O Rei dos Porcos, 2011

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★★★★

Kyung Min (um empresário) e Jong Suk (um escritor fracassado) relembram, em um jantar, os tempos da escola, quando sofriam com intimidações de um grupo de alunos.

“O Rei dos Porcos” é uma animação japonesa obscura, com uma linguagem abrupta e um desenho estranho, dois elementos que dialogam perfeitamente com o tema que a obra de Yeun Sang-Ho aborda: o bullying.

Apesar de ser um tema muito discutido na nossa sociedade ultimamente, vejo uma inversão nesse filme, parece que a pretensão é, realmente, nos aproximar da violência e ameaça na sua verdade, onde a fuga parece uma ideia utópica e a salvação, por sua vez, é somente o ódio.

Seria justo afirmar que se trata de um filme para adultos. Até porque a violência é explícita – com destaque à uma cena em que os jovens protagonistas dão facadas em um gato para provarem a sua força.

O gato, por sinal, volta em aparições e, constantemente, persegue um dos personagens como uma forma de culpa. Aliás, a animação nos provoca inúmeras vezes com a afirmação de que “se você não quiser ser um idiota, tem que se tornar um monstro” e ainda traça uma clara e dolorosa divisão entre os “cachorros” e “porcos”; uma alusão aos alunos da sala.

O desenvolvimento beira o onírico, a linguagem direta e cruel resgata o clima adulto e os traços dão um tom sujo e detalhista ao filme. É uma excelente obra cinematográfica, que exige muita atenção pois possui diversas camadas e sub-tramas relacionadas ao jovem, o medo e a vingança.

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No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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Quando Todd Haynes decide falar sobre a anorexia

Superstar: The Karen Carpenter Story, 1988

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★★★★★

Os mais jovens conheceram o diretor Todd Haynes apenas esse ano, com o sucesso de “Carol”. Mas o que poucos sabem é que ele tem uma carreira repleta de polêmicas, filmes que tendem a chocar o público comum. Como é o caso de “Superstar: The Karen Carpenter Story” – o único filme do diretor que não pode ser comercializado.

Muito bem, Haynes decidiu fazer uma cinebiografia de uma cantora chamada Karen Carpenter ( abre parenteses ) que fez muito sucesso nos anos 70 ao lado do seu irmão, Richard, onde formavam uma dupla conhecida como Carpenters. O que é preciso dizer sobre a dupla é que é excelente. Indico procurarem no Spotify, principalmente um álbum chamado “Close to You“.

O fim dos anos 60 e 70, como todos sabem, foi um momento de revolução por parte do jovem que se via muito representado por grandes nomes do rock. O lema “paz e amor” nunca foi tão grandioso e isso afetou, de diversas maneiras, o governo norte-americano que se via diante de um monstro extremamente poderoso. Os Carpenters, então, com suas músicas doces e românticas, representavam o outro lado dos jovens, calmos e comportadinhos. Isso foi muito importante na década de 70, como um sinônimo de representatividade não só das pessoas como do país – não à toa a dupla foi convidada para cantar na casa branca, no qual Nixon chegou a dizer que eles “simbolizavam o melhor dos jovens norte-americanos”.

Mas essa responsabilidade de “bom moço” era muito pesada, principalmente para a Karen que, depois de algumas críticas sobre o seu peso, começou a sofrer distúrbios alimentares, culminando em uma anorexia. Ela fica viciada em remédios e veio a falecer precocemente, com apenas 32 anos de idade. ( fecha parenteses ).

Todd Haynes contou a história de Karen em um média-metragem, analisando as possíveis causas da sua morte, que estavam diretamente relacionadas a pressão da mídia e dos familiares pela sua imagem perfeita.

Mas não paramos as curiosidades por ai: o que mais chama a atenção no primeiro filme de Haynes é que ele não utilizou imagens reais da cantora ou família, mas sim bonequinhas Barbies e Kens. Ele se utilizou dessas bonecas que são mundialmente conhecidas como símbolos de “perfeição física”, para discutir sobre a anorexia e o papel maléfico da mídia em impor um padrão de beleza, principalmente para as mulheres.

Com o sucesso do média-metragem em pequenos festivais de cinema, a família da cantora processou o diretor, obrigando-o a retirar qualquer cópia de circuito. Restando-nos conhecer essa maravilhosa obra através do download. Portanto, ao assistir, caros leitores, saibam que a qualidade é bem baixa, por ser derivado de cópias sobreviventes, mas isso de forma alguma atrapalha a experiência estarrecedora.

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A filmagem amadora afasta muitas pessoas, mas também hipnotiza os ousados por conta da identificação. A ideia de utilizar bonequinhos como atores de uma história catastrófica é profundamente mórbido, o que começa como inovador vai se tornando assustador.

O tema abordado é cruel e atemporal, o média-metragem foi lançado em 1988 e a discussão/perigos continuam o mesmo. Se pegarmos como exemplo o cinema, percebemos uma diferença gritante no que se refere o processo de envelhecimento das atrizes e atores: percebemos que os atores podem envelhecer e continuarão recendo papeis, enquanto as atrizes precisam fazer inúmeras plásticas para não entrarem em um redoma onde todos os papeis que farão, a seguir, será relacionado com dona de casa ou alguma vovó.

O homem envelhecendo é sinônimo de charme, a mulher, por outro lado, é sinônimo de derrota. Pessoalmente, não vejo outra forma de criticar essa postura sem creditar boa parte da culpa na mídia, que explora o corpo da mulher, transformando-a em produto e ignorando as suas capacidades. Mulher não é fantoche para se colocar em uma vitrine.

Karen Carpenter fora usada pelo irmão e ignorada pela família que, inconscientemente ou não, se preocupavam apenas com a parte física da cantora e não com o psicológico. De fato, Todd Haynes consegue estabelecer essas reflexões de forma densa e inteligente, criando uma mise-en-scène dar inveja em muitos diretores que, com todo o recurso do mundo, não conseguem levar qualidade para as boas ideias.

Esse filme é importante não apenas pela sua realização ousada, mas pelos temas que aborda de forma tão impactante. O diretor, para retratar o emagrecimento extremo da cantora com a sua Barbie, fatiou a boneca com uma faca, isso traz uma sensação cruel e verdadeira; milhares de jovens passam por esse problema diariamente e, se podemos tirar algo bom da triste história da Karen Carpenter, é essa alerta à família: é preciso dar atenção aos jovens, eles se sentem muito pressionados, principalmente as meninas e essa atenção, de maneira nenhuma, é limitar a sua ânsia por experiências ou liberdade, mas guiar indiretamente e ouvir, apenas ouvir.

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Mãe Só Há Uma, 2016

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★★★★

Leia a crítica sobre “Que Horas ela Volta?” clicando aqui.

Mesmo que a sensação, após terminar de assistir “Mãe Só Há Uma”, novo filme da excelente diretora Anna Muylaert, seja um pouco vazia, principalmente se analisarmos a capacidade da diretora e a qualidade de suas outras obras, é questão de tempo para percebermos que o ritmo lento, a narrativa, por vezes, desconectada, é uma simulação das emoções de um jovem que, se não bastasse ter descoberto que a sua mãe o roubara na maternidade, ainda têm que lidar com a transexualidade. A partir dessa releitura sobre o próprio processo, fica evidente o poder da história que a diretora desenvolve, seja pela reflexão sobre o que é ser mãe ou o vazio do jovem diante à um mundo cercado de regras.

Ora, pois o conceito de família é muito simples, não é mesmo? Família é aquela que está junto, o amor é cultivado com o tempo, não parte de uma condição intrínseca. Uma mãe não estabelece uma relação afetuosa com o seu filho apenas por emprestar o seu DNA; existe o mistério de parir e o milagre de criar.

O título nos revela que só há uma mãe, qual delas, me pergunto. E é polêmico, imaginem só se, por acaso, a verdadeira mãe é aquela que roubou o seu filho? Então a sua condição provém de um pecado mortal: tirar a possibilidade de uma mulher de amar a sua criação.

Não à toa, a primeira cena que mostra uma mãe – independente de qual seja – é através dos seus movimentos pela casa. Em planos detalhes direcionados à pequenos objetos, conhecemos a ação antes da imagem. Pois, compreenderemos a seguir, que a imagem é uma mentira, a verdade mora apenas no coração do protagonista Pierre.

Pierre, com as suas unhas perfeitamente pintadas, é um observador. Naomi Nero compõe o seu personagem com uma naturalidade assustadora, que, por vezes, transcende a própria atuação. Sempre cabisbaixo, falando arrastado, quase sussurrando, fazendo jus aos diálogos sempre diretos. A intenção é exibir-se como uma marionete da vida, sendo empurrado de todos os lados enquanto ele próprio não têm a oportunidade de dizer o que quer, claro, porque o mundo dos adultos é burocrático.

A fuga de Pierre é ser mulher, colocar vestidos, mudar de personalidade. Essa atitude pode soar repentina e desconectada de toda a trama, porém me vem a cabeça que o próprio personagem é. Como a diretora poderia desenvolver essa sub-trama se ela é pessoal, íntima, de um jovem cuja emoções são ignoradas pelos próprios personagens? Portanto, os espectadores acompanham distantemente essa opção do Pierre, é uma decisão artística consciente e oportuna.

A direção de arte é muito boa, o espaço das casas que Pierre percorre ajuda-nos a compreender a sua opinião. Por exemplo, umas das casas é mais apertada e bagunçada, a outra mãe, aparentemente, tem mais condições e mora em uma casa espaçosa. Pierre, ao entrar no seu novo quarto, não arruma imediatamente as suas coisas, como uma subversão do próprio local, colocando a característica que ele está habituado: uma pequena desordem. O figurino também é muito importante, com usos maravilhosos do vermelho e o posicionamento do protagonista nas cenas sempre é incômodo, apertado ou displicente.

A cena final isenta o Pierre de preocupações. No mesmo tempo que estabelece uma singela conexão com o seu novo irmão, como se fosse uma compreensão mútua. Pois, novamente, as crianças não entendem o porquê de tamanha preocupação. A praticidade toma conta das atitudes. A conclusão é de arrepiar, tamanha profundidade; Anna Muylaert volta aos seus temas recorrentes, mas de forma diferente e, por isso, merece toda a atenção do mundo.

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O Espelho, 2014

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★★★★

Você pode ler as outras críticas sobre os filmes do diretor Mike Flanagan clicando aqui.

Depois de experimentar três trabalhos do diretor, era a hora de reassistir o seu mais conhecido, “O Espelho”, de 2014. No ano do seu lançamento, lembro-me desse filme figurar em muitas listas dos melhores do gênero terror, o que me espantou, pois acreditava se tratar de apenas mais um genérico, com todos os clichês incluindo crianças, cachorro e casa assombrada; mas o fato de haver um “espelho” me chamou a atenção, por se tratar de algo indefinido e repleto de simbolismo, desde muito tempo e em muitas culturas diferentes. 

Como já era de se esperar, o diretor Mike Flanagan sempre se preocupa em trabalhar com elementos incomuns para acrescentar no clima estranho de suas obras, aqui ele aborda dois irmãos que presenciam, na infância, a morte de seus pais, de forma extremamente perturbadora. Eles relacionam os eventos terríveis à um espelho amaldiçoado, e prometem um para o outro que, quando crescerem, destruirão o objeto misterioso para ninguém se machucar novamente e, também, como uma forma de vingança.

A sinopse já revela um ponto interessante da obra: ambos irmãos já têm conhecimento da paranormalidade, restando ao espectador juntar as peças do quebra-cabeça ao longo do primeiro ato para compreender o porquê eles possuem tanto interesse em um espelho velho. É um pequeno detalhe, mas para filmes assim funcionar é preciso algumas alterações, como é o caso dessa inversão. Geralmente temos uma apresentação conjunta, tanto o espectador quanto os personagens vão entendendo e acreditando nos eventos paranormais, aqui ele já está muito bem estabelecido, é como se largasse na frente de forma inteligente e direta.

Quando Tim sai do hospital psiquiátrico – que o força, durante anos, a acreditar que os eventos do passado não têm nenhuma ligação com o sobrenatural – e encontra a sua irmã Kaylie, ela já possui uma série de ferramentas para usar contra o suposto perigo, embora possa cair por vezes na imaturidade de apresentá-los quase como um filme de ação – ela, por vezes, parece ser uma espécie de espiã – o interessante é que essas ferramentas são, na sua maioria, tecnológicas, é como se existisse nela o interesse desenfreado de registrar o oculto através de equipamentos mundanos e suscetível ao erro.

O núcleo é apoiado na relação entre os dois irmãos, como se eles fossem os únicos a compreender as verdades do mundo e incapazes de provarem a sua sanidade e no registro através de filmadoras, quase como um experimento amador. No entanto, o desenrolar só ganha proporções maiores com o trabalho dedicado do diretor em mesclar os eventos do presente com fragmentos do passado, parece que o próprio passado é o demônio que transtorna os irmãos, e a relação que se estabelece entre Tim e  Kaylie ainda crianças e Tim e Kaylie adultos, é extremamente eficaz. Em diversas vezes essa opção confunde, propositalmente, essas duas linhas do tempo acabam se tornando uma só. Aliás, essa mesma estratégia foi usada posteriormente, pelo Mike Flanagan, em Sono da Morte, só que nesse caso era o mundo dos sonhos, que por sinal também tinha relação com o passado.

Quanto aos atores, destaco a Annalise Basso que chama tanto a atenção com a sua qualidade, que a Kaylie Russell criança se torna até mais impactante do que adulta, se mostrando sempre forte e preparada, apesar de transmitir muito medo. A atriz Annalise Basso já havia demonstrado um certo talento em um filme bem divertido chamado “Ilha da Aventura” e, além de fazer parceria com o Mike Flanagan, anda fazendo alguns trabalhos alternativos. Outro destaque é a atriz Katee Sackhoff que faz uma mãe que desmorona após perceber as mudanças psicológicas do marido, sua expressão sempre perdida e apreensiva chama a responsabilidade e até ofusca o Rory Cochrane que, sem dúvida, é o único que não faz jus ao seu papel.

“O Espelho” é mais uma prova que o cinema de terror pode inovar, apesar de ser extremamente complicado, basta pequenas novas ideias e talento, algo que já podemos esperar do jovem Mike Flanagan, sempre nos entregando obras, no mínimo, interessantes.

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Espírito de Lobo, 2016

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“Espírito de Lobo” é o novo filme do diretor Jean-Jacques Annaud que, na maioria dos seus trabalhos, se dedicou a investigar a história da humanidade; obras como “O Nome da Rosa” e A “Guerra do Fogo” ultrapassaram a sua importância no audiovisual e atingiram diretamente a educação.

Em seu mais recente filme ele acompanha o jovem Chen Zhen, em plena década de 60, na China, que é enviado para viver com os nômades do interior da Mongólia. Em prol aos estudos e, ao mesmo tempo, terá a oportunidade de ensinar as crianças do local. Com a experiência ele têm a possibilidade de refletir sobre as diversas condições de vida e, principalmente, as similaridades que o homem possui com os lobos, uma metáfora para a sobrevivência, estratégia e força.

O filme é uma perfeita mistura das obras da Byambasuren Davaa, principalmente o “Caverna do Cachorro Amarelo” e, também, o filme da Islândia “Cavalos e Homens“. Isso porque nos mostra a vida dos nômades, algo que a diretora mongol faz com extrema competência nos seus documentários, inclusive com uma sensibilidade bem parecida; e se assemelha com “Cavalos e Homens” na sua contemplação do animal como forma de estabelecer uma conexão com o homem. Há ainda uma dedicação em discutir, nas entrelinhas, a natureza como uma força projetada no respeito para com todos os seres vivos.

Como a narrativa se apoia na naturalidade, há diversos intervalos de silêncio para a reflexão. O longa parece querer propor ao espectador, constantemente, uma viagem ousada. Adentrando uma forma de vida completamente diferente, onde o cultivo e o contato com a terra representam uma obrigação e o avanço intelectual é a aceitação dessa condição.

O protagonista chega ao interior com a oportunidade de ensinar, mas o faz em poucos momentos. Rapidamente a sua arrogância de menino estudado da cidade grande dá lugar a um tímido aprendiz, olhando o seu redor com muito fascínio por sentir vida em cada grama e sentir amor em cada lobo, mesmo que o animal represente a força, sobrevivência e morte, Chen Zhen os enxerga como seres superiores, deuses da inteligência, e existe um quê de milagre nessa percepção.

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De todos os animais, o lobo é um dos raros que representam coisas bem distintas, todas com a mesma força e repleta de significados. Em uma primeira camada, ele representa, em diversas culturas, o bem, por estar diretamente ligado com a força, agilidade e inteligência. Por outro lado, é sabido que há muito tempo o lobo tem sido atribuído ou mencionado como um ser envolvido com o mal. O interessante é que o que transforma ele nessa rede de diversas possibilidades é justamente as suas virtudes, ora, é difícil confiar nos estrategistas.

Essa ideia de poder, unido com inúmeras outras características do lobo – como por exemplo o fato dos casais permanecerem juntos a sua vida inteira, ou seja, estruturação da família – nos faz compreendermos o porquê da grandiosidade do filme, resgatar todos esses conceitos e estabelecer uma conexão entre todos os personagens e dilemas, com isso, criar uma ponte com quem assiste, é realmente algo maravilhoso. Com um visual hipnotizante, ressaltando sempre as cores e a grandiosidade da paisagem – que envolve os personagens, culminando em uma cena que o protagonista adentra uma pequena caverna para pegar um filhote de lobo que se escondia dentro – é fácil creditar “Espírito de Lobo” como um ensaio sobre a fé, da forma mais pura que existe, contemplando o real, compreendendo que a caça e, consecutivamente, a morte, fazem parte da vida.

É citado ao longo Gengis Khan, que estudou estratégia com os lobos. E tem muita relevância essa observação, pois o filme fala de movimentos. Os jovens embarcam para uma jornada no interior, os lobos se locomovem para sobreviver, os nômades transitam para criar, enfim, existe uma sincronia a ser registrada, de forma tão carinhosa e orgânica, como o vento.

Esse desenvolvimento aprazível nos lembra da virtude em estar diante a vida, lembrando que sobreviver e viver são coisas bem diferentes mas, assim como os lobos, a dicotomia pode entrar em comunhão, mesmo que por um breve instante.

Resgata ainda cenas de verdadeiras batalhas, homem enfrentando os animais, a natureza e o seu próprio medo. Assistir filmes como “Espírito de Lobos” é entregar-se à um ritual, onde só apreciam aqueles que se doam por completo. Não à toa o diretor abusa dos closes nos lobos, como uma forma de nos aproximar do perigo, ou até mesmo estabelecer uma conexão com os deuses. Lembrando que em diversas culturas indígenas, os lobos também sempre foram a representação da magia na terra.

Shaofeng Feng dá ao seu personagem, Chen Zhen, uma doçura estonteante, a cada olhar demonstra uma humildade, reduzindo-se a um servo da vida, atônito diante a grandiosidade da natureza.

O filme têm como maior mérito essa intenção de transformar o simples e visual em poesia, exaltando aquilo que não se olha, de uma forma que não se sente. Brincando com o improvável e desmistificando a ingenuidade. Somos seres primatas primando pela singularidade, caminhando em direção a morte, mas, nem por isso, esquecendo de fazer uma épica jornada a caminho de uma explicação.

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À Sombra de Uma Mulher, 2016

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★★★★★

Esse filme me chamou a atenção por inúmeros motivos, dentre eles, a simplicidade e realismo, maravilhosas características do diretor Philippe Garrel. Mas nada me tocou tanto do que os dois personagens centrais, o casal Manon ( Clotilde Courau ) e Pierre ( Stanislas Merhar ).

Contudo, após terminar de assistir esse filme, me peguei pensando que, talvez, o motivo do meu fascínio por esses singelos personagens, se encontre no fato de que eles são documentaristas. Grande parcela da minha identificação partiu dessa conexão de ambos, criadores e sobreviventes, tão pouco e tanta arte. Enfim, é algo mostrado de forma extremamente natural e que me conquistou desde o primeiro momento.

Com poucos minutos de duração, o diretor percorre uma história de incertezas que, aparentemente, não pretende chegar a lugar nenhum; ledo engano, há alguns artistas que pronunciam mil palavras em um silêncio. Existe muitas coisas a serem ditas sobre o final de uma relação e Philippe Garrel sabe disso.

Com a narração de Louis Garrel, filho do diretor, somos conduzidos a admirar a beleza da verdade, a incoerência da traição e questionar as relações do homem. Manon e Pierre fazem pequenos documentários, sobrevivem do pouco, criam, mas não estão completos. Estranho é imaginar algo assim, parece ser perfeito encontrar um outro alguém que abrace os mesmos projetos que você. Mas, repetindo, Maron e Pierre fazem documentários, isso quer dizer que são devotos da verdade. Eles existem e se adaptam ao meio, no mesmo tempo que, nas suas intimidades, sofrem com a ausência um do outro, sempre em silêncio e nunca registram isso, nunca desabafam, diferentemente do documentário que produzem.

Uma cena linda é quando Maron e Pierre assistem a um filme e dão as mãos, como se existisse uma série de conexão entre eles: as mãos, ele e ela, eles e o filme, o filme e as mãos. É tudo muito sútil, a fotografia preto e branco, as músicas delicadas, a linguagem cotidiana, enfim, tudo muito bem pensado e que nos leva para uma viagem deliciosa e impactante.

Por diversas vezes Pierre parece se camuflar, a mais explicita cena é quando ele está sentado em uma escada e se confunde com o cenário, parece não ser ninguém ou apenas mais um, a forma como essa questão é trabalhada é interessante.

Para desestabilizar o casal, entra em cena a Elisabeth – interpretada pela Lena Paugam – e ela começa uma relação com Pierre, se torna a sua amante. Importante é que ela sempre fica na sombra dos dois e se consome justamente por essa posição.

“você está me vampirizando”

“À Sombra de Uma Mulher” é uma preciosidade, analisa o relacionamento e as suas diversas questões com uma maturidade impressionante. Seriam as traições uma fuga do óbvio ou um medo da sensação de completude?

É curioso notar que, no momento que Pierre e Manon estão passando por problemas, ambos não filmam, como se deixassem de criar para serem criados. E, assim, somos todos nós, protagonistas das nossas pequenas histórias indecifráveis.

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Dabbe: Bir cin vakasi e o cinema de terror turco

Dabbe: Bir cin vakasi

★★★

Depois do sucesso de “Atividade Paranormal”, bastou pouco tempo para o formato de gravações em diversas casas ao redor do mundo se tornasse uma ferramenta exaustivamente utilizada. Teve filme desse formato no Japão, Espanha e outros diversos países, mesmo que por algumas cenas. É o caso de “Dabbe: Bir cin vakasi”, um filme da Turquia, dirigido pelo Hasan Karacadag, que é um dos grandes nomes do terror por lá.

Se pegarmos a história do cinema turco, veremos que nas décadas de 70-80-90 houveram muitas adaptações clássicas de filmes hollywoodianos, como por exemplo uma versão horrível de Rambo, chamada “Korkusuz”.

Korkusuz, 1986

Korkusuz, 1986

Mas o gênero terror foi muito pouco explorado, talvez por uma questão meramente social e de interesse econômico. No entanto, as coisas começaram a mudar com o aparecimento de um diretor chamado Hasan Karacadag. Ele estudou cinema no Japão, se aprimorou no que diz respeito a linguagem cinematográfica e lançou, em 2005, com apenas 28 anos, um filme chamado “Dabbe”. Esse filme revolucionou a Turquia, as pessoas começaram a acreditar no seu cinema de horror. A obra, mesmo sendo fortemente influenciada pelo cinema americano e, principalmente, o japonês, apresentava conceitos interessantes e contextualizava o medo com a cultura da Turquia. Por exemplo, a demonologia islâmica sendo trabalhada para provocar o medo, foi um atrativo importante para o mundo.

“Dabbe” mescla o paranormal, com ondas de suicídios sem explicações. É muito interessante para quem gosta de adentrar em culturas diferentes, principalmente quando o medo é a porta de entrada para esse estranhamento.

Hasan Karacadag, sendo inspirado fortemente pelo Stephen King, se interessando pelo misticismo desde criança e apaixonado pela forma que o cinema de terror japonês conduz o medo, realizou diversos outros trabalhos na Turquia e ganhou fama por lá. Sendo sinônimo de sucesso, quando falamos de cinema de terror turco.

Bebendo da fonte do cinema americano, novamente, chegamos em 2012 com o filme “Dabbe: Bir cin vakasi”, onde o diretor utiliza ao seu favor o famoso mockumentary, ou documentários falsos. Onde um ou vários personagens registram os seus passos afim de se protegerem ou buscar explicações para algum fato estranho.

O filme começa com uma suposta gravação real, de um caso de uma mulher que sofria com o sonambulismo mas que, aos poucos, foi-se descobrindo que o problema era muito mais do que isso. Somos apresentado à uma família e o estilo de filmagem já está preparado, a apresentação é feita de forma direta e até agressiva, pois coisas estranhas já estão acontecendo.

Passado alguns clichês como coisas caindo, luzes apagando, pessoas levitando etc. Há uma segunda parte onde o motivo dos casos sobrenaturais vão sendo explicados, é nesse momento que o filme parece funcionar realmente: pois sabemos que se trata de um caso de magia negra, que envolve demônios e alguns conceitos bem diferentes, como uma cena em que um dos personagens invade uma casa abandonada, e se depara com inúmeros objetos amaldiçoados, como espelhos e bonecos de vodoo.

Apesar dos efeitos bem simples e de algumas atuações forçadas, “Dabbe: Bir cin vakasi” é um filme com uma estrutura bem diferenciada e, apesar de beber da fonte do “Atividade Paranormal”, consegue ser melhor que todos os filmes da série ao redor do mundo.

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The Ardennes, 2015

The Ardennes

★★★★

Assistir “The Ardennes” – filme indicado pela Bélgica para ser o representante no Oscar 2017 – é um processo interessante, uma viagem através de dilemas sobre liberdade, família, impulsão e natureza.

O diretor Robin Pront, que também assina o roteiro ao lado de Jeroen Perceval, um dos atores principais – conduz a sua narrativa de forma inteligente, sempre apostando na fotografia e som como forma de exaltar a densidade que acompanha o desenvolvimento.

A história é sobre dois irmãos, Dave e Kenneth, que percorrem um mundo criminoso até um deles, Kenneth, ser preso. Após alguns anos na cadeia, ele sai e se depara com um mundo muito diferente, começando pelo seu irmão que, com muita disciplina, abandona o mundo do crime, a bebida e tenta restabelecer uma ordem em sua vida. Entra em cena uma terceira personagem, Sylvie, ex-namorada de Kenneth e que está grávida, isso desestabiliza a relação dos irmãos e os direciona para o caos.

The Ardennes

Dividindo-se, claramente, em duas partes, a obra de Robin Pront parece indicar ao espectador, desde os primeiros momentos, que algo catastrófico virá em seguida. A trilha sonora constante, eletrônica, algo parecido com o excelente “Drive”, eleva o grau de atenção, envolvendo não só o espectador como a grandiosidade dos pequenos movimentos do protagonista que é tomado por uma impulsividade enorme. Essa impulsividade é o ponto forte do filme, pois sugere a incoerência, é o espaço onde a imprevisibilidade assume o poder na narrativa.

Se Kenneth, interpretado brilhantemente por Kevin Janssens, atrai os olhares, o mesmo pode-se dizer Dave ( Jeroen Perceval ) e Sylvie – vivida com maestria pela excelente Veerle Baetens, que vêm mostrando ser uma das melhores atrizes da atualidade depois de “Alabama Monroe” – os três formam um triangulo amoroso silencioso, cercados pelo perigo e domados pela insegurança. Pertencentes a um mundo desequilibrado onde tudo é melancólico e destruído, prova disso é a fotografia: Com os seus tons de azul, remete a ideia de frieza e, principalmente, distancia.

O tema mais surpreendente e melhor trabalhado aqui é, sem sombra de dúvidas, a liberdade. Existe uma “corda invisível que aprisiona todos os personagens”, e ela facilmente poderia ser denominada como culpa. O protagonista se vê livre quando sai da prisão, mas acorrentado nesse mundo exterior sujo. Não a toa, por diversos momentos, o personagem está refletindo em uma janela do carro e é possível perceber claramente que a imagem sempre está borrada, ora é uma sujeira no vidro, ora sombras ou até mesmo a chuva. Sempre nas cenas em quê os personagens estão diante de um vidro ou janela que dá a impressão de mundo “interno” e “externo”, a imagem sempre está nebulosa, ressaltando mais uma vez o quanto essa suposta liberdade é ilusória.

The Ardennes The Ardennes

O filme ganha ainda mais destaque com o seu desenvolvimento realizado, oportunamente , de forma cautelosa, atingindo proporções surpreendentes quando passa a ser um thriller incrivelmente tenso, obrigando-nos a aceitar uma mudança repentina, porém, muito bem justificada, onde a violência e ações passam a ser extremamente viscerais.

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Herança de Sangue, 2016

Blood Father, 2016

★★★★

O tempo está a favor do diretor Jean-François Richet. Tendo grande experiência em filmes policiais de baixo orçamento na França – a maioria de qualidade duvidosa, inclusive -, entre 2015 e 2016 resolveu mudar completamente e lançou dois longas, e o mais interessante é perceber o quanto são diferentes entre si: se por um lado “Un moment d’égarement” é uma comédia romântica aceitável para diversão, daqueles que provocam um leve, mas constante, sorriso no rosto, por outro “Blood Father”, ou “Herança de Sangue”, é uma diversão para quem gosta de filmes explotaion de vingança, principalmente dos anos 80. O que os dois recentes filmes do diretor têm em comum, então? Ora, de fato é o leve sorriso no rosto.

Depois de algumas atitudes duvidosas do ator e diretor Mel Gibson, em 2008, ele nunca mais foi o mesmo. A carreira estacionou e, basicamente, tudo o que ele participou nesse intervalo é mediano para ruim. Apesar de ter investido em outros filmes que exploram a ação e correria, “Herança de Sangue” me parece ser o mais agradável e, sem dúvida, o que dá uma maior liberdade para Gibson desenvolver o seu personagem.

Se pautando freneticamente na ação, mas sempre apresentando doses de um drama familiar eficiente, apesar de clichê, o filme conta a história de Lydia ( Erin Moriarty ) que se envolve com traficantes e, por alguns problemas, é perseguida por eles. Ela procura ajuda do seu pai, John Link ( Mel Gibson ), um homem que vive solitariamente em seu trailer, fazendo tatuagens e tentando se esquecer de um passado sombrio, que envolvia drogas e violência.

Além da atuação de Mel Gibson, a atriz Erin Moriarty chama bastante a atenção e mostra, mais uma vez, que tem um grande futuro no cinema, a sintonia entre os dois atores é muito boa e só cresce com o desenrolar da trama. Há algumas coisas no roteiro que prejudicam a ideia principal, como eventuais clichês absurdos em quê um recepcionista de hotel ajuda dois foragidos por nenhum motivo aparente – tirando a possibilidade de ter se apaixonado subitamente pela Lydia, o que seria implausível – mas o conceito de vingança, mais uma vez, é trabalhado de forma divertida e, mesmo não se tratando de uma obra complexa, consegue conquistar justamente pela sua despretensiosidade.

Quem gosta de filmes de ação dos anos 80, poderá perceber uma série de homenagens e, também, diversas cenas que fazem um reflexo tanto da carreira como também de algumas polêmicas envolvendo o Mel Gibson. O protagonista durão, mas com sensibilidade gigantesca – muito por conta de um outro personagem, interpretado pelo maravilhoso William H. Macy  – casa perfeitamente com o ator e suas expressões naturais.

A fotografia alaranjada acrescenta uma dimensão, como sempre, importante para o deserto, ressaltando a sua grandeza frente aos personagens. Outro aspecto curioso são os diálogos, sempre muito dinâmicos e com piadas pontuais. “Blood Father” certamente dividirá opiniões, mais ainda é um bom passatempo, utiliza-se de diversos artifícios já vistos, mas acaba, através da sua linguagem jovial, perseguições e personagens, chamando a atenção dos amantes de um bom filme de ação e do ator Mel Gibson.

emersontlima

No fim, sou apenas um cara fantasiado de coelho que, durante o dia, coloca a máscara de homem e paga uma de intelectual com aqueles que exaltam qualquer manifesto de inteligência.

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