguiçoso nos minutos finais, transformando toda a possível surpresa em uma ferramenta de tragédia, manchando um pouco a atenção minuciosa das cenas anteriores.

Baseado no livro “White Bird in a Blizzard”, da escritora Laura Kasischke, o filme ainda consegue sobressair as más decisões do final e se mantém como um bom estudo de personagens, principalmente referente à mulher e o jovem, bem como a relação de amor/inveja entre mãe e filha.

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Absentia, 2011

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★★★★★

Depois de assistir “Hush- A Morte Ouve” e “O Espelho” me interessei bastante pelo trabalho do jovem diretor Mike Flanagan. Em uma gravação de podcast, a querida Angélica Hellish do Masmorracast recomendou aos participantes o longa “Absentia”, de 2011, primeiro longa do Mike. Então eu não poderia começar essa crítica de outra forma que não seja agradecendo minha amiga pela experiência cinematográfica que ela me proporcionou através da sua indicação. Muito obrigado Angel!

Se discutia bastante, há algum tempo, sobre a qualidade dos filmes de terror e a mesmice do processo criativo para criar a atmosfera do medo. No entanto, parece que alguns festivais de cinema apostaram suas fichas no terror e, alguns casos específicos, se tornaram de fácil acesso do grande público. Mesmo que muitos não tenham compreendido a proposta, como é o caso famoso de “A Bruxa“, é impossível negar que andou aparecendo coisas no cinema que ultrapassaram alguns limites impostos pelo gênero e até mesmo utilizaram o clichê ao seu favor.

Um nome, ainda desconhecido, que vêm demonstrando um talento extraordinário é o Mike FlanaganCom apenas 37 anos, ele parece ser uma grande aposta para o futuro, pois consegue transformar algo simples em verdadeiras preciosidades, muito por conta da sua ousadia em lidar com alguns elementos técnicos ao seu favor, como o som. Escrevi na crítica de “Hush- A Morte Ouve” sobre a importância do som no filme, então me senti bem mais familiarizado quando me deparei com o seu primeiro longa, “Absentia” que abusa das ausências e distorções para compor uma atmosfera, no mínimo, claustrofóbica.

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“Absentia” começa nos apresentando uma personagem chamada Tricia, ela está colando diversos avisos nos postes do bairro e, no desenrolar, sabemos que se trata do seu marido, que está desaparecido há sete anos. Essa personagem esta vulnerável emocionalmente por causa desse desaparecimento, é visível desde os primeiros vinte minutos. Isso sem contar a gravidez, que a mantém ainda mais isolada do mundo e a centraliza nos problemas e preocupações. Mesmo o filme sendo de baixo orçamento, é possível perceber muita atenção com os detalhes e, principalmente, no uso do som para acrescentar veracidade à esses dilemas e medos que a personagem está vivendo. É tão desmesurado essa atmosfera fúnebre, que o filme poderia parar nesses problemas do desaparecimento, da vida solitária, etc, que já seria uma excelente obra; mas ele expande e caminha por outras direções.

“Absentia” atinge um nível ainda mais alto com a Callie, irmã da Tricia, que aparece na casa da irmã para ajudá-la com a gravidez e lhe fazer companhia. Essa irmã teve problemas com drogas e será a motivadora de algumas mudanças cruciais no filme.

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O terror começa a acontecer desde os primeiros minutos. Mas não se sabe ao certo o motivo. Após algumas explicações, a Tricia começa a ter algumas visões do seu marido dentro de casa. Mas o brilhantismo é a forma visceral, natural e até mesmo sutil, que essas aparições vão acontecendo. É tão incerto, que todos os objetos da casa parecem que assume formas assombrosas e prende a atenção do espectador, como se ele soubesse que algo terrível pode acontecer, mas não tem absolutamente nada gráfico! São sensações e uma angústia desconfortável que vão exigindo de quem assiste um alto grau de atenção, como se, aos poucos, fosse se sentindo desprotegido, assim como as duas irmãs.

Depois de assistir ao famoso “Corrente do Mal“, fica bem óbvio o quanto o som e músicas são importantes para criar a tensão. Em “Absentia” acontece o mesmo – lembrando que o filme é de 2011, ou seja, quatro anos antes – e, por incrível que pareça, a experiência é muito parecida. Os sons distorcidos, a brincadeira com sons diegéticos e não diegéticos – principalmente com Callie e seu fone de ouvido – contextualiza quem assiste na realidade sombria da cidade onde há desaparecimentos misteriosos.

Outro ponto interessante é que o filme não força o susto em nenhum momento, por vezes há uma ausência total de som, mas não como um artifício de acumulo de atenção para, posteriormente, assustar com um barulho enorme como na maioria das vezes. A ausência de som existe para situar-nos, também, na mente da personagem. Por diversas vezes Tricia está meditando e não há som algum, como se a moça estivesse em um outro universo. Essa ausência de ruídos dissipa os olhares, ponderamos a aparição de qualquer coisa, pois o corpo da personagem está ali, mas sua mente não, portanto, demonstra com perfeição mais uma vez a fragilidade que existe, despertando o inerente desejo de proteção.

O jovem diretor ainda nos proporciona momentos interessantes, quando por exemplo acompanha o olhar assustado da protagonista diante a uma escuridão e, aos poucos, “adentra” ele. Como se essa sombra estivesse possuindo as pessoas e cidade, assim como o próprio túnel – lugar chave dos inúmeros desaparecimentos da cidade -, que surge e é trabalhado de forma extremamente assustadora, se tornando um elemento a parte que, só de olhar, provoca desespero.

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Nas primeiras imagens reforça a ideia da grandiosidade do túnel. Parece que “suga” Callie e a transforma em prisioneira. No entanto a luz em sua cabeça, parece ser um indício da sua inconformidade e força. O túnel poderia representar, literalmente, o mal. E diversos males do mundo, como o próprio desaparecimento ou o vício. Mas são pontos a ser discutidos, o fato é que “Absentia” é uma obra espetacular, que investe pesadamente no clima e usa todos os artifícios técnicos a favor de uma empatia e preocupação com os personagens.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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CdA #57 – A Serbian Film – Existe um limite na arte?

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No episódio #57 do Cronologia do Acaso voltamos ao formato [Moscas] e, dessa vez, falamos sobre um filme extremamente polêmico: A Serbian Film!
Emerson Teixeira convidou o Tiago Messias e, juntos, conversaram sobre esse filme nada sútil. Discutiram sobre o papel da arte na sociedade e, com isso, surgiu a dúvida: “existe um limite na arte?”.  Ouça ainda reflexões sobre o sexo no cinema e outras questões pertinentes.

Obs: Nesse episódio convidamos a ouvinte Ana Paula para ouvir a gravação de um Cronologia do Acaso. Ela ainda deu a sua importante contribuição para a discussão. Agradecemos a sua participação Ana!

. Edição feita por Tiago Messias do https://altverso.wordpress.com/

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O Segredo de Eleonor, 2009

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★★★★

As animações francesas possuem, na sua maioria, um visual maravilhoso, geralmente contrastando a delicadeza e infantilidade com temas profundos e, em algumas oportunidades, densos.

O charme que já é característico do país também se torna muito presente nas animações, conquistando público de todas as idades, seja através da naturalidade que se desenvolve o roteiro, as belíssimas canções ou os personagens marcantes.

“O Segredo de Eleonor”, dirigido por Dominique Monfery, que trabalhou também no curta “Destino”é mais uma prova de que a França é um dos países com maior talento para encantar o mundo com seus longas animados, junto, é claro, do Japão, no entanto os dois se diferenciam muito. 

O filme conta a história de um garotinho Nathaniel que, desde o início é mostrado como o irmão mais novo que é obrigado a ouvir as provocações da irmã, a maioria das provocações fazem referência ao seu tamanho mas, uma em especial, o machuca muito: não saber ler.

Nathaniel, apesar de ser incrivelmente criativo, ainda não consegue ler, está passando por dificuldades na escola. No entanto, a sua aproximação com a leitura é muito íntima, visto que anos antes sua tia, Eleonor, lia muitos contos de fadas para ele. Nas férias, a família retorna a casa de campo e o menino revive algumas lembranças boas da sua tia que, infelizmente, faleceu momentos antes. Ela, porém, guarda alguns segredos, o maior deles é sobre livros.

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A primeira coisa que chama muito atenção é o uso das músicas, a cena inicial traz uma bem obscura, logo em seguida os personagens vão aparecendo e a cada minuto vai se tornando mais suave. Representando a confusão vivida pelo protagonista em um mundo onde a sua liberdade criativa não é o suficiente.

A leitura e a palavra estão muito presentes nesse filme, assim como a irrelevância dessas duas quando não há a imaginação e interpretação. Seria a leitura apenas uma decodificação de símbolos ou uma oportunidade real de criar sobre uma criação? Fica nítido, desde o início, que Nathaniel interpreta mais o mundo e as palavras do que sua irmã, a relevância desse conteúdo quase investigativo é enorme, podendo ser facilmente trabalhado em escolas, por exemplo, auxiliando a desmitificação da imposição da leitura no nosso dia a dia.

A leitura serve para nos fazer felizes, sem obrigações. E é exatamente esse tema central do filme, pois o garoto se torna uma espécie de guardião dos personagens dos contos de fada que sua tia lia para ele, a trama se desenvolve de forma muito parecida com “Toy Story 2”, o que se torna uma grande homenagem, pois as intenções são outras e tão grandiosas quanto.

Curioso notar que a personagem que mais encanta o menino – e que será a sua parceira na aventura – é Alice. Demonstrando mais uma vez a grandiosidade dessa personagem clássica, remete-nos ao seu desdém durante a leitura de um livro sem imagens, ainda por cima quem lia era sua irmã. Outro elo claro entre os dois é a capacidade quase compulsiva de sonhar e de se desprender.

“O Segredo de Eleonor” é excelente, tem doses de humor mas em nenhum momento anula a profundidade proposta desde o início. Se torna uma viagem mágica através do autodescobrimento e maturidade, tudo de forma bem orgânica e despretensiosa.

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Precisamos falar sobre a sexualização da Arlequina

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Antes de mais nada é importante ressaltar que eu não sou muito interessado em entrar em discussões que as pessoas criam pela internet após assistir o trailer de um filme. Mesmo que seja um tema válido, os trailers são ferramentas de divulgação e nem ao menos o diretor tem controle sobre o que é mostrado, sendo assim, se trata de um conteúdo extremamente limitado e que descontextualiza tudo para, finalmente, criar a expectativa em quem assiste.

A expectativa é a morte para um crítico de cinema. Ter opiniões e gostos pessoais é evidentemente normal, mas se deixar levar pela expectativa é o que separa os homens das crianças. Isso em diversas áreas da vida, inclusive. Por exemplo, eu posso ser infantil ao ponto de não me preocupar com o argumento por inteiro e me ater apenas a uma frase e essa frase, por estar isolada, se transforma em algo extremamente polêmico.

Trailer é produto de marketing e a expectativa é o câncer para uma boa experiência cinematográfica. O que sobra então? Há, sim, a sexualização da mulher.

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O papel da mulher na sociedade, apesar de vir crescendo muito nos últimos tempos, ainda é envolta de muita inferioridade, infelizmente. Os homens teimam em inferiorizar a mulher e transformá-las em produtos, isso é fato. Mas não acontece só na mídia ou arte. Desde que pisamos nesse mundo a mulher é alvo de preconceitos e posturas arrogantes/superiores. A igreja condenou as mulheres só pelo fato de serem, bem, mulheres. Imagina aquelas que eram independentes ou priorizavam a liberdade?

Que a mulher merece papeis melhores no cinema é indiscutível, que mais diretoras precisam ter oportunidades, também. Agora, é importante não confundir valorização da mulher com sexualidade característica de determinado personagem.

Ora, vamos por partes: eu sou apreciador de filmes obscuros, filmes do Gaspar Noé, por exemplo, são polêmicos, lidam com a mulher de forma, no mínimo, crua. Ainda tem alguns tipos de agressões, incesto, – pedofilia, direta ou indiretamente – e obsessão. Eu assisto esses filmes para entender e/ou me identificar com outros lados do ser humano, da corrupção, da banalidade de viver, dos erros, enfim, eu não vou assistir uma obra dessa intensidade para ver um reflexo fiel da minha vida – pelo menos não literalmente. Na verdade obras de arte podem dialogar com vida de quem aprecia, mas só o fato de representarem algo e a mensagem ser desmistificada, pronto, cumpriu o seu papel; é preciso aceitação, maturidade e seriedade para enfrentar a arte, pois ela não existe para representar fielmente cada um de nós, mas fazer um questionamento, incentivar a catarse.

Chegamos, de fato, a sexualidade. Não é porque assisto um filme onde um personagem, homem, mata crianças e as estupra que eu me identifico ou me sinto representado pelos seus atos. Assim como não é porque uma personagem, feminina, é extremamente sexualizada que isso diminui a importância das mulheres e as inferioriza de alguma forma, e, principalmente, essa personagem não representa todas as mulheres do mundo, ela representa ela, e tão somente ela.

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Como escrevi acima, eu geralmente não fico observando trailers. Mas pude reparar, depois de prestar muita atenção, que a figura da Arlequina segue fielmente os quadrinhos: uma personagem que depende obsessivamente da sua sexualidade – como uma arma poderosa que, por vezes, se torna um elemento que acaba escravizando-a, isso acontece por conta da personagem ter sido abusada pelo Coringa. Reparem que existe uma sexualidade na maneira que ela se comporta, no olhar e nas expressões, esses sutis elementos são tão impactantes do que o seu próprio figurino.

Voltando… é trailer, pode ser que o filme trate mal a personagem e ela, infelizmente, só sirva para mostrar a bunda e atrair os homens – eu me incluo nessa lista – mas, através de rápidas impressões, a sexualidade me parece um artifício de desenvolvimento da personagem. Agora, se alguém me perguntar: ai Emerson, como você pode falar isso apenas por um trailer? Eu te respondo, caro neném, que eu estou supondo, com argumentos, as minhas opiniões, mas nem eu, muito menos as pessoas que reclamaram da roupa da Arlequina, posso dizer nada, simplesmente porque não vi(mos) o filme ainda.

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A roupa da Arlequina nos quadrinhos lembra bastante a qual vemos no trailer, não?

Tenho que confessar que precisei de um certo cuidado para escrever esse texto, por conta dos extremistas. Por isso abri dando a minhã opinião geral sobre a mulher e quanto é tratada como objeto pela indústria. Devemos combater isso, sem dúvida, assim como incentivar a produção de outros conteúdos realizados exclusivamente por mulheres, mas quando adentramos na questão de personagens, estamos invadindo um espaço muito particular, cujas pretensões e detalhes como a sexualidade, por exemplo, existem para compor e não destruir ou inferiorizar. Aliás, se chega ao ponto de inferiorização, ai temos um problema sério de má realização ou mentes mal intencionadas mesmo – o que seria impossível distinguir com um trailer de 3 minutos.

Mas todos homens da minha sala de cinema, enquanto eu assistia o trailer, gritaram quando a Arlequina apareceu trocando de roupa… isso é repulsivo“.

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Então, se eu falar que detestei a cena por causa disso, estou mentindo. Eu adorei a cena, antes de mais nada, pelo contexto, é divertido a liberdade e despreocupação dela, no mesmo tempo que a forma como todo mundo, ao fundo, para e contempla a sua beleza também é muito engraçada. Mas eu achei ela extremamente sexy e provocante, sim, e daí? Essa é a sua personagem, foi pensada assim para os quadrinhos e a mesma essência será trabalhada no cinema.

As mulheres também ficam loucas com cena do Superman sem camisa – e estão mais do que certas (ui) – ou com o Wolverine, até mesmo com o nu frontal do Fassbender em “Shame“. Pena que existem poucas cenas que realmente exploram a sexualidade dos homens de forma tão clara, pois, repito, na arte às vezes é um artifício essencial.

A conclusão é que não existe conclusão. Apenas um devaneio. Devemos procurar igualdade de inúmeros outros jeitos, podemos e é direito, mas não precisa começar atacando um trailer e uma personagem, que pertence a um universo diferente e têm suas próprias regras. Isso ai parece desculpa para pessoas sem ter o que fazer, que nunca leram “Lolita”, ou outras diversas obras que relacionam a mulher – no caso do citado uma menina – com o sexo e, durante o processo de desenvolvimento, mostram a força da personagem. Existe muitas outras coisas interessantes para fazer como, por exemplo, esperar o filme estrear e, ai sim, dar sua opinião ou até mesmo criticar figurino e outras decisões. Claro, se todos esses pontos se encaixarem com perfeição no contexto do filme e ajudarem a história como um todo, então a sua opinião será equivocada. Por outro lado, se existir a gratuidade das roupas curtas e afins, com certeza eu ajudarei a criticar negativamente o filme. #esperemos

emersontlima

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CdA #56 – O futuro de Harry Potter no cinema

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Em mais um episódio do [Cronologia do Acaso] no formato “ímpar“, Emerson Teixeira comenta brevemente sobre o seu fascínio ao universo de Harry Potter e especula alguns possíveis filmes que poderiam ser feitos. Além de falar sobre “Animais Fantásticos e Onde Habitam” que estréia em novembro de 2016 e comentar o trailer.

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Hush – A Morte Ouve, 2016

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★★★★

O meu apreço por filmes de terror/suspense/thriller vai muito além do entretenimento. Desde criança me divirto com fantasmas, mundos destruídos, monstros, assombrações, mas acima de qualquer sensação penso que eu sempre tive uma curiosidade em compreender o medo. Sempre achei fascinante o nosso instinto de proteção ou até mesmo o horror do desconhecido, que vão desde situações novas até o próprio escuro.

Alguns filmes de terror conseguem transitar por entre o clichê e utilizar todos os artifícios já criados ao seu favor. É o caso do excelente “Corrente do Mal“, lançado ano passado. Isso mostra não só a força do gênero, como também a realidade: os filmes de terror possibilitam ao diretor, através do medo e apreensão, refletir sobre diversos aspectos da psicologia humana.

“Hush – A Morte Ouve” foi lançado pela Netflix – plataforma que vem surpreendendo bastante com os seus filmes – e, rapidamente, ganhou bastante estrelas no site. O filme conta a história de uma escritora Maddie que tem problemas de audição e vive em uma casa bem afastada da cidade. Em uma noite um assassino aparece e mata a sua amiga e, percebendo a indiferença de Maddie – pois ela não escuta o barulho nem percebe a presença do assassino – ele começa a fazer um jogo psicológico com a escritora até, de fato, matá-la.

Vale ressaltar que esse jogo psicológico, de certa forma, também existem em outros filmes, como exemplo cito o “A Invasora”, filme francês de 2007. Mas o diretor Mike Flanagan – que dirigiu outro bom filme chamado “O Espelho” – se preocupa com um detalhe que irá ser crucial para criar tensão: o som. A protagonista tem problemas de audição desde a infância, se comunica com a sua amiga por sinais e o espectador, desde o início, precisa se encaixar no estilo de vida silencioso da escritora. No entanto, os barulhos exteriores causado por ela – como pratos, celular etc – são ouvidos, ou seja, quem assiste o filme conhece os sons e a protagonista não. Quando ela está inserida em uma situação de sobrevivência, conseguimos antever as ações do assassino antes da protagonista, tão somente por causa dos barulhos. Além do mais, o pensamento imediato é que ela é inferior a ameaça, o que vai ser crucial para provocar o medo.

Nesse ponto, a edição de som é muito oportuna, por vezes fica distorcido, como se estivéssemos em plena viagem até nos transformarmos na isca, junto com Maddie.

Maddie é uma personagem tão forte que as suas limitações, no fim do segundo ato e terceiro, passam a ser um mero detalhe. A sua reação é de uma força inacreditável, nesse ponto o trabalho da lindíssima Kate Siegel é impecável, percorre momentos de medo mas sempre com uma segurança que conforta em momentos onde a tensão atinge níveis bem altos. O que era para ser um ataque fácil, vira uma guerra.

Kate Siegel assume, também, o roteiro. Bem realizado até o final, depois começamos a sentir uma pressa para terminar o filme e os acontecimentos se tornam bem artificiais. Felizmente a conclusão não apaga totalmente a brilhante construção da tensão e “Hush” é mais um bom representante do gênero thriller.

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Entre a solidão e o suicídio

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Sala do Suicídio, 2011

A depressão é, hoje mais do que nunca, a maldição que rege, indiretamente, o homem. Sempre existiu o existencialismo, as dúvidas sobre o porquê das coisas e até mesmo o suicídio. Mas o mundo se transformou de tal maneira que é impossível, em algum momento da vida, não perceber a prisão invisível que construímos em nossa volta. Estamos enclausurados na expectativa, nas regras sociais, no conhecimento e sistema, isso sem contar a rotina.

Houve um tempo onde havia protestos e boa parte dessa rebeldia consistia em ser livre, estar por aí, caminhando pelas ruas e conhecendo o maior número de pessoas possíveis, doando-se e aprendendo. Atualmente o nosso meio de desabafo é algo ainda mais perigoso do que a realidade: a internet.

É louco pensar que existem milhares de pessoas nesse mundo que poderíamos nos identificar de forma monstruosa. Poderiam contribuir com o nosso crescimento ou morte mas, de todo modo, afetariam drasticamente a nossa existência. Porém isso não acontece por um motivo: distância.

Existe distância entre todos nós e, de certa forma, ao longo do tempo, ela sempre nos manteve seguros. Claro, com o advento da tecnologia essa barreira foi quebrada e bastou poucos anos para a Internet funcionar como uma grande família, onde todos têm voz e, principalmente, podem ser quem quiser. De fato, o mundo virtual se trata de uma grande máscara, onde as pessoas conseguem se livrar da sua própria imagem mentirosa do dia a dia e passa, com muita facilidade, a pertencer à um grupo.

Chegamos ao jovem que, em pleno desenvolvimento, se vê cercado de expectativas ou falta delas, seja por oportunidade ou força de vontade. Então é questão de tempo para enxergar na Internet uma possibilidade real de ser aceito ou até mesmo buscar exemplos que, por sua vez, conseguiram sucesso nesse outro mundo e parecem levar uma vida perfeita no Instagram.

A máscara que existe no mundo virtual é tão bonita e tentadora que poucos percebem esse problema invisível que temos hoje e que, infelizmente, a tendência é crescer.

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“Sala do Suicídio” ou “Sala Samobójców” é um filme polonês dirigido pelo jovem diretor Jan Komasa e, antes de mais nada, é preciso louvar a atitude do artista em realizar uma obra tão impactante e visceral sobre toda essa discussão dos impactos do mundo virtual no jovem. O diretor parece querer buscar a essência da dor e sentimentos mais obscuros do jovem quando traz temas atuais como o próprio cyberbullying e homossexualidade, esse segundo, inclusive, é abordado na obra de forma extremamente sútil.

Ainda mais, ele se preocupa em unir a parte estética – a fotografia, por exemplo, na maioria das vezes permanece em um tom azulado, demonstrando a frieza do protagonista com ele mesmo e para com o mundo que o cerca – com uma proposta imersiva, onde há uma mistura de jogos que permite ao espectador adentrar literalmente na cabeça do protagonista, visto que ele passa a pensar através de um monitor e com amigos virtuais.

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A história é sobre um garoto chamado Dominik que anda solitário na escola, porém esse detalhe não o afeta. Vive em um mundo próprio e não se intimida, inclusive, com o seu visual alternativo. As coisas começam a mudar quando, em uma festa da formatura, ele é desafiado pelos amigos a beijar um colega da sala dele, esse desafio é aceito em meio a muitos risos e diversão mas tudo isso está sendo filmado. Começa então nas redes sociais – após o vídeo ser publicado – uma série de gozações e discriminação que só se agravam quando, em uma aula de judô, Dominik se excita com o mesmo menino que beijará alguns dias antes.

A partir desse ponto o protagonista começa a refletir sobre sua vida e observar, também, os pais que lhe dão de tudo, menos atenção e carinho, ele resolve se refugiar no seu quarto em um jogo de simulação da realidade, onde participa de um grupo ou mundo conhecido como: sala do suicídio. Aparentemente composto por pessoas incompletas na realidade que se sentem completos modificando os seus avatares no mundo virtual.

Existe diversas inserções desse jogo ao longo do filme que, nas maioria das vezes, serve como uma boa ferramenta para compreender o protagonista que, do segundo ao terceiro ato, se desenvolve através de conflitos internos, ou seja, é difícil o acesso que o espectador tem com eles no mesmo tempo que essa barreira faz jus ao sentimento de incapacidade que os pais de Dominik sentem em não conseguir ajudar o filho e perceberem a sua carência muito tarde.

A cor quente só aparece no filme no começo, quando Dominik visita o trabalho da mãe – ironicamente o garoto não consegue conversar com ela pois está ocupada, ou seja, como se a cor representasse um outro universo cujo protagonista é apenas um intruso. Nessa mesma cena ele se conforta assistindo vídeos de auto-mutilação.

“Mundo fechado, feridas abertas”

Dominik por diversas vezes pede silêncio, seja no carro do seu pai ou até mesmo em um ônibus, como se qualquer som produzido por aqueles que existem o incomodasse. O personagem se arrasta com uma corrente amarrada nos pés, um escravo do seu tempo. E os seus pais são sempre apresentados de forma rápida e superficial, como se estivessem atarefados constantemente e, uma prova dessa diferença do filho, é o figurino, eles estão sempre muito elegantes, independente da situação, a mãe na maioria das vezes está com um cachecol enorme, como se estivesse sufocada com aquele casamento ou com o fato de ser mãe.

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“Sala Samobójców” começa leve e vai se tornando cada vez mais desgastante, isso porque o sentimento do protagonista invade a história, como um vírus. A densidade e sensações são tamanhas que, sem dúvida, pode ser um perigo para quem passou ou passa por depressão, até mesmo o suicídio aqui é tratado de forma muito crua e realista.

Impossível não elogiar o trabalho do ator Jakub Gierszal que se esforça muito para transmitir todo tipo de dor da personagem e, para isso, trabalha de forma impactante com todo o corpo. O choro muitas vezes confunde, o olhar sob o brilho da tela do notebook, enfim, é uma linda organização dos detalhes e a entrega do jovem ator só aumenta o drama. Sem contar a beleza de Jakub que, nesse filme, funciona como uma outra demonstração da quebra do personagem que, ao final, se mostra extremamente debilitado fisicamente.

Outra personagem que chama muito atenção é a Sylwia, com seu cabelo rosa e uma máscara – representando visualmente a Internet e sua “função social” – ela é o “outro lado do mundo”, o ser humano que só pode ser encontrado por causa da Internet, ela impulsiona Dominik para o fim, no mesmo tempo que o ajuda a encontrar uma explicação, tudo isso de forma indireta pois Sylwia é tão vazia quanto o protagonista. Ambos vivendo em seus quartos, suas prisões, sendo monstros de sua própria existência.

As cenas finais é de arrepiar, a conclusão do jovem e suas infinitas ilusões, a vida adulta que parece confusa e interminável, o amor desperdiçado, enfim, viver é realmente muito complicado, principalmente para os mais sensíveis.

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“-Por que você usa uma máscara?
– Me protege de pessoas perigosas, de substâncias.”

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Copenhagen, 2014

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★★★★

Se existe um formato de filme que me conquista facilmente é, sem dúvida, os indies, principalmente se abordarem um relacionamento – seja de um casal, amigos ou uma catarse individual -, é a oportunidade ideal para se emocionar, sorrir e, claro, se divertir.

É o caso de “Copenhagen”, filme dirigido pelo Mark Raso de 2014, que consegue sustentar uma profundidade dramática mas, no mesmo tempo, está muito mais interessado nos seus personagens e na relação que se estabelece entre eles.

A história é centrada no William, de 28 anos, que viaja até Copenhagen com uns amigos e, dentre atividades como: baladas, mulheres e bebidas, ele ainda tem um desejo de encontrar o seu avô ou descobrir um pouco mais sobre ele. No meio do caminho ele encontra a adorável Effy, uma menina com personalidade forte e independente que, apesar de demonstrar muita maturidade e consciência sobre as suas atitudes, só tem 14 anos. Então o filme passa a se desenvolver nesse limite entre amizade, paixão e limitação por conta da diferença da idade, tudo isso enquanto ambos personagens andam de bicicleta pelas ruas maravilhosas e alegres de Copenhagen.

 A história é pautada em diversos clichês que vão desde a surpresa da paixão – afinal, William é do tipo que sai com várias mulheres mas começa a se encantar por apenas uma -, passando pelo problema da diferença de idade entre os dois até chegar no processo de evolução dos personagens através da caminhada pelas ruas afim de chegar ao objetivo, nesse caso, podemos resumir que é um típico road movie.

Mas o que difere esse filme de outros com a mesma temática é, sem dúvida, a super atenção que o diretor dá aos seus personagens, transformando-os em verdadeiros monumentos que, só de aparecer juntos em tela, cria uma sensação de bem estar no espectador- aquele súbito sorrisinho de canto. O relacionamento é desenvolvido com tanta sinceridade e ternura que, por algum momento, esquecemos que se trata de uma diferença de idade de 14 anos, esquecemos também de uma possível polêmica sobre pedofilia que poderia ser ainda mais trabalhada, mas, no final, é fácil perceber que William não vai fazer nada além de se apaixonar platonicamente, com muito respeito e carinho pela menina de 14 anos que o ajudou a crescer.

A fotografia de “Copenhagen” é muito oportuna, envolve os personagens em paisagens românticas, cheio de cores e alegria. Como o trajeto deles é quase sempre feito com bicicleta, conseguimos, ao assistir o filme, nos sentir imersos naquela cidade, como se fossemos os turistas. Aliás, o fato do protagonista ser um turista já é muito identificável, pois contextualiza-o no encantamento pela novidade, desprendendo-o da rotina e demais amarras da sociedade.

Os pontos mais importantes para a estrutura do filme são as atuações da Frederikke Dahl Hansen e do Gethin Anthony. Ambos possuem uma beleza singular, e o carisma deles se transforma em algo crucial para a aceitação da obra que, mesmo com toda a sua simplicidade, consegue encantar até os mais exigentes.

Obs: O filme se encontra atualmente em catálogo na Netflix

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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