Wakefield (Robin Swicord, 2016)

Assisti “L’adversaire” (Nicole Garcia, 2002) em um momento muito conturbado da vida, a possibilidade da fuga me encantava profundamente, nem que a conquistasse através da repulsa à minha identidade. Nesse brilhante filme francês Daniel Auteuil interpreta um médico que mentiu a vida inteira sobre sua profissão e vagava pela cidade, enquanto sua família, inocentemente, se acolhia nessa atitude horrível e, no mesmo tempo, impactante. Algo nessa história, verídica diga-se de passagem, chamou a minha atenção, imagino que justamente a dor e fraqueza do personagem em não ser aquele que imaginava e, numa atitude baseada no instinto e emoção, se vê afogado no mar da ilusão. Ele mente e morre; só assim renasce e começa do zero.

Mesmo não sendo um dos meus favoritos, guardo “L’adversaire” com muito carinho no coração, pois é uma obra densa que representa com exatidão uma angustia que já fui muito próximo. Essa citação se faz necessária pois assistindo “Wakefield” pude retornar à uma sensação parecida: na história um pai de família (Bryan Cranston) decide abruptamente não retornar para casa depois de um dia de trabalho. Mas ainda fica observando a sua família, passa a analisar intencionalmente a existência sem ele, desloca-se no tempo e questiona o real valor da sua presença.

Essa atitude pode soar, em um primeiro momento, arrogante e individualista, no entanto cabe ressaltar que entre espaços, o filme explora alguns conceitos interessantes sobre a rotina, relação e, principalmente, perspectiva. O protagonista volta de mais um dia cansativo de trabalho, quando o trem para – trilho e estagnação, extremamente sugestivo -, ele passa a caminhar e pensa, como o faz durante todo o longa, visto que o roteiro se baseia na narração para se desenvolver, toma uma decisão contrária à regra: se ausenta.

Todo indivíduo que já enfrentou a rotina sabe o que é esse questionamento. Somos egocêntricos por natureza, mas isso não nos impede de, em momentos pontuais, nos interrogarmos sobre o que aconteceria se não existíssemos ou se alguém nos apagasse dessa linha invisível que nos conduz para lugar nenhum. As responsabilidades que nos são entregues, as escolhas, como as pessoas reagiriam sem nossa presença? É válido o questionamento, no mesmo tempo que a resposta está muito perto da verdade dolorosa de que a vida começou, se faz e continuará. Escrevendo ou não, somos todos frutos da nossa própria escolha, somos filhos da nossa perspectiva. O mundo acaba quando não existimos. No mesmo tempo que o mundo é poderoso para reduzir-se ao fim.

Apesar de mostrar a família e o roteiro basear-se nela para sustentar seus principais dilemas, esse filme só fala sobre “um”: Howard Wakefield. É o homem que caminha em direção da catarse, questionando seus métodos, isso envolve tudo, não apenas a família. A mensagem é universal e remete à origem do homem enquanto ser social. Essa é uma obra de metáforas, nada é como soa, tenciona demonstrar sensações abstratas e constantes. A visão da diretora e roteirista Robin Swicord é delicado pois não faz julgamentos, no mesmo tempo que se rende à fáceis explicações em narrações que possuem somente esse intuito como “eu nunca abandonei minha família. Abandonei a mim mesmo”

Se por um lado o filme é inteligente na direção de arte, de modo a complementar o estado psicológico do personagem – a janela pela qual ele observa a sua família tem formato circular, o porão que ele se abriga por “anos” começa extremamente suja e bagunçada e aos poucos fica organizada, ressaltando a inadequação do burguês em meio à simplicidade e sua gradual familiarização espacial – por outro a direção não é tão especial e acaba perdendo o ritmo em diversos momentos, principalmente no segundo e terceiro ato.

Com certeza a atuação do Bryan Cranston merece aplausos, é a sustentação, personifica a melancolia e aproxima o espectador com sua narração e presença expressivamente forte. A fotografia com tons azulados não seria nada sem sua voz passando por ondulações, transitando pelo agressivo e pouco cuidadoso, culminando no doce e inseguro.

É um filme que perde o equilíbrio entre a perfeita ideia e execução, o classicismo necessário é quebrado em alguns momentos para uma tentativa forçada de dinamismo. Mas é especial do seu modo, traduzindo muito bem a reflexão da ausência e o quanto a perspectiva é inerente à situação e contexto. Basta um pequeno detalhe (nós) estar fora do lugar, que toda uma possibilidade surge arrogante, manifestando verdades que teimamos recusar e nos dizendo o quanto somos insignificantes, embora extremamente relevantes para quem nos ama.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Jim & Andy (2017, Chris Smith)

Um curioso caso de possessão performática

Stanislavski bradou, na profundidade máxima da super disposição em “violar-se”, que a atuação deve ser completa, leia-se vinda do âmago, traduzindo a realização em um espetáculo total do ator, onde ele funciona como veículo de toda uma vida multi-interpretada e por isso é necessário a sua devoção, antes de mais nada, na respiração, na observação de si.

O “método” mora sempre na violação, quando um sujeito simples e indecifrável decide quebrar as cascas do que quer que seja, há de notar inclusive que quando elas são representadas pela sua própria figura, esse movimento em rumo à revolução é muito mais intenso e demonizador. O bom ator sabe que atuar é uma operação constante e que, desse modo, faz jus ao milagre de perceber-se sozinho diante o silêncio do universo. Essa leveza e inerência da atuação começa na análise, nas inspirações, na reflexão, e a partir dai existem milhares de técnicas, mas o que realmente importa é o quanto conseguimos mensurar os detalhes daquilo que vemos ou sentimos.

Jim Carrey absorveu desde novo os pontos mais imperceptíveis de Andy Kaufman, de modo a desenvolver uma persona bem parecida no quesito humor. Se tem uma coisa que Kaufman foi brilhante, é na resinificação do sentido da plateia, cujas expectativas muitas vezes não condizem com o interesse ou necessidade real daquele(a) que apresenta. Mais do que isso, quem que assiste deveria estar preparado para atrever-se, caminhar ao desconhecido, portanto um show de comédias já possui uma série de regras pré-estabelecidas, o riso é uma obrigação e expectativa; e a expectativa, todos sabemos, alimenta almas destroçadas. Andy Kaufman, por fim, era, estava e fazia; violava sua própria imagem em prol à catarse geral, até a última estância onde a plateia se surpreende com sua própria bestialidade confrontada no espelho ao rir do que se desconhece, uma relação, por vezes, estreitamente relacionada com a imoralidade(?).

A oportunidade de vermos Jim Carrey retrocedendo aos seus próprios processos de atuação é um milagre, perceber o contraste emocional entre o jovem e o velho. Ele carrega muitos papeis que já atuou, embora as linhas de expressão e barba grisalhas denunciem que a única realidade é que o tempo passa e bons trabalhos caem no ostracismo. O documentário é perfeito em não tentar engrandecer o ator a cada minuto, é mais um devaneio sobre formas de se atingir um mesmo fim, transcendendo os limites psicológico para criar o que quer que seja. Essa crítica, por exemplo, exige muito esforço e dedicação, posso optar em escrever sobre o filme ou sê-lo. A arte sempre dará a oportunidade de escolher.

Carrey escolheu, até por meio da sua capacidade ímpar, entregar seu corpo às entidades do teatro e, através do seu fascínio, transformou-se em veículo para um ser etéreo. Sua atuação foi uma libertação, como se o menino empolgado na frente da Tv resolvesse doar sua energia para a composição de um personagem. O constante da performance é a prova de que qualquer criação artística atinge o seu ápice quando há uma simbiose entre o objeto, artista e público.

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Frequência Fantasma #6 – Quem é Jigsaw?

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Seja bem vindo você, ser vivo (ou não) a mais um episódio do Frequência Fantasma, onde a sétima arte sangrenta é o que interessa para nós. Nesse episódio nossa intenção era bater um papo sobre a polêmica saga Jogos Mortais, preparando você para para o novo filme da franquia (Jigsaw – O legado) que será lançado dia 30 de Novembro nos cinemas brasileiros. Porém falamos muito mais do conceito e da psiquê de Jigsaw, o vilão principal da saga e a essência de toda a franquia. Baixe e confira qual rumo que essa conversa tomou!

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Sergio Junior

Sergio Junior

Um mero amante do cinema de terror que sonha em compartilhar e trocar experiências relacionadas a esse gênero com todos.

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Como Nossos Pais (Laís Bodanzky, 2017)

Recusamos constantemente sermos como nossos pais, talvez essa posição seja fruto do envelhecimento. No fim, todos recorremos à nossa origem para justificar características ou decisões ao longo da vida. É tão difícil decidir entre um e outro que, aliado com a pressão social que existe para todos – se torna lamentável a aceitação do tempo percorrido e as diversas outras possibilidades desperdiçadas.

Esses são dilemas universais que atingem o seu limite máximo com a sociedade machista que vivemos, muitos teimam em separar atividades típicas como forma de infantilizar o homem, isolando-o da responsabilidade, principalmente relacionado à criação.

Se há algo certo na vida é que o maior erro que cometemos é classificar as coisas, pessoas e comportamentos. Essa inerência na divisão inconsequente do que é certo ou errado; casto e malicioso etc. Os relacionamentos são as provas fiéis disso: funcionam como o grande método da sociedade para se amarrar na utopia da completude, o castelo de felicidade que, por obrigação das forças positivas, não pode desmoronar. E, convenhamos, que bom é a existência que se permite devastar.

“Como Nossos Pais” conversa com a essência do conceito família e seu desdobramento conforme o amadurecimento das gerações seguintes. O conflito entre criação, desenvolvimento e criação. Um ciclo que as pessoas necessitam para a sua comprovação de passagem pela Terra. Ainda que a família seja objeto de estudo, o faz através de uma personagem extremamente complexa. Rosa (Maria Ribeiro) é uma mulher que acaba de saber por sua mãe que é filha de um outro homem. Essa verdade a leva para uma série de reflexões sobre a sua condição de esposa, envolvida por indiferença de todos os lados e sobrecarregada, ela busca um tempo de silêncio para compreender suas angústias, para que assim possa respirar e sentir.

A câmera fixa na cozinha, a mãe de Rosa, Clarice (Clarisse Abujamra), ao fundo desfocada; é assim que o filme começa. Escondendo a matriarca em um espaço comum (cozinha), vulgarmente conhecida por ser propriedade do feminino. Mas essa decisão ilustra a ironia, pois só o que há em “Como Nossos P a i s” é a mulher em primeiro plano, almejando lugares mais altos e se entendendo como a única peça merecedora de atenção e virtudes.

Curioso é que a partir do tema mulher, partimos para um outro relacionado com a continuidade da trajetória intrínseca entre pais e filhos. E é tão vazio nossa existência que é certeza que em algum momento já pensamos justamente na efemeridade dos bons momentos. O que sobra quando nossos pés cansam, é válido depositar esperanças na filha como uma forma de encurtar caminhos dolorosos? Qual é a relação ideal entre mãe e filha, aquela que projeta, ausenta ou incentiva?

A família senta à mesa e o masculino é privilegiado, todo esse diálogo é tão rápido, em outra ocasião seria a demonstração de uma cena descartável. Mas aqui, pelo contrário, só comprova os poucos segundos que bastam para essa família estagnar, todos julgando um ao outro ou simplesmente omitindo sua opinião. Os personagens saem e a câmera fica fixa, confrontando um ambiente morto.

Os objetos são importantes, por isso há aqui muitos planos-detalhes. Um deles é mostrando, antes de ser mencionado, o livro “Casa de Bonecas” de Henrik Ibsen, uma obra que aborda a mulher como poucos, vinculada ao casamento e sendo, por ele, oprimida. A moça foge do marido, filhos, da sua escolha e reinicia, dando muito mais valor às possibilidades encantadoras da liberdade… ou pelo menos assim antevemos que aconteça.

Uma cena que sintetiza o filme é quando Rosa discute com Dado (Paulo Vilhena) no banheiro, a fotografia permite centenas de significados. O rosto do seu marido aparece em um reflexo no espelho ao fundo, pequeno, enquanto o boxe divide simetricamente o rosto de Rosa em alguns momentos cruciais. Essas divisões no quadro retornam a acontecer só que com Dado, sempre mostrando sua esposa e filha no outro quarto, enquanto ele dorme sozinho no outro.

Impossível não ressaltar as incríveis performances de Maria Ribeiro, Paulo Vilhena e Clarisse Abujamra. Todos eles têm muito carisma e baseiam sua interpretação na naturalidade, algo de extrema relevância para o contexto geral, super profundo no estudo de personagens. A relação entre eles, os diálogos, tudo acontece em uma sintonia muito próxima, visceral, é impossível não se deixar levar e, mais do que isso, há um isolamento dos esteriótipos. Os três personagens erram porque são frágeis ao extremo.

A história de Eva é banalizada sutilmente aqui, pois a dedicação mesmo é no desabrochamento da Lilith, a mulher que domina, que está acima. “Como Nossos Pais” busca apoio no feminismo para ressaltar elementos importantes e frequentemente esquecidos em uma relação, principalmente a duradoura. No entanto, de forma alguma se atém exclusivamente aos dilemas enfrentados pela mulher, ainda que a perspectiva aqui seja feminino, o filme é muito importante para os homens, pois busca maneiras de dizer a necessidade da readaptação por amor ao próximo. Quando um se sente completo em base à incompletude de outrem, as coisas visivelmente devem ser repensadas. Por isso não há mal ou bom nas histórias, pois somos todos errantes, em busca de histórias bem vividas e não de restrição e estagnação.

Já faz tempo
E eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Esta lembrança
É o quadro que dói mais

emersontlima

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Dois curtas para conhecer a diretora Caroline Fioratti

Olhando da esquerda para a direita, a diretora Caroline Fioratti é a penúltima. Está ao lado do elenco de “Meus 15 Anos”.

Roteirista e diretora, Caroline Fioratti acredita no poder de uma história bem contada. Com diversos cursos e laboratórios de dramaturgia no currículo, Caroline se especializou em criar universos e personagens. Sua matéria prima são os conflitos humanos e suas ferramentas as técnicas narrativas e cinematográficas. A cada projeto, uma nova história esculpida com som e fúria. (Site)

Tive a oportunidade de ver, no Projeta Brasil de 2017, o filme “Meus 15 Anos”, apesar de ser nítido o fato de que não pertenço ao seu público, o achei bem mediano, apesar de clichê. Tem ao menos uma mensagem (repetiviva) importante para os pré-adolescentes. Mas esse artigo não é para falar sobre esse filme, mas sim da diretora.

Evidentemente Caroline Fioratti alcançou o maior sucesso da sua carreira ao lado da estrela Larissa Manoela, no entanto poucos conhecem os seus belíssimos curtas-metragens, a maioria voltada para o humano, família, sentimento, entre outras coisas.

A diretora tem uma conta no Vimeo e hospeda alguns trabalhos lá, portanto os dois curtas que recomendarei aqui poderão ser assistido nos links, prestigie o trabalho da diretora!

Formigas, 2009

Primeiro curta da diretora, que também assume o roteiro. A história não podia ser mais delicada ao apresentar uma família de imigrantes japoneses após a Segunda Guerra Mundial que se vê em constante alerta. A metáfora mora no fato de que as duas filhas, auge da criatividade infantil e inocência, acreditam que quem está ameaçando seu pai são as formigas.

Com uma leveza sem tamanho, apesar de demonstrar uma aflição, essa quebra com a pureza transborda sentimentos de profunda empatia pelos personagens. A linguagem se aproxima bastante, inclusive, dos filmes japoneses, onde a atenção maior são nos personagens e pequenos movimentos fazem toda a diferença no trabalho de contemplação do silêncio.

Assista ao filme clicando aqui

A Grande Viagem, 2011

Também dirigido e roteirizado pela Caroline, esse sem dúvida é o seu mais famoso curta e ainda mais delicado. Ao lidar com memórias e ansiedade em busca de um tempo passado, o qual, sem dúvidas, reflete a decisão de um personagem específico.

Lançado em diversos festivais, incluindo a Mostra de São Paulo, fica nítido o talento da diretora na sensibilidade do trato das relações humanas. A magia acontece de forma contida, inerente à disposição, um embarque na loucura do faz de conta.

O avô se perde em sua própria mente, vende sonhos e lugares, transitando na ilusão do tempo e buscando no neto o conforto do momento agora. Desde as mãos que seguram um aviãozinho de brinquedo, enquanto surge o título, passando pelas transições de lugares que exalam essa super imaginação, esse filme é realmente mágico na sua simplicidade.

Assista ao filme clicando aqui

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Kagero (Hideo Gosha, 1991)

Uma pequena menina testemunha o seu pai sendo assassinado após um jogo de cartas. Ela segue os passos dele, se torna uma jogadora e encontra a chance ideal para se vingar dos eventos do passado.
Essa obra de Hideo Gosha faz tudo menos seguir a risca essa história principal, acrescenta uma série de camadas e problemas de modo a não se transformar somente em um filme de jogatinas clandestinas. É importante ressaltar a forma que a mulher é representada aqui, tendo um vínculo com o jogo e, mais do que isso, precisando enfrentar um mundo rodeados de homens.

A atriz Kanako Higuchi de filmes como Shara (2003) e O Assassinato No Inferno De Óleo (1992) tem toda a responsabilidade da obra em suas costas, inclusive a carrega com as suas lindas tatuagens que quebram a figura delicada e inocente. Com o visual espetacular, o vermelho é uma cor bem utilizada aqui para ressaltar os perigos e conflitos iminentes do submundo do qual cada vez mais ela se envolve, o filme perde sua força com o roteiro nebuloso, algo aliviado somente com a força do terceiro ato onde a ascensão da ação se faz presente e coreografia da cena é muito boa.

Apesar de ser uma obra cinematograficamente bem executada, o longa apresenta fragilidade na narrativa e aspectos importantes que são desperdiçados conforme o desenvolvimento. Não é das melhores obras do grande Hideo Gosha, no entanto é interessante ao mostrar o mundo da máfia, das jogatinas clandestinas – há poucos filmes com o tema e esse é um bom representante – principalmente quando acrescentamos a mulher como protagonista e pertencente real e poderoso desse meio -, algo de suma importância em relação à representatividade.

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Ken Park (2002) e a ciclicidade do conceito família

Larry Clark chocou o mundo com Kids (1995) e o fez de forma dinâmica, sem pudores, com o auxílio de um jovem roteirista chamado Harmony Korine – talvez o grande símbolo da jovialidade do cinema norte-americano dos anos noventa e, por que não, sinônimo de grande visceralidade, principalmente em relação à conscientização dos adultos sobre as necessidades e liberdade dos jovens, a sua sexualidade e descobrimento, crescimento ao ponto de sofrer as consequências e não mais ignorá-las. Dois artistas com a mesma intenção que se separaram pelo tempo mas que, por graça divina, se reuniram sete anos depois para realizarem outra obra-prima que prima pelo extremismo chamada “Ken Park” (2002).

Ken Park é um garoto que anda de skate, possui sonhos e amores, ainda é, assim julgam, um aprendiz na condição de existir, buscando em si a figura de um filho, de colega ou pai, pouco se sabe sobre ele que não suas infinitas possibilidades. Em dois minutos ele está morto. O personagem que dá nome ao filme se esvai de forma súbita, quase tão sorrateiro quanto uma borboleta. A partir do momento que a linha lógica se quebra, o espectador pressente (afinal, somos orgulhosos ao ponto de tentarmos constantemente antever o que fatalmente será) que a obra em questão pode ser todas as coisas, menos linear ou condizente com a forma padrão de se apresentar o jovem e sua vida escolar/familiar.

Quando Ken Park comete o suicídio – suponhamos que o fizera por saber que seria pai, ainda que não há explicações para esse tipo de coisa – somos convidados, assim como ele, a nos ausentarmos para que assim possamos refletir sobre nossas questões mais profundas em base a quatro personagens, eles possuem em comum a mesma incomunicabilidade com a família, são frutos de um desperdício da palavra e os garotos precisam lidar com a imposição da masculinidade como prova de poder e dominação, ao passo que a única personagem feminina entre eles, Peaches (Tiffany Limos), sofre a mesma opressão vindo do seu pai, um homem extremamente religioso e que reflete na filha a imagem da sua esposa que falecera.

Os pais também são filhos, esquecemos disso constantemente. A família é desenvolvida aqui como uma entidade cínica, caminhando por entre o desespero de sentir e educar, como um impulso instintivo que anseia que as próximas gerações não sejam tão fracassadas quanto a anterior.

O pai que se embriaga e ensina o filho a pegar peso; a mãe que mesmo sozinha com a filha permite que ela assista conteúdo impróprio na TV; o que mais existe aqui é essa inerência do ser em projetar sua melancolia nos filhos e vice-versa. Há uma necessidade de todos os personagens em serem aceitos, por isso Shawn (James Bullard) é apresentado visualmente prendendo o seu irmão em uma brincadeira enquanto impõe que ele diga que o ama. O papel do jovem rebelde é desmitificado quando Shawn deixa de lado essa figura agressiva para se tornar um filho carinhoso no quarto da sogra, a qual também é sua amante. Por ela ser mais velha, ensina a ele os segredos do sexo, no mesmo tempo que media a relação entre o prazer e a comunicação, se fazendo de simples amante no mesmo tempo que se sente tocada quando o menino cria uma comparação entre ela e a filha, passado e futuro se confrontam e o tempo é sentido como um dilema crucial para o entendimento do vazio familiar que Larry Clark trabalha tão bem.

A cena de sexo sugere um carinho maternal, onde Rhonda (Maeve Quinlan) acolhe o filho e o direciona à sua vagina, ao despertar. Shawn compreende sua posição e repousa, libertando-se das amarras e da culpa.

Se há dúvidas sobre a questão da cena citada acima, na transição dela temos um outro filho, invertendo os papeis e cortando as unhas da sua mãe. A fotografia alaranjada é muito parecida com a cena anterior, o elo visual e metafórico está instalado, mães e filhos dialogam e buscam sua origem.

A relação de Claude (Stephen Jasso) e o seu pai é a mais explícita, conflito de personalidade onde será explorada questões de opção sexual, culpa e retardamento. Uma cena simbólica é quando o seu pai quebra o skate aparentemente sem motivo algum, logo em seguida cai e chora, bêbado. O skate, representando veículo e liberdade, ao ser quebrado limita o personagem ao espaço comum, de modo que seja obrigado a confrontar os seus sentimentos mais profundos e que constantemente tenta ignorar.

Se todas histórias aqui possuem um elo temático e visual, bem como diversas transições de cenas acontecem e reinterpretam ou dão ainda mais significados à anterior – de um pai chorando na calçada por ter quebrado um skate para o outro na mesa, prestes a tomar o café e que cujo costume é fazê-lo de joelhos, como se estivesse se punindo a cada refeição, momento este vinculado às interações familiares – a mais contundente, sem dúvida, é a de Tate (James Ransone). Sua vida é mostrada de forma diferente, boa parte das suas motivações e melancolia são ocultas do espectador, seus avós o tratam muito bem e momentos de ira do jovem são causados pela sua interpretação dos fatos, não em base ao contexto geral. Existe um passado cuja importância apesar de transparente jamais é mencionada, o que faz do personagem ser extremamente delicado, até por se tratar da ação mais violenta de todas contra os adultos.

Tate é o último degrau, onde a consequência do silêncio e abandono atinge o seu nível máximo, através dele percebemos o perigo do distanciamento do jovem com sentimentos relacionados à pureza. O personagem é o contraponto da “Ilha do Paraíso” mencionada ao final, em uma cena que destoa intencionalmente de todo o desenvolvimento até então, o sexo é mostrado e relacionado com a liberdade. A utopia inserida nesse momento é a chave para compreender as amarras humanas que vinculados ao seu dever ético enquanto pertencente a um meio social, esquecem quem são e por que vieram, afastando o individuo cada vez mais da sua feminilidade e, por consequência, da sua versão nua.

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CdA #77 – Do imediatismo à estagnação intelectual

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Emerson Teixeira Sandro Macena discutem sobre o imediatismo da sociedade, o que se estende para a inerência do homem moderno ao conforto e, por que não, o quanto viramos reféns das informações rápidas. A tecnologia nos auxilia, sem dúvidas, mas quais são os perigos dessa vida interligada às redes sociais? Estamos esquecendo o simples?

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Frequência Fantasma – Indicações Netflix – #1

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Seja bem vindo você, ser vivo (ou não), a mais um episódio da sua rádio quinzenal dedicada a filmes de terror, suspense e derivados. Quem nunca quis ver um filminho na Netflix no fim de semana, ficou um tempão procurando e não achou nada interessante para assistir? No episódio de hoje, Sergio Junior e Pamela, começam uma série de 5 episódios (a princípio) onde indicaremos filmes de terror e seus derivados que estão no catálogo da Netflix. Será um formato diferente e por isso é muito importante que você deixe sua opinião aqui nos comentários nos dizendo se gostou desse serviço de utilidade pública que iremos fazer para os amantes da sétima arte sangrenta.

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Arte de Capa: Raphael Cravo – Site: http://www.cravo.ink

Filmes citados no episódio:

El bar (O Bar) : https://www.youtube.com/watch?v=PTazqyeYg3Y

Invasão Zumbi: https://www.youtube.com/watch?v=7n5zdZCLW1w

Hush – A morte ouve: https://www.youtube.com/watch?v=ozO_1RARiyU

The Babysitter (A Babá): https://www.youtube.com/watch?v=HnEmDdQZ1ow

Sergio Junior

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Brawl in Cell Block 99 (S. Craig Zahler, 2017)

Quando S. Craig Zahler apresentou ao mundo o faroeste Bone Tomahawk (2015) rapidamente despertou a atenção, principalmente pelo dinamismo dos diálogos e violência gráfica trabalhada de forma orgânica, ainda que extrema. O fato é que surgia uma grande promessa, pois era nítido o excelente trabalho com atores, além dos pontos citados anteriormente.

Em Brawl in Cell Block 99 (2017) o jovem diretor mostra o seu talento novamente, se consagra como um grande nome e passa a despertar ainda mais expectativas em relação ao seu futuro. O filme prima pelas atuações como forma de conexão rápida entre os personagens e as situações ou lugares percorridos por eles. A discussão moral aqui é tão interessante quanto as cenas de ação, inclusive esse é justamente o ponto que faz esse longa agradar os interessados no gênero, mas não esquece em nenhum momento do drama profundamente filosófico, onde o estudo de personagem impera.

A introspecção leva o espectador a uma esfera repleta de sossego, ao passo que abruptamente somos rasgados com a deliciosa máquina da realidade. O personagem outrora inquebrável é o primeiro a desmoronar, ainda que o faça com uma classe assustadora. Nesse sentido, Vince Vaughn apresenta até então a melhor performance masculina do ano ao compor um personagem em constante ciência do redor, estritamente equilibrado e que ama imensamente sua família, tanto que vai do tranquilo ao psicótico em questão de segundos. O protagonista é violado pelas suas próprias decisões e permanece prisioneiro do amor, ainda que sua leve e útil prepotência faça com que ele rejeite a condição de “perdedor”, por isso nunca há desespero, nem mesmo diante da possibilidade de morte.

Assistir Brawl in Cell Block 99 (2017) é como adentrar no inferno, a violência gráfica – expositiva em diversos momentos, o que contrasta com a realidade chocante desenvolvida até então – não é nada se comparada com a fúria do roteiro, que vai transgredindo os conceitos “família”, “união” e “proteção”. Por consequência os personagens são conduzidos (obrigados) à enfrentarem a mais ordinária existência. A prisão que é mostrada através de camadas, que inclusive condizem diretamente com as atitudes de seus detentos, simboliza o psicológico do Bradley Thomas (Vince Vaughn) que alcança o seu máximo de degradação com os cacos de vidros da sua cela, representando o seu coração despedaçado pela distância e o passar dos dias, além da desesperança ao saber que não recepcionará sua filha na sua chegada ao mundo. Retrocedendo ao máximo, o filme é humano ao dispensar a violência e escolhas erradas em prol da relação de amor entre um pai e filha.

Sobre essa relação, é válido apontar duas cenas que dialogam entre si: a primeira é quando Bradley acorda com os pontapés da filha na barriga de sua esposa, ele fica tão entusiasmado que grita e, percebendo que ela continua dormindo, conversa particularmente com a filha. No final do filme acontece a mesma coisa, através do celular.

A tatuagem de uma cruz atrás da cabeça do protagonista tem valor extremamente importante na trama, não à toa é a primeira coisa exibida no começo. O personagem caminhando, em um dia péssimo, sua cruz é como uma fuga do convencional, tornando nobre um homem de figura rude. A benevolência do perdão está presente desde o princípio e a moralidade é outro tema trabalhado. Bradley reconhece que o caminho que passa a seguir após a sua demissão é perigosa, visivelmente abdicou da normalidade no momento que aceitou essa condição. Mas o real interesse passa a ser no homem de classe e disposto à enfrentar consequências de suas escolhas, tendo que se adaptar às regras do sistema que ele próprio inocentemente imaginava ignorar. Na primeira vez que Bradley Thomas briga com um policial, afim de mudar de prisão e realizar sua missão, um outro pisa em sua cabeça, exatamente na cruz. A fé passa a ser no homem e sua versão selvagem de sobrevivência e proteção, a violência é a tradução de um amor tão grande que transcende a ética.

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